O alargamento do protocolo do VAR foi uma das medidas tomadas pelo International Football Association Board (IFAB) - Foto: Imago
O alargamento do protocolo do VAR foi uma das medidas tomadas pelo International Football Association Board (IFAB) - Foto: Imago

Transparência e integridade no futebol

'#Minuto 92' é o espaço de opinião quinzenal de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

O International Football Association Board (IFAB) reuniu-se no País de Gales para a realização da assembleia geral anual, que ficará marcada pela aprovação de um conjunto de alterações significativas às Leis de Jogo. As mudanças, que entrarão oficialmente em vigor a 1 de julho, mas que poderão vir a ser aplicadas no Mundial de 2026, confirmam a intenção de tornar mais fluído o desenrolar do jogo e desincentivar perdas de tempo que em nada beneficiam o espetáculo futebolístico.

Comecemos pelo que é mais evidente e necessário: o combate declarado às perdas de tempo útil de jogo. O IFAB aprovou a introdução de contagens decrescentes para os lançamentos laterais e pontapés de baliza, com penalizações claras para quem incumprir os timings de reposição. Se a bola não for reposta em jogo no final da respetiva contagem, o lançamento reverte para o adversário; no caso do pontapé de baliza, a equipa infratora acaba por oferecer um pontapé de canto à equipa oponente. A mesma lógica aplicar-se-á às substituições: o jogador substituído disporá de dez segundos para abandonar o retângulo de jogo, sob pena de o seu substituto ter de aguardar um minuto adicional antes de poder entrar. Estas medidas são, em si mesmas, um incentivo à celeridade do desenrolar das incidências dentro do relvado. O comum adepto de futebol tem hoje a perceção de que o tempo útil jogado é substancialmente inferior quando comparado com outras modalidades (basquetebol, hóquei em patins, etc.) e que a delonga na avaliação de eventuais lesões, ou os passeios até à linha lateral e os lançamentos propositadamente demorados se tornaram quase ferramentas táticas tão comuns quanto a marcação de um livre previamente ensaiado.

No entanto, há algo de profundamente revelador no facto de ser necessário criar todo um aparato regulamentar para impedir comportamentos que deveriam ser simplesmente desincentivados pelo bom senso e pelo espírito de competição positivo.

O alargamento do protocolo do VAR também mereceu uma reflexão no mesmo encontro. A partir da próxima época, o videoárbitro poderá intervir em casos de segundos cartões amarelos manifestamente incorretos, corrigir situações de confusão com a identidade de jogadores admoestados e, opcionalmente, rever a atribuição errada de pontapés de canto, desde que a análise seja efetuada no imediato. A FIFA confirmou, entretanto, a intenção de aplicar esta última alteração regulamentar no Mundial deste ano. São ajustamentos razoáveis que reconhecem as limitações evidentes do sistema atual, e que ilustram a necessária evolução tecnológica no contexto do futebol.

Ainda assim, a medida mais ambiciosa, e porventura a mais reveladora do sinal dos tempos, é a decisão de avaliar sanções a jogadores que tapem a boca ao falar com adversários ou colegas. O gesto, que se tornou omnipresente nos últimos dias, existe por uma razão óbvia: com a cobertura de câmaras em todos os ângulos do estádio e especialistas em leitura labial sempre atentos nos órgãos de comunicação social, os profissionais de futebol perceberam que qualquer palavra pode transformar-se em parangona noticiosa ou, até mesmo, desencadear um procedimento disciplinar. A prática ganhou maior visibilidade após o incidente que envolveu Prestianni e Vinícius Júnior no jogo da primeira mão do play-off da Liga dos Campeões, no Estádio da Luz, em que o jogador argentino do Benfica tapou a boca com a camisola enquanto, alegadamente, dirigia palavras insultuosas ao atleta brasileiro, que posteriormente o acusou de insultos racistas. Provavelmente este caso terá funcionado como catalisador para a discussão no âmbito do IFAB.

Subsiste, ainda assim, uma correlação difícil de conjugar entre a evidente necessidade de transparência e privacidade, e a responsabilização e vigilância permanente das ocorrências dentro do terreno de jogo. Com esta decisão, o IFAB assume ab initio que, se os jogadores pretendem esconder o que dizem, é porque dizem algo de condenável. Mark Billingham, diretor-executivo da Federação Inglesa e membro do IFAB, foi ainda mais longe ao afirmar que «há muito poucas circunstâncias em que os jogadores precisam de tapar a boca quando confrontam adversários». É uma posição arrojada, ainda que compreensível, sobretudo num contexto em que o combate ao racismo e a outras formas de discriminação no futebol se assumiu como uma prioridade institucional.

Contudo, não deixa de ser discutível transformar em infração disciplinar um gesto que, na sua essência, é neutro. Tapar a boca não é, em si, ofensivo. O que pode ser ofensivo é o conteúdo das palavras proferidas, e esse conteúdo nem sempre será passível de verificação. Institui-se, assim, uma presunção de culpa baseada na forma e não na substância, o que pode levantar questões até do foro legal. É a materialização da ideia de que onde há fumo há fogo, o que — bem sabemos — poderá conduzir a conclusões injustas, desde logo por comportar o risco de penalizar jogadores que simplesmente pretendem manter conversas legitimas ou comentários privados, seja para coordenar ou corrigir aspetos técnico-táticos do jogo, seja para resolver eventuais desentendimentos menores, sem a necessária exposição mediática.

No seu conjunto, as decisões do IFAB refletem um futebol que tenta, simultaneamente, modernizar-se e moralizar-se. Promover menos tempo morto e mais tempo útil. Menos espaço para comportamentos ocultos e maior transparência.

Sinal mais: FC Porto B
Depois de um início de época muito exigente, recuperação notável do FC Porto B na II Liga. Atualmente no 4.º lugar da competição, com 37 pontos em 24 jogos disputados.