Ronaldo volta às finais

Um golo da lenda apurou o Al Nassr para a sua primeira final da Champions Árabe, onde vai medir forças com o Al Hilal de Jesus e Rúben Neves

Anormalidade regressou à vida do eterno Cristiano Ronaldo depois de uma época para esquecer. São os golos a escorrer (quatro nos últimos quatro jogos), mais uma final no currículo (a 34.ª) e mais um título (o 33.º) no horizonte. Ontem, na meia-final da Liga dos Campeões Árabes contra os iraquianos do Al Shorta, a lenda portuguesa marcou de penálti (75m), com um tiro seco, o golo que apurou o Al Nassr de Riade para a sua primeira final na Champions.

Os largos milhares de adeptos da equipa saudita presentes no estádio bin Abdul Aziz, em Abha (a 2.270 m de altitude), acompanharam o festejo do capitão com o «siiiiuuuu» da ordem, entusiasmados com a exibição da equipa e com a categoria dos novos recrutas. Pelo que me foi dado a ver num resumo alargado do jogo, o Al Nassr dominou por completo o adversário e podia ter vencido a meia-final por margem bem mais dilatada: Cristiano viu um bom golo de pé esquerdo anulado por centímetros à meia hora e estou em crer que o árbitro ignorou  dois penáltis a favor dos sauditas até apitar um terceiro, cometido sobre Sadio Mané.

 Realmente, as coisas tornam-se muito mais fáceis para Cristiano e Talisca com um treinador como Luís Castro no banco e companheiros como Sadio Mané, Sekou Fofana, Marcelo Brozovic e Alex Telles no relvado. No resumo que vimos, deu para perceber que está a nascer uma química entre CR7 e Sadio Mané (sempre muito ligados durante o jogo) e que o potente médio marfinense Sekou Fofana (um atleta magnífico) chegou para arrasar. Para a festa ser totalmente portuguesa, Luís Castro e Cristiano terão pela frente na final do próximo sábado o Al Hilal de Jorge Jesus e Rúben Neves, que ontem venceu na outra meia final o Al Shabab de Marcel Keizer (3-1) a despeito de ter ficado a jogar com dez desde o minuto 25 (vermelho direto ao guarda redes Al-Mayouf; Rúben Neves, já amarelado, foi o sacrificado). Este triunfo enfático do Al Hilal deixa Jesus frente a frente com Cristiano numa final que terá inevitavelmente como vencedor uma equipa de Riade… e um treinador português.


FINAIS É COMIGO

Para Cristiano, recordista absoluto na mais importante de todas as competições internacionais de clubes — é o futebolista com mais títulos (5), mais finais (6), mais jogos (182), mais vitórias (115), mais golos (140) e mais assistências (42) na Champions europeia — a final na Champions árabe tem um sabor especial não só porque é a primeira do Al Nassr nesta competição (e ele foi decisivo na caminhada), mas também porque não disputava uma final há dois anos (!!!). A última foi a Taça de Itália ganha pela Juventus à Atalanta (2-1) em Reggio Emilia, a 19 junho de 2021. Muito tempo para um serial winner como ele.

Ronaldo ganhou 24 das 33 finais que jogou na carreira (fez 20 golos) e, mais impressionante, ganhou 13 das 15 finais internacionais em que esteve envolvido (as duas derrotas: Portugal-Grécia, 0-1, na final do Euro 2004; Manchester United-Barcelona, 0-2, na final da Champions de 2009). No sábado veremos se consegue quebrar o jejum de dois anos… ou se é o Al Hilal a rir no fim. 

Jorge Jesus não tem um currículo tão impressionante como o de CR7, mas ainda assim é o segundo treinador português com mais finais internacionais (6), depois de José Mourinho (9). Para o mestre da tática, trata-se da segunda final numa competição Champions, depois da Taça dos Libertadores ganha com o Flamengo (2-1 ao River Plate) no Monumental de Lima, Peru, a 23 novembro de 2019 (bis de Gabigol ao cair do pano). Lembro que Jesus ainda jogou duas finais seguidas da Liga Europa com o Benfica (2013 e 2014, derrotas com Chelsea, em Amesterdão, e com Sevilha, em Turim); uma final do Mundial de Clubes com o Flamengo em dezembro de 2019 (derrota com o Liverpool em Doha, Catar); e uma final da Recopa Sul-Americana ganha ao Independiente del Valle em fevereiro de 2020.

PS — Esplêndida vitória do Benfica em Aveiro (2-0) numa final de duas caras. Primeira parte do FC Porto sem materialização dessa superioridade (oportunidades perdidas de Galeno, Taremi…). Segunda parte encarnada com o génio de Angel Di María a decidir (estupenda finalização) e o faro goleador do supersub Petar Musa a tranquilizar um Benfica que ganha a primeira Supertaça ao FC Porto em 38 anos (!) e coloca ponto final numa série negra de finais perdidas (quatro). Foi um belo jogo até à inacreditável rábula de Sérgio Conceição (daqui não saio) após ter sido expulso — imitando o que Roger Schmidt fez num famoso Leverkusen-Dortmund em fevereiro de 2016.


GONÇALO RAMOS NA PANELA DE PRESSÃO

SEM ser essa a intenção, o antigo goleador Pedro Pauleta e Nasser Al-Khelaifi (presidente do PSG) contribuíram para aumentar a pressão sobre o jovem avançado Gonçalo Ramos a um nível que, suspeito, não será nada benéfica para ele. Pauleta foi escolhido para lhe dar moral no vídeo de apresentação, e fê-lo com uma associação subliminar (eu fiz muitos golos com esta camisola, agora é a tua vez) que terá aguçado a curiosidade dos adeptos, desconsolados com a situação caótica no clube (Mbappé posto de lado, Neymar de saída). Depois, foram as palavras elogiosas de Al-Khelaifi numa tirada obviamente destinada ao proscrito Mbappé: «Estamos encantados por dar as boas-vindas a Gonçalo Ramos à família do PSG como o nosso novo e entusiasmante avançado. É um jovem jogador internacional, fantástico e ultramotivado que luta pela equipa. Este é o tipo de jogadores que queremos no futuro na nossa instituição», disse o presidente.

Gosto de Ramos, da maneira como ele se dá ao jogo, luta pelo coletivo e faz o mais importante num avançado: marcar golos. Mas é evidente que o cenário que ele vai encontrar em Paris não o favorece. No fundo, aquilo que Pauleta e Khelaifi deixaram subentendido é que o miúdo Ramos pode ser o tal. Imagino que os exigentes adeptos do PSG, habituados a avançados de primeiríssima grandeza (Ibrahimovic, Cavani, Neymar, Messi…), já estejam a contar que o novo 9 consiga preencher o vazio (… e que vazio!) deixado por Mbappé, apenas e só o melhor avançado do Mundo e o goleador-mor do PSG nos últimos anos. Espero sinceramente que tudo corra bem a Gonçalo, como correu aos conterrâneos Nuno Mendes, Danilo e Vitinha, que se impuseram rapidamente na primeira equipa. Porque se não correr bem (como aconteceu com Gonçalo Guedes em 2017 e agora com Renato Sanches), Luís Campos, que insistiu na sua contratação, também sairá fortemente penalizado.