O 'rapto' de Pinto da Costa em Guimarães que resultou na conquista da Champions
Vitória e FC Porto defrontam-se amanhã no Estádio D. Afonso Henriques, quando forem 18h00. Na véspera do encontro da 11.ª jornada do campeonato, A BOLA esteve à conversa com uma figura incontornável dos dois emblemas: Alfredo Laureta.
«Nascido e criado» em Guimarães, foi nos conquistadores que o antigo lateral-esquerdo da Seleção nacional cresceu também para o futebol. Após quatro épocas de grande nível na equipa principal dos vimaranenses, entre 1981/82 e 1984/85, o jovem Laureta (com 23 anos) viu-se numa «grande encruzilhada» na primavera de 1985: os três grandes queriam contratá-lo.
«Foi uma história muito rocambolesca, digna de filme, um faroeste dos anos 1980, em que Pimenta Machado, o presidente do Vitória, estava em negociações com os presidentes dos três grandes: Pinto da Costa [FC Porto], João Rocha [Sporting] e Fernando Martins [Benfica]», começa por contar.
Até aqui, nada de muito anormal. Mas tudo mudou a 30 de março de 1985, quando os minhotos empataram (0-0) no Estádio da Luz: «O Pimenta Machado tinha garantido ao Fernando Martins que nesse dia eu ficava em Lisboa para negociar. Era suposto ir ter com o presidente do Benfica ao hotel depois do jogo, porque já estava tudo tratado e era só assinar», recorda.
Só que, afinal, não era bem assim… «No fim, o Pimenta Machado não apareceu e o diretor obrigou-me a vir no autocarro para Guimarães.»
E é aqui que o Sporting entra em ação: «Curiosamente, em vez do Fernando Martins, foi o João Rocha a vir atrás do autocarro até a Guimarães. Recordo-me bem, era um Peugeot 504 verde. Eram quase quatro da manhã quando chegámos, uma escuridão terrível, e eu vou para entrar no meu carro e chegou esse carro ao meu lado. Fiquei com medo ‘Entra aí, Laureta’, disseram-me. Eram os dirigentes do Sporting!»
«Estivemos a conversar até às 06h00, fizemos uma pausa e voltei de manhã. Estava no hotel e nisto passou um ex-dirigente da formação do Vitória que foi dizer ao Pimenta Machado que me tinha visto com dirigentes do Sporting. Mal soube, o Pimenta Machado ligou para a receção do hotel, pediu para me chamarem e disse: 'Vem imediatamente para minha casa'. Eu tentei explicar-lhe que não podia, mas ele exigiu que fosse 'rapidamente'. 'Diz que tens alguém doente, que tens de sair'. Voltei para a beira dos dirigentes do Sporting, dei-lhes a desculpa de que tinha de ir com o meu filho ao hospital», confessa.
Laureta recorda ter saído direto para a quinta de Pimenta Machado, em São Torcato: «Quando cheguei, ligou logo para o Pinto da Costa: 'Já tenho o homem e só sai daqui para o Porto'. Fechou-me durante dois dias em casa, até ir para a Foz assinar pelo FC Porto, num almoço com o Pinto da Costa, o Teles Roxo, o Reinaldo Teles, e eu ali, como um menino, no meio daquelas trutas.»
«Raptaram-me [risos], mas não fui contrariado nem obrigado, é importante dizer. Depois tive o final mais feliz possível, com a conquista da Liga dos Campeões», enaltece, referindo que o «futebol nessa altura era muito caricato e, às vezes, surreal».
«Estava naquela encruzilhada toda sozinho, a ver dinheiro para um lado e para outro, sem agentes… Pensam que isto só acontece em filmes de cowboys, mas não [risos]», evoca o jogador que naquela época ainda faria mais seis jogos pelos vimaranenses, até rumar em definitivo à Invicta, onde foi campeão nacional em 1986 e europeu em 1987 — ano em que acabou por sair para o SC Braga por incompatibilidades com Artur Jorge.
«O Pinto da Costa queria renovar, mas não aceitei. Não me sentia confortável com a forma como o Artur Jorge trabalhava. Ainda assim, olhando para trás, teria permanecido mais anos. Podia ter tido outra carreira», admite.
Ganhar ao FC Porto e... perder contra o Vitória
Laureta jogou no Mirandela (1980/81), FC Porto (1985 a 1987), SC Braga (1987 a 1991), Gil Vicente (1991 a 1994) e Académica (1994/95), mas o seu coração pertence ao Vitória de Guimarães — clube de que é embaixador e no qual desempenha funções como coordenador da formação, estando diretamente envolvido na potencialização de craques (como o próximo adversário Alberto Costa é exemplo) que passam na academia vitoriana.
Na entrevista ao nosso jornal, Laureta recorda a ocasião em que ganhou aos dragões ao serviço dos conquistadores (1981/82) e perdeu com os minhotos ao serviço dos portuenses (1985/86): «O primeiro foi um jogo [1-0] em que chovia torrencialmente. O FC Porto tinha uma excelente equipa, mas, com muita resiliência, conseguimos vencer. Depois, no ano em que transfiro para o FC Porto, perdemos 2-1 aqui em Guimarães, numa altura em que atravessávamos uma boa fase. Fomos campeões nacionais, mas esse jogo não foi nada fácil.»
O antigo defesa recorda um «confronto muito complicado», à boleia de um «turbilhão de emoções», em que foi apupado na própria casa: «Sendo nascido e criado em Guimarães, formado no clube e adepto vitoriano, não foi fácil estar com a cabeça em ordem, nem entrar em campo e ouvir assobios e ver os meus ex-colegas equipados de branco. Não estava habituado a estar do outro lado.»
Ainda assim, o vimaranense nunca levou a mal: «Conheço as pessoas, conheço a forma fanática como os adeptos do Vitória reagem. É claro que me doeu um pouco, é verdade, mas aquilo fazia parte de me tentarem desestabilizar, como é normal, e não guardo ressentimentos, já sabe que é futebol.»