Bolsonaro publica, apaga e muda carta em que se proclama presidente e líder do Brasil
Após ter viajado para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta na qual recusa reconhecer o desfecho da segunda volta das eleições presidenciais e a vitória de Lula da Silva. O senador alegou a existência de fraude no processo eleitoral e autoproclamou-se o «verdadeiro presidente do Brasil» e o «presidente eleito», mas a mesma carta foi sendo apagada e rescrita, sendo que na versão inicial até o nome oficial do país e o brasão de armas do Brasil estavam errados. A primeira versão tinha como cabeçalho um brasão em que se lia «Estados Unidos do Brazil», com Z, sendo que o nome oficial é República Federativa do Brasil desde 1967.
Pouco tempo depois de publicar a primeira versão do documento, em formato de imagem, partilhou uma nova versão corrigida, na qual substituiu as menções de «verdadeiro presidente do Brasil» e «presidente eleito» pelas designações «líder do Brasil».
Bolsonaro recusa assim a validação oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou o triunfo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Flávio Bolsonaro publicou uma TERCEIRA VERSÃO da carta Agora ele não é mais “presidente eleito”, mas “líder do Brasil” O brasão não é mais dos “Estados Unidos do Brasil” mas o brasão oficial do pais Mais duas versões da carta e ele vai dizer que o nome dele nem Flávio é https://t.co/ao3LIyuEgO
— William De Lucca (@delucca) October 28, 2026
Na missiva, Flávio Bolsonaro expressou agradecimentos a chefes de Estado internacionais, nomeadamente Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Javier Milei, presidente da Argentina, assegurando encontrar-se em solo norte-americano com a família e «em segurança». O senador rejeitou que a saída do Brasil configure uma fuga, mas antes um exílio político, comparando-se a figuras como Rui Barbosa, um dos maiores intelectuais brasileiros, ou o estadista francês Charles de Gaulle, ao mesmo tempo que acusou o poder judicial de promover um «regime de exceção» e «perseguição política» contra os seus familiares.
O parlamentar dirigiu fortes críticas às instâncias judiciais e apontou uma «impossibilidade matemática» na contagem dos votos, contestando particularmente a intervenção de Cristiano Zanin, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado autorizou o prolongamento da votação por duas horas após pedidos submetidos tanto pela candidatura de Lula como pela campanha de Flávio Bolsonaro, motivados por constrangimentos nos transportes públicos e condições meteorológicas adversas. Mais: já se sabe que esse prolongamento possibilitou o registo de 35 mil votos, sendo que a diferença entre os dois foi de mais de 4 milhões de votos.
«A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno», sustentou o senador, aludindo ao passado de Cristiano Zanin como mandatário judicial de Lula da Silva.
Decidido a comandar a oposição a partir de território norte-americano, o senador defendeu a anulação do mandato atribuído à lista vencedora, encabeçada por Lula e Geraldo Alckmin. Na primeira versão do texto publicado, escreveu: «Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania» — passagem que foi posteriormente alterada com a troca do termo «presidente eleito» por «líder».
Logo após as eleições, a Justiça determinou que entregasse os passaportes.
Recorde-se que Flávio Bolsonaro é visado em dois inquéritos a tramitar no STF. Um deles averigua o financiamento da produção cinematográfica Dark Horse, filme sobre o percurso do ex-presidente Jair Bolsonaro. O outro incide sobre suspeitas de branqueamento de capitais através de plataformas de apostas e meios de pagamento digitais, em ligação com o advogado Willer Tomaz.