Ou mão dura ou a morte do futebol: o City, os Emirados e a hora da verdade!
A notícia que na tarde de segunda-feira abalou o planeta futebol já não fala apenas de um processo desportivo; é um terramoto geopolítico que ameaça expor as entranhas e a credibilidade do jogo. Considerado culpado das 115 infrações financeiras de que vinha acusado pela Premier League, o Manchester City encontra-se, finalmente, perante o abismo da despromoção. Mas aquilo que deveria ser um ato límpido de justiça transformou-se num perigoso braço de ferro de escala estatal.
A ameaça velada de Abu Dhabi e dos Emirados Árabes Unidos — acenando com a retaliação e a retirada de investimentos de milhares de milhões de euros no Reino Unido — colocou a diplomacia britânica sob sobressalto e o futebol no centro de uma chantagem política sem precedentes.
Porém, por mais pesados que sejam os petrodólares e por mais relevantes que sejam os interesses bilaterais entre nações, a verdade do relvado e das contas não pode ser sacrificada no altar do sportswashing.
A história do futebol moderno já viu colossos tombarem quando violaram as regras.
A Juventus foi despromovida à Serie B no escândalo do Calciopoli, em 2006, despida de títulos e forçada a expiar as suas culpas no segundo escalão.
O Rangers, histórico gigante da Escócia, foi atirado para a quarta divisão em 2012 após a falência e a má gestão financeira.
Em França, o Marselha de Bernard Tapie pagou com a descida e a perda da coroa europeia os esquemas de corrupção que mancharam os anos 90.
Nenhum desses clubes era pequeno; nenhum deles era irrelevante. Mas a verdade é que nenhum esteve acima da lei.
Permitir que o Manchester City escape com uma pena branda, uma multa simbólica ou um perdão disfarçado apenas porque a sua casa-mãe detém o poder de condicionar a economia de um país seria assinar a certidão de óbito do fair-play financeiro.
Seria dizer a todos os outros clubes do Mundo, cumpridores do rigor orçamental, que as regras são apenas para os fracos e que a impunidade se compra com influência geopolítica.
A Premier League e a justiça desportiva internacional estão perante a decisão mais determinante do século XXI.
Não se trata de perseguir o City nem de apagar a qualidade do futebol praticado pela equipa de Manchester hoje orientada por Enzo Maresca. Trata-se de defender a essência da competição. Se a batota financeira em grande escala compensar, o futebol deixa de ser um desporto para passar a ser um teatro orquestrado por Estados.
É hora de ter mão dura. Sem recuos, sem medos e sem cedências ao poder político. Porque, se a justiça recuar perante a chantagem dos Emirados, então o futebol perderá a pouca alma que lhe resta.