Rui Costa, André Villas-Boas e Frederico Varandas, presidentes de Benfica, FC Porto e Sporting
Rui Costa, André Villas-Boas e Frederico Varandas, presidentes de Benfica, FC Porto e Sporting

Adeptos têm os presidentes que querem

Mourinho já foi azul, hoje é vermelho; os altos dirigentes são só de uma cor e só fazem o que fazem mediante um mandato popular, incluindo a gritaria

15 de fevereiro de 2004: o Benfica, treinado por José Antonio Camacho, recebe, na 22.ª jornada, no Estádio da Luz, o líder FC Porto de José Mourinho. Ocupa o terceiro lugar, atrás do Sporting, a nove pontos do primeiro. Só a vitória interessa às águias para manter a esperança na conquista do título. Costinha marca para os dragões aos 29’, Simão Sabrosa empata aos 49’. O marcador não sofre mais alterações e o assunto fica praticamente arrumado no que às pretensões dos encarnados diz respeito.

22 anos depois, o cenário é muito semelhante: FC Porto em primeiro, ainda que apenas com sete pontos de vantagem, Sporting em segundo, Benfica a correr atrás dos dois rivais. Mas agora é Mourinho quem está na pele de perseguidor.

Serve isto para recordar a natureza de cada função no futebol e de como as coisas mudam com o tempo. Jogadores e treinadores defendem os seus emblemas numa lógica de profissionalismo. Mourinho ontem era azul, hoje é vermelho mas já foi muitas outras cores; Farioli hoje é azul e certamente amanhã será verde, branco ou amarelo e ainda bem, pois uma carreira é feita de diversidade.

Já os presidentes só têm uma cor. Ao contrário de jogadores e treinadores não podem dar-se ao luxo de jurar amor a um clube e meses ou anos depois beijar outro escudo. A lógica de dependência também é diferente: apesar de se identificarem mais ou menos com a respetiva massa associativa, os técnicos dependem única e exclusivamente dos presidentes, que de uma forma racional ou passional tanto lhes renovam contratos como os mandam embora.

E a quem respondem os presidentes? No modelo de gestão português, não há grandes dúvidas: aos adeptos. Concretamente, aos sócios que os elegem. Portanto, é bom nunca esquecer esta questão elementar: cada vez que vemos André Villas-Boas, Frederico Varandas, Rui Costa ou António Salvador atirarem-se às arbitragens ou criticarem os rivais é porque estão caucionados por uma espécie de mandato popular. Senão, lembrem-se do seguinte: recordam-se do que Villas-Boas era acusado no primeiro ano de mandato? E de Frederico Varandas nos seus primeiros anos no pós-Bruno Carvalho? E de Rui Costa? Isso mesmo, de serem brandos, de não responderem à altura.

Os presidentes, tal como os políticos, não vieram de Marte, representam a cultura em que estão inseridos. Pode vir o mais bem intencionado, que depressa é contaminado pelo contexto. Uma mudança profunda faz-se, por isso, de baixo para cima. Não peçam flores para os outros se no vosso quintal só há pedras.

ELEVADOR DA BOLA

A subir

José Mourinho, treinador do Benfica

Goste-se ou não do estilo, está a criar uma identidade no Benfica. Nenhum jogador regrediu com ele, pelo contrário: Dahl e Schjelderup são dois exemplos de crescimento assinalável. Tem o mérito de não desistir e disso mesmo vai valer-se no clássico.

Estagnado

Francesco Farioli, treinador do FC Porto

O FC Porto mantém a segurança defensiva mas continua com grandes doses de sofrimento, ganhando sempre à tangente. Se é o suficiente para ser campeão, o clássico com o Benfica é um bom tira-teimas. Mas que todos tivessem o seu problema.

A descer

Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem

É a cara da arbitragem em Portugal. A nomeação de Cláudio Pereira para o Sporting-FC Porto da primeira mão da Taça de Portugal foi um risco não calculado e o mau desempenho que teve expõe mais quem o atirou para uma arena que o próprio.