Em entrevista exclusiva n' A BOLA Toni recorda, no Museu do Benfica, os troféus e uma vida recheada de histórias.
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Toni, 80 anos: «Eu sou grande porque estou num clube com a dimensão do Benfica»

Toni foi surpreendido por A BOLA com a presença do filho António Oliveira que fez parte da entrevista no Museu do Benfica

A BOLA — Vou ter aqui um ajudante de luxo, o filho António, para fazermos esta segunda parte da nossa entrevista dos 80 anos. Quero agradecer aos dois o carinho ao longo destes anos todos que nos liga e antes de o filho entrevistar o pai, começo a fazer uma pergunta ao meu parceiro de entrevista. António, o que significa para ti ser filho do Toni, para além do nome ser o mesmo?

ANTÓNIO OLIVEIRA — Até tenho algum receio de ser repetitivo, pois muitas das vezes o ser filho do Toni pode implicar que seja um fardo, mas eu cada vez mais digo que é para mim um orgulho. É simplesmente o meu pai e enche-me de orgulho este percurso que tem feito. Independentemente de estar vinculado a um clube como o Benfica tem o respeito e a admiração de todos. Ser o Toni do Benfica não tem preço mesmo pelo respeito que ele tem por todos.

A BOLA — Agora vou passar-te a palavra e assumes o papel de jornalista.

AO — Vou tentar estar à tua altura, o que não é fácil (risos). Pai, 80 anos. Quando olha para trás, de repente, qual é a primeira imagem que lhe vem à cabeça?

TONI — A primeira imagem que me vem à cabeça leva-me a quando andava na escola. Na escola primária. No tal país, a preto e branco. Ao Largo do Juncal, onde nós colocávamos as sacolas, numa altura onde passava um carro de bois e atrapalhava muitas vezes o nosso jogo do muda aos cinco e acaba aos dez.

AO — Essas recordações da primeira, segunda, terceira e quarta classe. O ir à missa, à catequese, a senha de ir à missa para poder jogar, já não no Largo do Juncal, mas no Campo dos Padres...

T — São memórias que nunca se esquecem…

AO — Toni saiu de Mogofores mas Mogofores nunca saiu do Toni e o pai sempre falou orgulhosamente das suas origens. E se pudesse resumir a sua vida nesses 80 anos, numa palavra, qual era e porquê?

T — Paixão. Porque é paixão pelo futebol. Acho que foi no berço, porque eu mal falava e a minha mãe dizia que eu não dizia futebol, dizia «Tufuol». Lembro-me perfeitamente desta expressão. Portanto, a palavra que eu posso dizer-te é paixão. Paixão pelo futebol. Paixão pelo Anadia, paixão pela Associação Académica de Coimbra, paixão pelo Benfica e paixão pela tua mãe.

A saudade que eu tenho maior é de jogar

Toni a ser entrevistado pela jornalista Irene Palma e pelo filho António Oliveira para A BOLA (Foto: Miguel Nunes)

AO — O pai esteve em muitos estádios, com muitas pessoas e viveu muitos momentos. Se o pai hoje fechasse os olhos, qual era o momento que gostava de voltar a reviver?

T — Há um turbilhão de muitas coisas que foram vividas aqui dentro… Nunca mais me esqueço do primeiro campeonato ganho pelo Benfica, porque era a primeira vez que eu o vivia… A primeira internacionalização a ouvir o hino pela primeira vez equipado… Aquela pele de galinha, quer dizer, que depois te vai acompanhar… Há um desenrolar de emoções e tu viveste uma comigo, na primeira vez que o Tractor ganhou uma taça. As vitórias que nos marcam, mas as derrotas que nos deixam a chorar. Isto é uma montanha russa de emoções que se misturam.

AO — O que é que significou para o pai vestir a camisola do Benfica?

T — Não queria repetir-me, mas quando tu chegas a um clube com a dimensão do Benfica, vindo de um clube de distrital, como era o Anadia e depois a Associação Académica de Coimbra, e chegas a um clube que tem uma dimensão mundial, tu chegas carregado de sonhos e que procuras concretizá-los e tudo isso obrigou a muito trabalho e ambição.

AO — Acha que o Benfica ficou em dívida com o pai ou o pai em dívida com o Benfica?

T — O futebol deu-me tudo e eu é que devo ao futebol. Encontrei o espaço, encontrei um clube do qual eu não era adepto, mas que com amor e compaixão entreguei-me a uma causa, que é a causa do benfiquista.

AO — O que é que significou para o pai vestir a camisola do Benfica?

T — Não queria repetir-me, mas quando tu chegas a um clube com a dimensão do Benfica, vindo de um clube de distrital, como era o Anadia e depois a Associação Académica de Coimbra, e chegas a um clube que tem uma dimensão mundial, tu chegas carregado de sonhos e que procuras concretizá-los e tudo isso obrigou a muito trabalho e ambição.

AO — Acha que o Benfica ficou em dívida com o pai ou o pai em dívida com o Benfica?

T — O futebol deu-me tudo e eu é que devo ao futebol. Encontrei o espaço, encontrei um clube do qual eu não era adepto, mas que com amor e compaixão entreguei-me a uma causa, que é a causa do benfiquista.

AO — Não precisou de ganhar tudo para essa paixão e esse amor se entranhar-se?

T — Não, foi logo desde o início. Porque havia gente dentro do clube e que foram um suporte muito grande para nós. Eu sou grande porque eu estou num clube com a dimensão do Benfica. Eu só ganho a dimensão que tenho porque o Benfica tem essa dimensão e essa grandeza.

AO — Mas houve momentos difíceis e injustos em que não lhe deram o valor que tinha.

T — Isso faz parte da vida. Essas mágoas, como te digo, mágoas azedam a vida e não posso andar agarrado a isso. O Benfica são as pessoas e algumas pessoas não foram corretas, mas isso não faz com que eu ande azedo. A vida também me ensinou, que no futebol, os jogos passam, os aplausos apagam-se e depois os resultados e os troféus, esses ficam aqui ou nos livros das histórias de futebol. O que permanece é a forma como nos relacionamos, os valores que defendemos e as memórias que deixamos no coração dos outros. E é isso que muda a forma como nos vão recordar. A dimensão que eu e muitos outros ganharam, porque representaram um clube desta dimensão universal, que é o Benfica. Estou eternamente grato por poder ter feito a caminhada que fiz aqui dentro. Isso não há dinheiro que pague. Já passaram oito décadas e já passaram dois séculos por cima e não é tempo para contas. A viagem tem sido fantástica, dentro do futebol e fora dele, como te disse. Dentro do futebol porque vivi com grande paixão quer nos clubes onde passei e que a história maior passa por este clube e por aquilo que dei à Seleção Nacional enquanto jogador, treinador e agora como dirigente. Depois, o lado da família é o pilar que dá sustentabilidade. Não se pode sobreviver sozinho a situações como esta da paixão pelo futebol e que acabou por ser aqui os 34 anos que eu estive dentro do Benfica e os outros que estive fora, mas sempre cá dentro. Não me resta senão curvar-me perante esta grandeza que é o Sport Lisboa e Benfica.

Eriksson deixou em todos um legado que nos deixa orgulhosos de o ter tido como amigo e como treinador

AO — Agora vamos passar na transição de jogador para treinador. Quando o pai chega a treinador, o que é que descobriu, por exemplo, no futebol, que ainda não tinha percebido como jogador?

T — Há uma coisa que tu também percebeste, porque já estiveste num lado e estás no outro. Hoje o jogador tem uma percepção maior daquilo que é o jogo e quantos mais jogadores houver que compreendam o jogo, mais fácil é a tua tarefa de treinador. Como jogador vives o treino e vais para casa, tens a família, partilhas com eles. Tu, como treinador, vê as horas que tu te dedicas à profissão. Tudo aquilo que é a tua relação familiar não existe.

AO — Gostou mais de ser treinador ou jogador?

T — A saudade que eu tenho maior é de jogar. E não tem nada a ver com aspectos materiais. Jogar era ter liberdade. Porque tu depois, como treinador passas a depender dos outros para os quais trabalhas. Quer como jogador, quer como treinador, a paixão pelo futebol existe. Mas, se desse para voltar atrás voltava ao tempo de jogador, porque gostava de jogar. O treinador foi algo que aconteceu… O campeonato que ganhámos em 1988/89 foi um desafio às minhas capacidades. Eu não tinha que mostrar nada a ninguém. Eu tinha que mostrar a mim que era capaz de lá chegar. Esse foi o maior desafio que tive aqui dentro do Benfica enquanto treinador, pois era o desafio às minhas capacidades, à capacidade de liderança, à capacidade de poder discutir numa fase desafiante. Em 1993/94 também e sempre com aquele estigma, sempre difícil de dissociar, de que perdoa-se sempre menos a quem se conhece melhor. Tudo isso foi ultrapassado e nada disso foi sozinho e nessa altura com dois assistentes, não eram adjuntos, que era o Jesualdo e o Eusébio.

AO — O pai conheceu vários jogadores, treinadores, presidentes, dirigentes e outras pessoas que estão ligadas ao futebol. O que é para si ser um grande homem?

T — Quando se chega a esta altura e depois se olha para trás e falar de jogadores, treinadores e presidentes percebes que todos deram um contributo inestimável. Mas, se quisermos só nos concentrarmos no Benfica digo-te que conheci alguém que foi uma figura que marcou a história dos presidentes, por ser claramente honesto, que foi o doutor Borges Coutinho. Para as gerações de hoje o nome pode não demonstrar a grandeza que teve na época, mas o doutor Borges Coutinho foi uma figura que se impunha pela liderança que imprimia e pela forma como estava no futebol e na vida. Como jogador a figura maior para mim, indiscutivelmente, foi ter o privilégio de ter partilhado o jogo e o tempo com Eusébio da Silva Ferreira, essa figura que marca a história do futebol do Benfica e do futebol mundial. Como treinador a minha maior referência, e por quem tenho muita estima, ele não é o meu pai biológico, porque o biológico é o Senhor Ventura, mas é Mário Wilson. Sem ele eu não estaria aqui. O capitão Mário Wilson foi quem mudou a minha história de vida. Há um momento nas nossas vidas, em que, como jovem, tu queres viver o ontem. Então, eu sentia que, naquela altura, eu não tinha hipótese de jogar na Associação Académica de Coimbra, porque a equipa era de tal qualidade que eu não tinha hipótese. Então os dirigentes do Anadia tentaram que eu voltasse mas o capitão não me deixou sair. Fez agora 10 anos, no dia 3 de outubro que ele nos deixou, e é, para mim, a maior referência, é o meu mestre.

AO — O futebol dá-nos muita coisa, mas também nos vai retirando muita coisa. Em quais momentos é que pensou que a vida era muito mais importante que o futebol?

T — Tive um momento onde sinto que se o campeonato no Irão, em vez de terminar em maio terminasse em julho, penso que já não ia a tempo de me salvar. Deus esteve comigo em junho de 2013 e esses são momentos onde nós temos que olhar e sentir que a vida está ali.

AO — O que sentiu quando eu enveredei pelo futebol?

T — Eu não te acompanhei muito. A tua mãe é que acompanhou muito mais os teus primeiros anos nas escolas do Benfica. E depois, penso que já como júnior, vi um ou outro jogo e vi algum potencial, mas senti que havia ali algo que faltava… Tu devias ter dado mais para chegar lá mais acima. E lembro-me de te dizer que senão chegasses do topo tinhas de te formares. E foi que fizeste ao tirar um curso que te foi muito útil. Esse conselho que eu te dei a ti foi o que dei ao teu filho e darei a todos aqueles que hoje, quando chegam às escolas de futebol, de todos os clubes, têm o sonho de serem Cristianos Ronaldo. Mas, Cristiano Ronaldo só há um e não sei quando é que virá outro. O desporto e o futebol podem ser benéficos, mas não na forma como muitos pais olham para os filhos como um investimento e a forçar os filhos a terem que ser jogadores.

Estou eternamente grato por poder ter feito a caminhada que fiz no Benfica. Isso não há dinheiro que pague

A BOLA— Mas o Irão aproximou-vos muito enquanto pai e filho, pelo facto de terem ido juntos para um país tão diferente, para um desafio tão enorme, um como treinador principal e o outro, o filho, como adjunto?

T — Foi um Big Brother que acabámos por viver, porque nós estávamos ali sem mais ninguém.

AO — Não havia muita coisa para fazer, portanto tínhamos que nos apoiar uns aos outros e fomos um bocadinho o cuidador um do outro, em todas as perspetivas e todas as dimensões, quer profissional, quer pessoal. E já disse isto também, conheci o meu pai de outra forma que não o tinha conhecido até então. Estávamos 24 horas nesse Big Brother.

T — Já passaram 12 anos desde essa experiência nesse Irão, que já tinha embargos da Europa e dos Estados Unidos e já era um povo que queria liberdade e um povo que quer liberdade. Mas, era diferente de hoje depois desta guerra que começou em 28 de fevereiro.. Mas, já estou quase com o Marco Silva, eu não quero ir por aí…. (risos)

AO — Olhando para a carreira fantástica que o pai teve, que conselho daria aos treinadores da minha geração?

T — Tu pertences a uma geração de treinadores que acabaram por ter uma formação diferente da grande maioria dos treinadores da minha geração. Tu tiveste duas coisas que são importantes, viveste a prática, como jogador, porque andaste no campo, e depois foste beber a ciência do treino. A ciência do treino com a experiência do campo permite que estejas muito melhor preparado para a função de treinador. A minha geração foi muito autodidata, como Fernando Vaz, Cândido de Oliveira, José Maria Pedroto, Mário Wilson, Manuel de Oliveira… Foram pessoas que trabalhavam sem rede. Eles foram os grandes cabouqueiros porque ajudaram, e de maneira, a que outros treinadores fossem aparecendo, até chegarmos a uma geração com uma melhoria substancial em relação à formação de treinadores. Os novos treinadores têm outros meios para cumprir a função de treinador com qualidade.

AO — Como é que gostaria de ser lembrado pelos filhos e pelos netos?

T — Sabes, quando nós entramos naquela conversa do fiz passar os valores e princípios, carregada de lugares comuns parece conversa fiada… Eu não quero que façam de mim melhor do que aquilo que eu sou. Porque há defeitos e não há o pai perfeito. Acho que cumprir a minha função de pai... De 0 a 10, eu penso que 8 é a minha nota [risos]. A minha função de avô… Não sou um avô babado e os meus netos sabem. Eu ando para ver os jogos dos meus netos há muito tempo, mas esta época eu tenho de ir… (risos)

AO — Os mais velhos têm mais noção do significado do avô. Os mais pequenos vão apanhando algumas coisas assim do ar, mas os mais velhos já vivem, já têm 20 e tal anos, já têm uma noção muito maior da dimensão e da figura como o pai é. Mas, mais tarde ou mais cedo, vão começar a perceber essa lembrança.

T — Se ao longo destes 80 anos eu consegui influenciar alguém a acreditar mais em si próprio, a ser mais lutador, a ser melhor desportista, melhor profissional e melhor pessoa, eu penso ter cumprido a minha missão.

AO — O que é que este Toni de 80 anos diria aquele pequenino cheio de sonhos que saiu de lá de Mogofores?

T — Para nunca desistir. Tu sabes que eu diria sempre esta frase. Nunca desista dos seus sonhos. Porque, independentemente de vir de uma aldeia pequena, podem chegar onde eu acabei por chegar. Vires de uma aldeia pequena nunca pode ser limitador, quer seja no futebol, quer seja noutras áreas. É importante nunca desistir dos seus sonhos. É preciso lutar por eles e se lutarmos por eles, há sempre uma grande percentagem de probabilidade de alcançar o nosso objetivo.

Toni a ser entrevistado para A BOLA pela jornalista Irene Palma e o filho António Oliveira, no Museu do Benfica (Foto: Miguel Nunes)

A BOLA— Mogofores nunca saiu do António Oliveira e o António também nunca saiu de Mogofores. Quando esta caminhada acabar, onde é que vai ficar o António?

T — O António vai regressar às origens, mas não me estejas já… Já combinámos a próxima entrevista para os 85 anos. [risos] Se isto foi tudo um mar de rosas? Não foi. Sabes, a vida é feita de altos e baixos. Coisas boas e coisas menos boas… Olha, no futebol temos 17 Leis, mas a décima oitava, que é aquela que nós devemos ter não só na arbitragem, mas na vida, é o bom senso. E, com bom senso, as coisas eram capazes de estar muito melhor.

AO — Aprendi ao longo destes 44 anos que, antes do treinador e do jogador, existe o homem que toda a gente conhece e eu tenho o prazer de lhe chamar pai. Hoje celebramos os 80 anos, mas eu celebro o privilégio de poder ser o seu filho. Portanto, parabéns, pai.

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