Jorge Costa entendeu perfeitamente o papel e a responsabilidade de ser o capitão - Foto: Imago
Jorge Costa entendeu perfeitamente o papel e a responsabilidade de ser o capitão - Foto: Imago

Jorge Costa foi um capitão exemplar

'A Minha Tribo' é o espaço de opinião em A BOLA de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

Durante 30 dias — um mês completo de angústia, medo e desespero — o pelotão estudou todos os movimentos do inimigo, acantonado numa posição superior, uma pequena colina que lhe dava vantagem estratégica e conforto defensivo. Era preciso escrutinar cuidadosamente todos os movimentos, descobrir vulnerabilidades, cronometrar rotinas. O ataque era decisivo. Conquistar aquela colina significava ganhar a guerra.

À distância, o coronel observava. Era imperioso manter as tropas alerta, prontas para qualquer manobra. «Mantém a vigilância», gritava ele para o capitão, um homem de muitas batalhas, habituado a grandes conquistas. O capitão conhecia os segredos da guerra. Era o militar mais medalhado da companhia e todos o admiravam pela coragem e pela tenacidade. Era um exemplo, ninguém ousava contrariar o capitão.

Os dias foram passando. E alguns militares começaram a duvidar do empreendimento. A colina estava bem defendida, a missão era quase impossível. Mas o coronel não desistiu e continuou a incentivar o pelotão a acreditar no ataque vitorioso. Deu instruções claras ao capitão: continuar atento, antecipar todos os movimentos do inimigo e estar preparado para, a qualquer momento, desferir um ataque mortífero. Mais um dia, e outro a seguir, os soldados continuavam a observar o topo da colina, outro dia passava e não chegava a ordem de ataque.

Mas ao trigésimo dia, o coronel decidiu que havia uma estratégia muito mais eficaz para derrotar o inimigo e mandou o pelotão regressar à base.

O capitão não gostou. Arremessou ao solo as armas e abandonou o acampamento. Sozinho, sem dar sequer uma explicação aos soldados que pacientemente obedeceram a ordens e fizeram o seu trabalho.

O capitão mais medalhado, o capitão exemplar, o capitão de todas as guerras e batalhas, tinha desertado, deixando para trás um pelotão de soldados estupefactos.

Novo-rico

Cristiano Ronaldo é um novo-rico. Em todos os sentidos da expressão. Ganha milhões e conquista coisas que nunca ninguém conquistou. Acha, por isso, que pode pôr e dispor, sem atender a hierarquias, regras ou disciplina. Se Cristiano Ronaldo não fosse um novo-rico, aceitaria com naturalidade a autoridade de um selecionador que tem apenas um compromisso: conquistar vitórias para Portugal. Mas a visão de Cristiano Ronaldo é outra: o selecionador, ou qualquer treinador, só pode ter um compromisso: permitir que Cristiano Ronaldo marque mais um golo. Quando isso não acontece, Cristiano Ronaldo amua e faz birra.

Arrogante

Dizem os pedopsiquiatras que uma criança habituada a ter tudo e a viver sem regras nem limites se torna num adulto arrogante, prepotente e inclinado às birras e amuos.

Cristiano Ronaldo é, também aqui, uma exceção.

Nasceu e cresceu pobre, numa família que lutou muito para sobreviver. Abriu os olhos para o mundo e viu que estava mergulhado num mundo de dificuldades, pobreza e conflitos. Cresceu no exato oposto do berço de ouro. Foi testemunha da luta, da resistência e do sofrimento.

Muitos anos depois, Cristiano Ronaldo não aprendeu nada com as provações. Em vez de humildade e respeito pelos outros, cultiva a altivez e a sobranceria. Em vez de compreender, impõe e exige.

Caprichoso

Cristiano Ronaldo é caprichoso. Forjado em adversidades, decidiu que ia conseguir fazer o que nunca ninguém tinha antes conseguido. Focou objetivos altos, preparou-se e percorreu com espartana disciplina o caminho do sucesso. Conquistou admiração, títulos, galardões, prémios, seguidores, fãs incondicionais, reconhecimento mundial, recordes, milhões de euros, dólares e petrodólares. Ergueu um império, criou uma marca, fundou uma multinacional de negócios e investimentos.

Cristiano Ronaldo cresceu mais do que provavelmente algum dia teria sonhado.

O Mundo era o seu mundo. Frugal nos hábitos, tornou-se excessivo nos gostos. Ficou caprichoso e achou que nada nem ninguém estaria acima do seu império.

Cristiano Ronaldo sente-se imbatível, insuperável e omnipotente.

Ainda há tempo

Cristiano Ronaldo, que tinha tudo para sair em ombros, acabou por sair de rastos. Por sua exclusiva responsabilidade. Ou, neste caso, irresponsabilidade.

Cristiano Ronaldo derrubou Paulo Bento, derrubou Fernando Santos e tentou derrubar Jorge Jesus.

Se a Federação de Pedro Proença capitular perante Cristiano Ronaldo, estará a capitular perante os princípios que cimentam as bases do futebol: liderança, autoridade e disciplina. E estará a pôr em causa o esforço e a dedicação de todos os outros internacionais portugueses que jogam em equipa e para a equipa.

Cristiano Ronaldo só tem espaço na Seleção se pedir desculpa e se fizer um raríssimo exercício de humildade e contrição.

Se o fizer, enobrece-se. Se o fizer, não perde nenhum dos títulos, prémios ou galardões que conquistou.

Se o fizer, reconquista o respeito, a admiração e a idolatria dos adeptos portugueses.

Ainda estás a tempo, Cris

O capitão exemplar.

Deixo para o fim o melhor e o mais importante. A vida e o exemplo de um capitão que liderou, não desertou.

Tenho uma imensa admiração por Jorge Costa. E nem sequer apenas, ou sobretudo, como futebolista extraordinário que foi. A sua raça, a sua combatividade, a sua capacidade de entender o jogo elevaram-no a patamares de excelência só permitidos aos maiores.

Mas é na liderança que Jorge Costa se destaca da multidão. De forma, repito, exemplar.

Jorge Costa entendeu perfeitamente o papel e a responsabilidade de ser o capitão. Se havia dúvidas, se havia medo, se havia desânimo, lá estava o capitão para orientar, aconselhar e motivar. Nunca desertou. Esteve lá sempre para liderar e para ser a referência dos mais novos ou dos mais inseguros. Uma inspiração.

Fica na memória o episódio no intervalo de um Belenenses-FC Porto, quando Jorge Costa pediu ao treinador José Mourinho uns minutos a sós com a equipa, que perdia 1-0. Mourinho viu, em carne viva, a força da liderança e esperou lá fora. O resto é história, uma bela história. O FC Porto entra na segunda parte insuflado pelo líder, Jorge Costa marca dois golos, o FC Porto ganha e nasce uma lenda eterna.

O documentário em quatro capítulos sobre o capitão tem muitas outras histórias deliciosas, algumas inéditas. Vítor Baía conta, por exemplo, o episódio em que Jorge Costa o separou de José Mourinho, depois de uma troca de palavras azeda entre o treinador e o guarda-redes.

E Maniche recorda a fúria de Mourinho depois de uma noitada muito bem regada, na companhia de Costinha e Benni McCarthy.

Histórias que contam a História de uma lenda.

Que saudades eu tenho do Jorge Costa!

O Capitão é um documentário produzido pelo FC Porto para recordar e homenagear Jorge Costa. Um exemplo a seguir.

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