Tudo começou com um assassinato: a plataforma usada por Dani Olmo para doar 2% do ordenado
Dani Olmo marcou um golo muitos dias antes (anos, até) de defrontar a seleção da casa, nesta terça-feira, em jogo do Grupo A3 da Liga das Nações. O que estava em segredo a pedido do próprio foi revelado pelo seu empresário, Andy Bara.
«Desde que deixou o Dínamo Zagreb, tem vindo a doar 2% do seu salário bruto anual a Vukovar. São quantias importantes porque ganha muito dinheiro, e isto vem a acontecer desde que estava no RB Leipzig e agora no Barcelona. Ele não fala sobre isto publicamente, mas quero dizê-lo porque ele merece», disse o agente, no podcast Inkubator.
Falando em croata, na conferência de imprensa de antevisão da partida, o internacional espanhol ficou surpreendido por o agente ter divulgado a informação, mas confirmou-o. «Quando saí, sentia-me em dívida para com a Croácia e queria retribuir algo, por isso decidimos fazer essa doação às famílias de Vukovar. Sentia-me em dívida e achei que esta era a melhor ideia», assumiu, tendo recebido aplausos dos jornalistas locais.
Vukovar, recorde-se, foi uma das localidades mais severamente fustigadas pela guerra dos Balcãs. Entre agosto e novembro de 1991, a cidade sofreu um dramático cerco de 87 dias levado a cabo pelo Exército Popular Jugoslavo e forças paramilitares sérvias.
A forma de sair da 'bolha'
Dani Olmo confirmou que a forma encontrada de retribuir a um país onde passou cinco anos (2014 a 2019) foi através da plataforma Common Goal, uma organização criada em 2017 pelo alemão Jurgen Griesbeck, em parceria com o internacional espanhol Juan Mata.
O mote inicial lançado a futebolistas de elite foi a doação de um por cento do seu ordenado para causas sociais. As barreiras foram as esperadas, tal como revelou Griesbeck a A BOLA, em entrevista concedida em 2018, um ano depois de o projeto ter sido lançado. «Muitos jogadores até estavam interessados, mas têm uma série de pessoas que os rodeiam que os impedem de estar expostos a este tipo de iniciativas: agentes, representantes, clubes. Muitos deles não reconhecem a dimensão humana dos seus jogadores e muitas vezes não sabem que eles querem coisas que vão para lá do futebol. Há jogadores que querem sair da bolha e ajudar a criar um mundo melhor», disse.
O papel de Juan Mata acabou por ser decisivo. O próprio passou a doar um por cento do salário e começou a convencer os seus pares a fazer o mesmo. «Chiellini decidiu escrever-nos a dizer que queria fazer parte do projeto depois de saber do que estava a fazer Juan Mata», explicou. Seguiram-se muitos outros: Mats Hummels, a norte-americana Megan Rapinoe, Kasper Schmeichel, o treinador Julian Nagelsmann e agora o caso mais recente de Dani Olmo - e muitos outros que são desconhecidos, a pedido dos próprios futebolistas.
Atualmente trabalha com mais de 200 organizações espalhadas por 117 países, ajudando 11 milhões de pessoas e contando com o contributo de mais de 200 atletas, segundo se lê na página oficial da Common Goal.
Origem na Colômbia
Mas o que levou este antigo estudante de sociologia a mover mundos e fundos para usar o futebol como veículo de ajuda a grupos mais vulneráveis? Tudo começou com uma longa estadia na Colômbia, tal como explicou ao nosso jornal.
Comecei a perceber que o futebol era o único momento em que as pessoas que anteriormente se matavam umas às outras conseguiam, afinal, conversar e até divertirem-se
«Eu estudava línguas românicas e ciência desportiva na Alemanha e quis fazer uma pós-graduação em sociologia. Tive a oportunidade de fazer o trabalho de terreno na Colômbia. Isso foi em 1993. A minha namorada da época e atual esposa era colombiana e mudei-me para Medellín, vivendo ao Mundial-1994 e o assassinato de Andrés Escobar. A minha mulher fazia fotografias para o Atlético Nacional [clube do malogrado defesa-central] e éramos próximos do Andrés. Aquilo foi um choque para mim e já não me senti capaz de continuar a minha pós-graduação. Desisti», contou.
«Não sabia o que queria fazer. Demorei mais de um ano para perceber o poder do futebol e aí comecei a desenvolver um projeto para contornar o problema de armas e violência em Medellín, em que morriam cinco mil jovens por ano. Foi um sucesso. Comecei a perceber que o futebol era o único momento em que as pessoas que anteriormente se matavam umas às outras conseguiam, afinal, conversar e até divertirem-se. Quis traduzir esta espécie de magia que acontecia no campo para fora dele», justificou.
O modelo resultou, foi copiado «noutros locais no mundo» mas faltava uma rede: «Percebi que havia mais pessoas a usar o futebol como uma ferramenta para conseguir os seus objetivos sociais mas estavam isolados, não comunicavam entre si. Aí, criei em 2002 a Street Football, uma plataforma para englobar estas organizações.» Daí para a Common Goal foi um passe a rasgar que terminou em ... goleada.