Ronaldo encostado à parede: a rasteira da FPF que atira a batata quente para a mão do capitão
A Seleção de Portugal cumpriu o seu dever no relvado com distinção irrepreensível. A vitória por 2-1 frente à Noruega, no Estádio do Dragão, carimbou o apuramento antecipado para os quartos de final da Liga das Nações com um pleno de quatro vitórias em quatro encontros.
Mais do que a pontuação perfeita, viu-se em campo uma equipa fluida, solta e coletivamente madura, a praticar um futebol claramente superior ao dos últimos tempos. No plano estritamente desportivo, o caminho está desimpedido. Porém, fora das quatro linhas e nos bastidores da FPF, a orquestração do discurso oficial peca por excesso de cosmética que desrespeita a inteligência dos adeptos.
A ação concertada a que assistimos no pós-jogo do Dragão — com futebolistas, o presidente da FPF, Pedro Proença, e o selecionador Jorge Jesus alinhados na mesma narrativa — procurou pintar o episódio como uma pequenez, apelando ao estatuto intocável de um «símbolo nacional».
Proença apressou-se a catalogar a crise como um mero «mal-entendido», enquanto Jorge Jesus desvalorizou o sucedido, reduzindo o diferendo ao facto de ter posto o capitão a aquecer durante 30 minutos sem o fazer entrar, rematando com a garantia de que não pede «desculpas a ninguém» e de que a porta da Seleção continuará aberta caso o jogador assim o deseje.
O problema desta encenação é que a matemática da lógica não bate certo e a narrativa acaba por ruir pelo próprio peso. Se tudo se resumiu a um «mal-entendido», a uma «chatice» banal de balneário ou a 30 minutos de aquecimento na linha lateral, então a FPF e o selecionador estão, implicitamente, a passar um atestado de infantilidade e irresponsabilidade a Cristiano Ronaldo.
Afinal, como se justifica que o capitão e figura máxima da história do futebol português abandone o estágio da equipa das quinas a meio de compromissos oficiais e decisivos, virando as costas ao grupo e desertando da comitiva, por causa de uma simples arrufo sem relevância?
Ao tentar passar pano na gravidade do ato para proteger a instituição e evitar uma rutura ruidosa, a estrutura federativa acaba por expor o próprio Ronaldo a uma figura frágil. Ao simplificar a faísca, hiperbolizam a reação.
Trata-se de uma manobra hábil de sobrevivência política: atira-se areia para os olhos da opinião pública, constrói-se uma saída airosa para a FPF e para a equipa técnica e, no processo, deposita-se uma autêntica batata quente nas mãos de Cristiano. Agora, a responsabilidade de dizer «sim» ou «não» recai inteiramente sobre o avançado de 41 anos, que fica encurralado contra a parede: ou aceita o papel de jogador sujeito a gerir bancadas e substituições ou assume publicamente o fim do seu ciclo internacional.
Uma insistência esta, a de segurar o estatuto sagrado de Ronaldo em detrimento da realidade desportiva, que me traz à memória a brilhante reflexão de Ricardo Araújo Pereira. Como o humorista desmontou com precisão cirúrgica, o estatuto e a gratidão nacional que devemos a Cristiano Ronaldo já estão cravados na pedra «e serão exatamente os mesmos hoje, aos 41 anos, ou quando ele tiver 81».
A gratidão eterna, naturalmente, não obriga a uma titularidade perpétua nem à subjugação dos critérios futebolísticos. Em alta competição, o que deve imperar é o rendimento atual e as necessidades coletivas do jogo. Pretender que a história e o peso comercial garantam um lugar cativo no relvado é um argumento tão absurdo para a atualidade como seria para daqui a quatro décadas.
Portugal provou no relvado do Dragão que existe vida, qualidade e futuro para além da sombra tutelar do seu lendário camisola 7.
Resta saber se a comédia de enganos encenada nos gabinetes convencerá o próprio Ronaldo a regressar num papel secundário ou se o capitão preferirá fechar o livro antes que o circo da desinformação diminua ainda mais o seu legado.