Na Europa, as contas são outras
O Benfica leva seis penáltis a favor em oito jogos europeus. No campeonato português, em igual número de partidas, foram apenas dois. O FC Porto recebeu sete cartões amarelos nas primeiras oito jornadas da Liga, mas em apenas dois jogos da Champions já chegou aos cinco. E o banco portista também teve uma experiência diferente. Em Sevilha, um adjunto de Farioli foi expulso, o treinador viu o amarelo e o delegado ao jogo também foi advertido. Tudo na mesma partida.
Não sei se estas diferenças se vão manter até ao final da temporada, mas confesso que tenho curiosidade em acompanhar os próximos jogos europeus. Sobretudo no caso do FC Porto, cujo banco de suplentes costuma ser bastante participativo nas discussões com os árbitros. Em Sevilha, parece que encontraram um interlocutor menos paciente. Em Portugal, os protestos, a pressão constante e as movimentações junto à área técnica raramente têm consequências semelhantes. Na Europa, pelos vistos, a tolerância é outra.
Quanto aos penáltis do Benfica, não se trata de esperar que as estatísticas sejam iguais nas duas competições. Os jogos são diferentes e cada lance deve ser analisado individualmente. Mas seis grandes penalidades em oito partidas europeias, contra apenas duas no campeonato português, é uma diferença que merece atenção. Sobretudo quando nos lembramos de algumas decisões que têm motivado discussão nas jornadas da Liga. Não será certamente por falta de presença do Benfica nas áreas adversárias.
A propósito de arbitragem, o Conselho de Arbitragem decidiu avançar com o fora de jogo semiautomático. Já não era sem tempo. O Benfica tinha incluído esta medida no documento que entregou à Federação Portuguesa de Futebol com propostas para reformar o setor. Espero que a sua implementação permita acabar com algumas das intermináveis esperas do VAR e com as discussões sobre linhas traçadas em imagens que nem sempre ajudam a esclarecer os lances.
Mas seria um erro ficar por aqui. O Benfica apresentou propostas bastante mais profundas e que mereciam ser discutidas com seriedade. Uma delas defende a entrega da supervisão da arbitragem a uma entidade externa e independente, com poderes para acompanhar o funcionamento do setor e implementar as alterações necessárias. A arbitragem portuguesa precisa de uma reforma que vá muito além da introdução de novas tecnologias.
Outra das propostas do Benfica passa pela separação entre a entidade responsável pelas nomeações e aquela que avalia os árbitros. Parece-me uma alteração fundamental. Quem escolhe os árbitros para os jogos não deveria ser também responsável por avaliar o seu desempenho. E essas avaliações deveriam ser públicas, com critérios conhecidos e transparentes. Hoje, os adeptos sabem quem foi nomeado para determinado encontro, mas pouco conhecem sobre a avaliação que é feita depois do jogo e sobre as consequências dessa avaliação nas nomeações seguintes.
Não percebo por que razão estas propostas não merecem maior atenção. Durante anos ouvimos falar da necessidade de melhorar a arbitragem portuguesa, mas continuamos a discutir os mesmos problemas praticamente todas as semanas. Os árbitros precisam de condições para trabalhar e de estruturas que lhes garantam independência. E os clubes têm o direito de conhecer os critérios utilizados nas nomeações e avaliações. O Benfica apresentou um conjunto de propostas concretas. Seria importante que a Federação Portuguesa de Futebol e o Conselho de Arbitragem não se limitassem a aproveitar apenas aquelas que dizem respeito à tecnologia.
Entretanto, o Observatório do Futebol do CIES divulgou um estudo que coloca o Benfica no quarto lugar mundial entre os clubes que mais valorizaram os jogadores contratados desde 2022. Apenas o Eintracht Frankfurt, o Real Madrid e o Paris Saint-Germain aparecem à frente. O FC Porto surge na 12.ª posição e o Sporting na 25.ª. No grupo dos dez primeiros não aparece, portanto, qualquer outro clube português.
O estudo considera as mais-valias realizadas com transferências e a valorização estimada dos jogadores que continuam nos plantéis. Não estamos a falar da formação, mas da capacidade para contratar jogadores que se valorizam. E esta distinção é importante, porque o Benfica tem sido frequentemente elogiado pelo trabalho desenvolvido no Seixal, mas muito criticado pela sua política de contratações.
Confesso que gostava de ouvir alguns dos especialistas que passaram os últimos meses a criticar praticamente todas as contratações do Benfica. Houve erros, alguns deles caros, e ninguém os deve ignorar. Mas também houve uma tendência para transformar cada contratação numa oportunidade para anunciar mais um desastre. O estudo do CIES não significa que todos os negócios tenham sido bons, mas coloca o Benfica numa posição que dificilmente combina com algumas das avaliações que fomos ouvindo.
E os números dentro de campo também não são propriamente maus. O Benfica marcou 45 golos em 15 jogos oficiais, uma média de três por partida. Uma produção ofensiva que contrasta com as críticas feitas durante meses à composição do plantel. Não deixa de ter graça que uma equipa tantas vezes apresentada como tendo falta de soluções ofensivas esteja a marcar com esta regularidade.
Pavlidis tem sido uma das figuras deste rendimento. O avançado grego soma 18 participações diretas em golos nos 14 jogos considerados nestas estatísticas. Não se limita a finalizar, participa na construção ofensiva e tem sido determinante na forma como o Benfica chega à baliza adversária. Os seus números ajudam a perceber a importância que ganhou na equipa.
É evidente que o Benfica tem de transformar esta qualidade em títulos. Depois das últimas temporadas, os adeptos não se podem contentar com boas estatísticas ou valorizações de mercado. Mas também não faz sentido continuar a desvalorizar o plantel quando os números começam a contrariar algumas das críticas que foram feitas. E talvez fosse bom que quem passou meses a apontar defeitos à equipa tivesse agora a mesma disponibilidade para reconhecer aquilo que está a correr bem.
Quanto ao FC Porto, vou continuar atento aos cartões nas competições europeias e, sobretudo, ao comportamento do seu banco. Depois do que aconteceu em Sevilha, talvez Farioli tenha percebido que a margem para protestar não é exatamente a mesma em todos os estádios.