Fui emigrante, obrigado Cristiano Ronaldo
Numa publicação que fiz nas redes sociais sobre o possível adeus de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional, alguém deixou um comentário que me ficou na memória: «Fui emigrante, obrigado Cristiano Ronaldo.»
Poucas palavras dizem tanto. Há ali uma experiência de vida, uma distância de casa e um agradecimento que vai muito além do futebol. Há o reconhecimento de quem encontrou, no nome de um jogador, uma maneira de ser visto e de sentir orgulho no país de onde partiu. É por isso que me custa imaginar que a história de Cristiano Ronaldo com a Seleção possa terminar desta forma…
O episódio é conhecido: no jogo com a Noruega, Ronaldo aqueceu durante largos minutos, mas acabou por não entrar. Jorge Jesus reconheceu depois que o deixara a aquecer mais tempo do que devia, explicando que as suas decisões tinham sido tomadas em função da equipa. Entretanto, Edu Aguirre, jornalista e amigo do jogador, apresentou uma versão segundo a qual Ronaldo se sentiu traído: esperava um pedido público de desculpa que, no seu entendimento, deu lugar a uma reafirmação de autoridade. É um relato que deve ser tratado como tal, sem o confundir com uma verdade estabelecida sobre o que foi conversado em privado.
Depois veio a saída do estágio, em Copenhaga, e o avião privado a caminho da Dinamarca. Ronaldo anunciou que explicaria, a seu tempo, as razões da decisão. O adeus definitivo à Seleção permanece por esclarecer, mas a possibilidade de aquele ter sido o último capítulo já nos obriga a pensar na despedida que gostaríamos de lhe dar.
Não pretendo julgar se fez bem ou mal deixar o estágio da Seleção. Tão pouco julgar se Jorge Jesus esteve ou não correto. Não conheço todas as conversas, todos os compromissos ou todas as circunstâncias, mas penso que todos – sem exceção – ficaram a perder neste episódio que correu mundo.
O que quero dizer é mais simples: se esta for a despedida de Cristiano Ronaldo da Seleção, merecia ter acontecido de outra forma. Merecia um estádio capaz de lhe devolver, em aplausos, uma parte do que ele nos deu. Merecia que os portugueses soubessem que estavam a vê-lo pela última vez com aquela camisola. Merecia, fundamentalmente, tempo para um obrigado, porque CR7 foi muito mais do que um extraordinário jogador ao serviço de Portugal…
Durante mais de duas décadas, foi uma presença constante na nossa vida coletiva. Vimos o jovem crescer, o talento transformar-se em exigência e a exigência sustentar uma carreira que parecia desafiar o tempo. Com ele, aprendemos a esperar mais da Seleção. A entrar nas grandes competições com ambição. A acreditar que também podíamos ganhar.
As conquistas tiveram muitos protagonistas. Nenhuma equipa vence sozinha através de um jogador, mas há figuras que marcam uma época e lhe dão um rosto - Cristiano deu rosto à ambição de uma geração portuguesa, e levou esse rosto ao mundo.
Para muitos portugueses que vivem fora do país, o seu nome passou a fazer parte das primeiras conversas sobre as suas origens. Dizer «sou português» podia trazer, do outro lado, um sorriso e uma resposta imediata: «Ronaldo.» Nesse encontro tão breve havia uma forma de reconhecimento. Portugal tornava-se próximo, mesmo a milhares de quilómetros.
É isso que leio naquele comentário. Quem escreveu «Fui emigrante, obrigado Cristiano Ronaldo» estava a agradecer uma companhia à distância, uma razão para levantar a cabeça, um nome que ajudou a levar consigo o país.
Na rubrica Liderar o Jogo, esta história também nos deve fazer pensar sobre a maneira como terminam os grandes percursos. Liderar exige decisões sobre o presente, mas exige igualmente cuidado com as pessoas e consciência da história que transportam. Uma despedida bem conduzida dá espaço ao futuro e permite agradecer o passado.
Ronaldo tem defeitos, como todos. A sua carreira nunca esteve acima da crítica. Ainda assim, podemos discutir uma reação, uma exibição ou uma escolha e reconhecer a dimensão do que construiu. A gratidão não exige unanimidade.
Foi o fim da história de CR7 na Seleção? Não sei. O que desejo é que ainda haja oportunidade para lhe prestar o reconhecimento que merece.
Cristiano continuará a representar Portugal quando deixar de vestir a camisola das quinas. O seu nome ficará ligado ao nosso, nos livros, nas memórias e nas conversas de quem vive longe de casa. Entrou na história do desporto e na história de um pequeno país que ajudou a tornar mais conhecido.
Por tudo o que nos deu, pelo orgulho que fez viajar e pelo que continuará a significar para tantos portugueses: obrigado Ronaldo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar»