Vitinha: uma estrela que brilha de forma contínua
Há jogadores que precisam de um grande jogo para serem notícia. Outros precisam de um golo decisivo, de uma assistência ou de um momento de inspiração que se torne viral e percorra o mundo em poucos segundos. Vitinha já não precisa de nada disso para justificar o reconhecimento que conquistou. A sua grandeza não se explica por um instante - explica-se pela forma como transforma a excelência num hábito.
Vitinha é, como se costuma dizer, um craque da cabeça aos pés. Um talento extraordinário, daqueles que nos fazem gostar ainda mais de futebol, mas aquilo que verdadeiramente o distingue não é apenas a qualidade técnica, a relação com a bola ou a capacidade de encontrar soluções onde os outros veem dificuldades. É a inteligência… uma daquelas raras, que lhe permite compreender o jogo antes de muitos dos seus adversários perceberem o que está prestes a acontecer. É normal vermos jogadores que correm atrás do jogo… Vitinha não, vejo-o jogar e fico sempre com a sensação que ele está um passo à frente do próprio jogo que está a disputar. Jornada após jornada na Liga Francesa e, na semana passada, voltou a demonstrá-lo numa das grandes noites da Liga dos Campeões...
O Paris Saint-Germain venceu o Barcelona por 4-2, num encontro entre duas das melhores equipas da atualidade, e o internacional português voltou a assumir um papel determinante. Aos 81 minutos, quando o resultado estava empatado a dois golos e o jogo parecia aberto a qualquer desfecho, Vitinha apareceu para marcar o 3-2. Um golo de enorme importância, mas que representou apenas a expressão mais visível de uma influência que se fez sentir ao longo de toda a partida. Uma semana antes, em Manchester, já tinha brilhado na vitória do PSG sobre o Manchester City, também por 4-2, novamente com um golo. Dois adversários de dimensão mundial, duas vitórias expressivas e duas demonstrações de uma qualidade que deixou de surpreender pela excecionalidade e passou a impressionar pela continuidade.
É precisamente aqui que, na minha opinião, reside a diferença entre um grande jogador e um futebolista verdadeiramente especial. O primeiro é capaz de decidir jogos. Já o segundo consegue influenciar a forma como toda uma equipa joga, pensa e reage. Vitinha pertence cada vez mais a esta segunda “categoria”… não se limita a participar na construção - organiza-a. O médio luso não recebe apenas a bola, dá-lhe sentido e objetividade. Sabe quando acelerar, quando esperar, quando atrair a pressão e quando libertar um companheiro e, faz tudo isto com uma naturalidade que, por vezes, nos leva a esquecer a enorme complexidade das suas decisões.
Luis Enrique não se limitou a reconhecer o talento do português; encontrou uma forma de o colocar no centro da identidade coletiva do PSG. Em fevereiro de 2025, definiu-o como «o médio perfeito». Meses depois, foi ainda mais longe, afirmando não ver nenhum médio melhor do que ele. São palavras particularmente relevantes quando chegam de um treinador que construiu uma equipa assente na intensidade, na mobilidade, na posse de bola e na inteligência coletiva. Luis Enrique não procura jogadores capazes de executar as suas ideias, procura sim futebolistas que as compreendam, interpretem e desenvolvam dentro do campo.
Há, aliás, uma dimensão de liderança nesta relação que merece e deve ser valorizada. Um treinador não desenvolve um jogador apenas por lhe transmitir conhecimentos, desenvolve-o também quando identifica aquilo que o torna diferente, acredita nesse potencial e cria condições para que se manifeste. Vitinha reconheceu publicamente que Luis Enrique chegou a ter mais confiança nele do que ele próprio. É uma afirmação reveladora do impacto que a liderança pode ter na carreira de um atleta. Por vezes, o passo decisivo não está em ensinar alguém a fazer mais, mas em ajudá-lo a perceber tudo aquilo que já é capaz de fazer.
O reconhecimento ultrapassou largamente as fronteiras de Paris. Thierry Henry, na última temporada, depois de assistir à influência do português na eliminatória frente ao Liverpool, afirmou que Vitinha parecia jogar um desporto diferente. O antigo internacional francês não estava a elogiar um drible espetacular ou uma jogada para os resumos televisivos - estava a destacar algo muito mais difícil de encontrar: a capacidade de controlar o ritmo de uma partida. Também Luka Modric, uma das maiores referências do futebol mundial nesta posição, considerou Vitinha um dos melhores médios do mundo, sublinhando a sua visão de jogo e a capacidade de melhorar o rendimento da equipa.
É curioso perceber que o próprio Vitinha identifica Andrés Iniesta e Luka Modric como duas das suas maiores referências - não é difícil encontrar pontos de contacto. A inteligência na ocupação dos espaços, a qualidade da decisão, a serenidade perante a pressão e a capacidade de fazer parecer simples aquilo que é extraordinariamente difícil, mas Vitinha não precisa de ser o novo Iniesta ou o novo Modric. Porquê? Porque o português está a construir uma identidade própria, num futebol cada vez mais físico, acelerado, exigente e complexo. É também por isso que a sua afirmação deve merecer uma reflexão mais ampla sobre a forma como avaliamos os futebolistas porque continuamos, demasiadas vezes, a confundir protagonismo com influência. Os golos, as assistências e os momentos individuais são fundamentais, mas não contam a história completa de um jogo – muito pelo contrário. Há jogadores cuja importância se mede naquilo que fazem com a bola. A influência de Vitinha mede-se igualmente naquilo que permite que os outros façam, na segurança que transmite, nas linhas de passe que cria, no equilíbrio que assegura e na capacidade de transformar onze talentos numa equipa com uma ideia comum.
A sua evolução também nos recorda que o talento, por maior que seja, precisa de contexto, confiança e trabalho para atingir a plenitude. O jogador que saiu do FC Porto para o PSG, em 2022, não chegou imediatamente ao estatuto que hoje ocupa. Cresceu, adaptou-se, ultrapassou dificuldades e encontrou num projeto coletivo o espaço necessário para desenvolver todo o seu potencial. Num futebol cada vez mais impaciente, em que tantas avaliações se fazem ao ritmo de uma jornada, o percurso de Vitinha demonstra o valor de acreditar, trabalhar e evoluir sem perder a identidade.
Para Portugal, há ainda um motivo de orgulho que não deve ser disfarçado. Estamos perante um dos grandes médios do futebol mundial, um jogador que representa o país ao mais alto nível e cuja influência é reconhecida por treinadores, antigos campeões e adversários. Um génio que é nosso - Português. E que, apesar de todo o reconhecimento planetário, continua a demonstrar através do seu exemplo, que o mais importante para si não é ser o centro das atenções, mas ser o centro do jogo.
Vitinha é um futebolista que não precisa de procurar constantemente o brilho individual, porque a sua verdadeira grandeza está na forma como ilumina o jogo coletivo. Os golos frente ao Manchester City e ao Barcelona ficarão nos registos desta Liga dos Campeões, mas aquilo que faz dele um jogador extraordinário acontece muito antes e continua muito depois desses momentos.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar»