Rui Borges não tem de pedir desculpa...
Se Rui Borges é um treinador em avaliação semanal, cujos próximos resultados vão ser decisivos, então o Sporting tem um problema: um treinador a prazo. Numa relação não existe veneno maior do que o «mas» e o «se». Ninguém está em condições de dar tudo e de se jogar de cabeça se sabe que a qualquer momento pode ficar sem chão. O instinto de sobrevivência é mais forte do que a saudável ousadia do risco e jogar na defesa não é, no futebol como na vida, a melhor maneira de ganhar jogos. Sei que todas as relações têm crises, mas só é possível trabalhar nelas com um horizonte intemporal. Se o objetivo é o imediato, a crise não passa de um divórcio iminente.
Há poucas semanas, Frederico Varandas explicou porque a saída de Rui Borges nunca foi equacionada e a razão para ele ser o treinador do Sporting: os números em termos de resultados, tendo estado o Sporting sempre na discussão dos títulos; a muito boa Liga dos Campeões em 2025/26, que deu retorno vital de 80 milhões, muito por mérito do treinador; a equipa jogar bom futebol; todos acreditarem no processo. Se as duas primeiras razões são imutáveis, terá mudado a avaliação das outras duas? Se mudou, mudou assim tão rápido? Que segurança há numa avaliação que possa ter mudado ao fim de duas derrotas caseiras, com LASK e Académico de Viseu?
Nesta avaliação, tem também de pesar o grau de compromisso dos jogadores em relação ao treinador. Nenhum sinal me dá indicações de quebra dessa ligação. Mais: sendo verdade que o futuro imedidato de Rui Borges poderia ficar traçado no jogo com o Marítimo, não deixa de ser irónico que Rui Borges tenha tido de confiar nos jogadores que habitualmente não utiliza... E em Rui Silva, que mereceria um artigo só para ele, que foi de uma seriedade, dedicação e competência de se lhe tirar o chapéu. Terça-feira seria um bom dia para a equipa 'empurrar' o treinador e o que aconteceu foi o contrário.
Eu não tenho a certeza que Rui Borges seja, neste momento, a solução que o Sporting precisa . Questiono várias opções tomadas. E tenho uma enorme dúvida: qual a verdadeira dimensão da participação do treinador no processo de revolução do plantel? É aqui que Varandas tem de fazer exame de consciência. Terá acreditado que o processo de decisões em Alvalade se tornou infalível? Que tudo em que o Sporitng toca se transforma em ouro? E se eu até vi algum arrojo e coragem em decisões estruturais para o plantel, terá havido a ingenuidade de acreditar que iria resultar de imediato? As revoluções exigem convição duradoura e paciência. Por isso, ou se acredita cem por cento em Rui Borges ou mais vale mudar agora. Banho maria por norma dá em banhada...
Finalmente, e perdoem-me algum exagero no que vou dizer a alguns adeptos e comentadores: incomoda-me profundamente que Rui Borges quase tenha de pedir desculpa por entenderem que o fato não lhe assenta bem, por a barba não ser a mais bem aparada, por gostar de comer numa tasca ou por se afirmar orgulhosamente transmontano. Se o que está em causa é o pedegree para treinar um clube como o Sporting, então vou defender Rui Borges até ao fim. Ele sente-se, como eu me sentiria, já que somos filhos de boa gente. Para azar dele, nem caiu em graça nem é engraçado. Não tem é de pedir desculpa por isso.