Roberto Martínez não tem dúvidas: «A Seleção é melhor com Ronaldo»
Roberto Martínez, selecionador nacional, concedeu entrevista à ESPN Brasil onde o Mundial foi um dos principais temas de conversa — Cristiano Ronaldo, como não podia deixar de ser, também foi abordado.
Sobre a prova que Estados Unidos, México e Canadá receberão a partir de junho, e na qual Portugal enfrenta, na primeira fase, o vencedor do play-off entre Nova Caledónia, Jamaica e RD Congo, o Uzbequistão e a Colômbia, o técnico espanhol foi cauteloso.
«Portugal favorito, não. Candidato, sim. Porque, na Europa, só há quatro seleções que estiveram em todas as competições importantes desde o ano 2000: Alemanha, Espanha, França e Portugal. Estamos no patamar certo para aceitar a responsabilidade, a exigência, a expectativa dos adeptos. Isso é ser candidato. Mas acho que para ser favorita uma seleção precisa de já ter sido campeã mundial, porque há um aspecto psicológico nisso. E só há oito seleções, durante 92 anos de Mundiais, que ganharam a competição. Seleções como a Argentina, como o Brasil, que estão num bom momento, são candidatas, mas têm o passado, a história que fazem a candidata ser favorita. Alemanha, Espanha, França, são seleções que são candidatas pelo momento em que estão», defendeu.
Apesar dos nomes mencionados, Roberto Martínez não quis colocar ninguém acima da concorrência: «Não acredito que haja uma seleção que seja mais favorita que outra antes do torneio. Temos quase 20 semanas [antes do início do Mundial], as lesões e outros aspectos podem mudar tudo. E há o período da fase de grupos. Acredito muito que as equipas crescem dentro dos torneios. É um Mundial muito complexo, com muita logística, condições climáticas, condições de altitude... Há um aspeto muito exigente dentro da preparação no Mundial e acho que os três primeiros jogos são essenciais para diferenciar, entre as seleções candidatas e favoritas, qual é a seleção mais favorita.»
Cristiano Ronaldo
Sobre o capitão da Seleção Nacional, Martínez não poupou nos elogios. «Todas as pessoas do mundo conhecem o Cristiano Ronaldo e têm uma opinião. Mas o Cristiano, quando chegou à Seleção, há 21 anos, não era o mesmo Cristiano de agora. Agora, é um jogador muito mais de posição, de ponta de lança. É um jogador que, para nós, é um finalizador. É o melhor marcador da história e ter um jogador que, agora, está com 25 golos nos últimos 30 jogos da Seleção é um presente. É o agora, não estamos a falar do que o jogador fez há 10 anos», destacou.
Outro fator valorizado por Martínez é «o compromisso» demonstrando por Ronaldo na Seleção: «É o único jogador do mundo que tem mais de 220 internacionalizações. Com a experiência do Cristiano Ronaldo, ter o compromisso que ele tem... Ele é um exemplo. E é um jogador que contagia o balneário. Em campo é um finalizador, que atrai marcadores durante o jogo e abre espaço; e, para nós, esse é um aspeto muito importante. Ele está a mostrar que a idade é um número. Para ele, todos os dias são oportunidades de melhorar. Nós, da equipa técnica, avaliamos todos os jogadores, todos os dias, e a nossa avaliação do nosso capitão é a mesma que fazemos com outros jogadores. Ele consegue estar num nível que faz com que mereça ser chamado, e a Seleção é melhor quando o Cristiano está em campo.»
Martínez sabe, porém, que há quem defenda o contrário — que Portugal joga melhor sem CR7. «Estamos a falar do jogador mais experiente do mundo. Precisamos de usar isso. Só pode ser positivo um jogador novo chegar ao balneário e poder aprender com o jogador mais experiente que existe. Depois, há o aspeto dos movimentos dentro da área. É um jogador muito inteligente, abre espaços a outros jogadores, rompe a linha defensiva. É o melhor marcador, é o melhor jogador de área que temos em Portugal. Mas todos os aspetos dele, de compromisso, do que significa jogar pela Seleção, são muito importantes», insistiu.
«Acho que a resiliência dele é difícil de encontrar. É muito difícil que uma pessoa que, depois de ter muito, muito sucesso, no dia seguinte, quando acorda, tenha a mesma fome. Acho que isso faz com que o Cristiano seja único.»
Apesar de tudo, Martínez garante que o capitão não tem lugar cativo, e questionado sobre como será se tiver de deixá-lo no banco em jogos do Mundial, respondeu assim: «Faz parte do meu trabalho. Estou há três anos já nesta posição. O mais importante é que a Seleção ganhe, que a Seleção esteja mais forte que o adversário. Tomar decisões difíceis faz parte do nosso trabalho.»
Diogo Jota
Convidado a mencionar qual a primeira imagem em que pensa quando ouve o nome de Diogo Jota, Martínez não hesitou: «Primeiro, a tragédia de perder o Diogo Jota e o irmão André. É uma tragédia muito, muito difícil. O Diogo Jota é um estímulo, uma força, um aspecto de união dentro do vestiário. E de foco. Queremos fazer o que o Diogo Jota acreditava, que era: 'Podemos atingir tudo aquilo por que lutamos'. É uma força que faz parte daquilo que construímos. A equipa que nós construímos é com o Diogo Jota e vai continuar a ser.»
O maior espanhol da História de Portugal?
Definindo-se como «um maluco do futebol», Roberto Martínez não vê as tarefas como um trabalho, e garante que não se cansa do desporto. «Também para desligar gosto de ver outros jogos», confessou.
À conversa veio também a questão da nacionalidade, que o selecionador desvalorizou. Por isso, não se surpreenderia de ver um treinador argentino à frente do Brasil, como não encontrou qualquer problema por ser um espanhol em Portugal. «Nasci em Espanha, mas vivi 21 anos em Inglaterra e, depois, sete anos na Bélgica. Acho que a nacionalidade não é uma vantagem e não te limita para seres bom no teu trabalho. Não é a nacionalidade, é a oportunidade de partilhar um objetivo comum. Que, para mim, agora, é tentar ajudar a Seleção Portuguesa a ganhar um Mundial», explicou.
E se o conseguir, será o maior espanhol da História de Portugal? Martínez ri-se. «Acredito muito nos sonhos. Os objetivos começam em sonhos. E isso acho que é um bom sonho. Por que não?»
Em defesa do futebol da Seleção
O Selecionador Nacional foi ainda questionado sobre críticas que tem recebido, sobretudo em relação à qualidade do futebol praticado. «Gosto da paixão em volta da nossa Seleção», respondeu. «E a paixão é opinião, é debate, faz parte. Posso controlar o compromisso, a atitude, o trabalho dos jogadores, o que acontece em campo, o que acontece no balneário. E, com isso, fico muito, muito satisfeito. Nós trabalhamos para o objetivo, que é ganhar, marcar golos. Fico satisfeito de ver os números desta Seleção, que tem a maior percentagem de golos e de pontos por jogo. É isso que é a conversa objetiva. Depois, subjetivamente, faz parte. Tenho respeito por todas as opiniões, mas acho que este Portugal convence. Os números dizem isso: uma equipa que corre riscos, que gosta de ter a bola, que gosta de atacar. E isso faz com que seja uma equipa que tem muito reconhecimento fora de Portugal, o que também é importante. Mas acredito que todas as críticas, todas as opiniões, são saudáveis. Porque são opiniões da paixão que as pessoas têm pela Seleção», defendeu.
O selecionador destacou ainda o compromisso dos internacionais lusos — «Acho que, na Europa, é difícil jogar pela Seleção e os nossos jogadores portugueses são exemplares, o compromisso é total» — e admitiu que os quatro meses sem jogar ou reunir a equipa, entre novembro e março, tornam o trabalho difícil. «A Seleção precisa de mais tempo para relembrar os conceitos, ou aquilo que nós somos como equipa. São estágios, e falo de março de 2024, março de 2025, em que a nossa equipa precisa de mais tempo para recuperar aquilo que foi feito durante novembro, outubro e setembro.»
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