CR e JJ, uma relação de cortar à espada
CR e JJ, uma relação de cortar à espada

Ronaldo paga cabaz alimentar

Segundo a DECO Proteste os 63 produtos que compõem o cabaz alimentar rondam os 255 euros, valor da multa aplicada pelo CD da FPF a Cristiano Ronaldo. Agora, Jesus é livre de convocá-lo. Conhecer a decisão da justiça federativa, foi, metaforicamente, para JJ, como passar por mais uma estação da ‘via crucis’…

O Conselho de Disciplina da FPF, em conformidade com os regulamentos vigentes, usando as ponderações que justificou em acórdão, decidiu suspender Cristiano Ronaldo por 30 dias e aplicar-lhe uma multa de 255 euros, por ter abandonado os trabalhos da Seleção Nacional em Copenhaga.

Na prática, porque os 30 dias não cobrem qualquer jogo de Portugal, Ronaldo pagou 255 euros pelo seu ato de insubordinação, o que deu, contas feitas, 125 euros por ter falhado o jogo com a Dinamarca e outro tanto por não ter estado na partida com a Noruega.

É esta a cotação da disciplina no futebol nacional, o que nos remete para questões mais vastas, vindo de imediato à memória uma imagem publicada pelo Expresso online que mostrava a ‘acampada’ do Rossio, e um cartaz, a negro, com letras brancas, com a assinatura do movimento anarquista, que dizia: ‘Livres e Rebeldes Contra Toda a Autoridade’.

Resumindo, caso todos os jogadores da Seleção Nacional fossem iguais (e há, pelo menos, um que é mais igual que os outros), estariam abertas, de par em par, as portas da anarquia na equipa mais representativa de Portugal. De qualquer forma será interessante estarmos atentos às cenas dos próximos episódios, que prometem manter as audiências no ‘top’.Agora, a batata quente passou para as mãos de Jorge Jesus, naquele que é o caso mais delicado da sua longa carreira, tão relevante que pode determinar a imagem que o selecionador nacional irá deixar no futebol, onde sempre foi conhecido como irredutível defensor da disciplina e dono e senhor das suas decisões.

JORGE JESUS

Se Jesus convocar Cristiano Ronaldo para o duplo embate com o País de Gales e a Dinamarca, perderá toda a autoridade (já minada, há que admitir, depois de uma conversa sobre o que queriam que dissesse na conferência de imprensa antes do jogo do Parken, com elementos da equipa técnica do Al Nassr e da estrutura de Cristiano Ronaldo) perante a opinião pública e, sobretudo, os restantes jogadores. Cada vez que o selecionador nacional fizer algum reparo (e ele é de fazê-los…), imediatamente virão à colação as duas vezes, a frio, por escrito, após cuidada ponderação, em que Ronaldo lhe chamou mentiroso. Os jogadores, que o olham com respeito e até com fascínio, pelo carisma e pela paixão com que vive o futebol, não poderão deixar de ver nele alguém que aceitou coabitar com a humilhação.

Há um momento definidor na vida de todos os treinadores, aquele em que passam a poder dizer, sem receio de nada e de ninguém, «NÃO». Normalmente isso acontece a partir do momento em que atingem o desafogo material e têm um estatuto desportivo diferenciado. Jorge Jesus lutou muito para atingir esse nirvana (e se, se submeter agora, estará a ofender o Jorge Jesus do passado, quando ainda contava o dinheiro, que saiu de clubes por não querer abdicar de convicções) e seria penoso, para quem o admira, vê-lo passar a ser quem nunca foi.  Não sei qual o nível de alinhamento de Jesus com o seu advogado, Luís Miguel Henrique (normalmente coincidem), que recentemente disse de Cristiano Ronaldo: «Com as suas atitudes, comportamentos e obsessão por determinadas métricas, está a conseguir o que nenhum adversário conseguiu: estragar a forma como lembramos tudo de bom que nos deu», e ainda, «Esse é o destino dos deuses e dos autocratas: acabam sozinhos no Olimpo, cercados por espelhos.». Se estiverem em sintonia (e há muitos anos que estão…), pode ser que estejamos na antecâmara de um novembro escaldante.

Francamente, muito francamente, não vejo, a não ser através de um exercício de hipocrisia militante, que depois de tudo o que sucedeu, foi dito e escrito, os egos de Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo possam coabitar, sem danos profundos e quiçá irreversíveis para a Seleção Nacional. Mas, repito a citação que aqui fiz há cerca de um mês, recordando o saudoso Vítor Correia, antigo árbitro e pioneiro dos comentários televisivos  à arbitragem em Portugal: «Depois de ir ao circo e ver um porco a andar de bicicleta, acredito em tudo.»

CRISTIANO RONALDO

Mas há mais algumas coisas que devem ser ditas em relação a Cristiano Ronaldo, porque, como a poeira que anda no ar é tanta, perde-se o foco e ficamos com a vista turva, desviando-nos do essencial:

O capitão do Al-Nassr, aos 41 anos, não tem lugar no melhor onze de Portugal. A Seleção Nacional com ele, que está em grande forma para a idade que tem, mas já é insuficiente para se exibir nos grandes palcos, fica mais fraca. Ora, foi precisamente aqui que tudo começou, foi por ter sido substituído após uma exibição medíocre contra Gales, em Alvalade, e por, apesar de ter aquecido, não ter sido chamado - porque, realmente, o seu contributo não seria benéfico para Portugal - no duelo na Noruega, que o caldo se entornou com Jesus. Esta é a questão de fundo - é a minha opinião, respeito a dos outros mas não abdico da minha.

Haverá quem entenda que Ronaldo, pelo que fez, merece a titularidade. Não penso assim. Ronaldo, pelo que fez, merece a nossa gratidão e respeito. Merece a titularidade quem melhor contribuir para o sucesso da Seleção Nacional.

Existe outra linha de argumentação que aponta para a necessidade de manter Cristiano Ronaldo na Seleção pelo dinheiro que faz entrar na Cidade do Futebol. Com contratos assinados até 2030; sem jogos particulares (ocupadas que estão as datas pela Liga das Nações) que tinham ‘cachets’ variáveis; e sabendo-se que o horizonte de Ronaldo como jogador não alcançará o fim da década; onde está o prejuízo? E mesmo que o houvesse (haja), no dia em que não for o mérito desportivo a falar mais alto, o último a sair que apague a luz do aeroporto.

O derradeiro argumento usado para defender o regresso de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional, independentemente dos danos causados, tem a ver com o facto de, na melhor das hipóteses, só faltarem cinco jogos até que lhe possa ser feita uma homenagem condigna com a carreira que teve. Apesar de a popularidade de Cristiano Ronaldo nunca ter andado, em Portugal, tão por baixo como agora, há que não confundir ‘a estrada da Beira com a beira da estrada’: além da estátua, do nome no aeroporto, e em mais umas quantas ruas e avenidas, será justo que seja reconhecido publicamente, num estádio de futebol, pelo que fez. Mas, para isso, também não podemos confundir a prima do mestre de obras com a obra-prima do mestre e declarar que, para isso acontecer, CR deverá estar nos cinco jogos anteriores.

Depois do que aconteceu, não creio, sequer, que haja condições, sem mais danos, para o maior goleador da história do futebol assumir o papel que lhe era devido, colocando-se, de verdade, ao serviço da Seleção e deixar de viver no palácio de espelhos que habita. Depois da arrogância do comunicado que emitiu (elaborado de forma inteligente, reitero, que ‘entalou’ Jorge Jesus, o seu principal alvo), não vejo Ronaldo (sem lugar no ‘onze’) a aceitar ser suplente utilizado, não utilizado ou até ir para a bancada, tendo como prioridade contribuir para a coesão do grupo.

PALPITE

Dito tudo isto, qual é o meu palpite para o que se segue, se não houver nenhum impedimento de ordem física? Jorge Jesus engole o maior sapo do mundo, convoca Ronaldo, este é umas vezes titular, outras suplente nas partidas que se seguem, e a Seleção Nacional passa a viver num mundo de faz-de-conta, onde todos dirão apenas o que for politicamente correto. Pode ser que me engane, mas não me parece…

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