Antiga jogadora das leoas recorda momento «especial» em novembro de 2016, no dia seguinte ao falecimento de um familiar muito próximo

Rita Fontemanha e a seca do Sporting: «Não falta qualidade»

Antiga média fez retrospetiva a dez anos ao serviço das leoas, analisou época «atípica» e garantiu que não guardou «absolutamente nenhuma mágoa». Falta de «mentalidade competitiva» e consistência ditaram novo segundo lugar no campeonato

164 jogos. Dez temporadas. Oito títulos. Rita Fontemanha despede-se do Sporting como capitã, mas sem qualquer conquista. A antiga média pendurou as botas sem mágoa, mas com a tristeza de não ter quebrado a seca leonina: o último campeonato conquistado remonta a 2017/18.

Fontemanha, em entrevista a A BOLA, recordou o bicampeonato conquistado de leão ao peito, destacou o dia em que pisou o relvado do Estádio de Alvalade e refletiu sobre a última campanha da carreira na liga, que terminou a 13 pontos do campeão Benfica-

 — Como é reagiu à notícia de que seria a capitã do Sporting em 2025/26?

Foi um dos momentos mais especiais. O voto de confiança que senti nesse momento de ser a voz das jogadoras não é só mais uma responsabilidade. É uma responsabilidade grande estar num clube com a dimensão do Sporting, mas uma ainda é ser a cara do grupo. Recebi-a com grande entusiasmo e fiquei muito feliz e muito grata pela oportunidade. Também por isso esta saída ainda tem mais significado porque saio depois de ter tido a oportunidade de ser capitã deste grande clube.

— Fica com mágoa por não ter levantado qualquer troféu como capitã?

Não guardo mágoa de absolutamente nada que tenha vivido no Sporting. É óbvio que adorava ter tido a oportunidade de levantar um título enquanto capitã do Sporting porque tem sempre um significado ainda mais especial. Mas, acima de tudo, gostava muito de ter voltado a conquistar um título esta temporada, estamos há muito tempo sem ganhar. Não fica mágoa porque penso que todas as atletas que estiveram aqui e a equipa técnica queriam muito ganhar. Fizemos aquilo que conseguimos com as ferramentas que tínhamos para isso. Fico triste por não poder ter dado mais um título ao clube, mas faz parte.

Rita Fontemanha fez o 2-0. Foto: Sporting CP
Rita Fontemanha com a braçadeira. Foto: Sporting CP

— O Sporting termina a Liga a 13 pontos do Benfica. O que é que correu mal?

— O objetivo tem de ser sempre lutar por todos os títulos possíveis num clube com a dimensão do Sporting. Acabámos por ter uma época um bocadinho atípica, foi um ano de transição, saíram muitas atletas, tivemos de reformular o grupo e voltar a transmitir valores. Pelo meio também tivemos algumas lesões, mas a responsabilidade é inteiramente nossa. Enquanto jogadora e capitã assumo a responsabilidade. Todas temos de fazer um ato de reflexão e pensar porque é que as coisas não correram tão bem. Acabou por ser duro porque 13 pontos, na minha opinião, não refletem as diferenças que existem entre os dois plantéis. Penso que nos faltou um bocadinho de mentalidade competitiva para todos conseguirmos ser mais consistentes e ultrapassar essa barreira. No final do dia, o campeonato é ganho por quem é mais consistente ao longo do ano. Temos de ser mais consistentes mentalmente para podermos chegar a esse ponto. Está a faltar um título desde 2018 e penso que não que falta qualidade.

13 pontos não refletem as diferenças que existem entre os dois plantéis

— O balneário perdeu várias referências no último ano: Ana Borges, Diana Silva, Fátima Pinto, Ana Capeta...

— O futebol também é um bocadinho isto, é feito de ciclos, de pessoas que entram e que saem. No ano passado saíram referências do clube que também ficam para a história. Da mesma forma que conquistei os oito títulos, muitas delas também também o fizeram. Além de companheiras de equipa eram também amigas, é óbvio sentimos essas saídas. Por outro lado, a vontade de mostrar a quem chega o que é que é ser Sporting e quais são as responsabilidades acrescidas trouxe maior um peso de responsabilidade a mim, à Cláudia [Neto], à Brenda [Pérez], à Joana [Martins]m jogadoras que já vivem o clube há mais tempo. Sabíamos que a nossa tarefa era voltar a colocar o Sporting no topo da montanha, que é onde merece estar.

— O que é que perdura mais na memória: o primeiro jogo ou o primeiro golo pelo Sporting?

— Diria que o primeiro golo, contra o Vilaverdense [13 de novembro de 2016], teve um sentimento especial porque meu tio tinha falecido no dia anterior. Nem era para ir a jogo mas acabei por ir para tentar também distrair-me. Eu já estava no Norte, a minha família é de lá, fui a jogo e o futebol proporcionou-me um momento mais marcante, tem um significado especial. O primeiro jogo [contra o Belenenses, a 10 de setembro de 2016] marca o início de uma era, mas o primeiro campeonato nacional foi ainda mais especial porque joguei em casa do Boavista e conquistámos o meu primeiro. Foi um jogo muito especial.

— Quais são as principais memórias que tem dos primeiros anos no Sporting?

Foi um tempo muito giro porque o projeto do Sporting, e também do SC Braga, começam com uma expectativa sobre o que ia ser esta nova era do futebol feminino. Construímos um grupo muito bom, também fruto de bons resultados. Fomos capazes de competir muito bem,, tínhamos um rival à altura. O SC Braga tinha jogadoras extraordinárias. Foi o início de uma grande mudança no futebol feminino e fico feliz por poder ter tido a oportunidade de fazer parte dessa mudança. 

Equipa do Sporting em duelo contra o Futebol Bem, em 2017 . Foto: Miguel Nunes

— Pisa o relvado do Estádio de Alvalade pela primeira vez precisamente contra o SC Braga, em fevereiro de 2017…

Que dia, lembrei-me de tudo. A minha família estava estava em êxtase, é uma família de sportinguistas. A filha/neta jogar no Estádio de Alvalade era uma coisa impensável para quem olhava para o futebol feminino há uns anos. Alvalade para mim foi o palco dos sonhos. Batemos orecorde de assistência e aquele golo [Solange Carvalhas aos 90+5'] acabou por dar-nos uma margem para podermos ser campeãs nacionais. Foi um jogo muito especial.

Duelo entre Sporting e SC Braga, em fevereiro de 2017, no Estádio de Alvalade - Foto: A BOLA

— No Sporting começou a lateral direita, jogou no meio e terminou em central. Em que posição é que jogava para sempre?

— A média, sem sombra de dúvidas. É a minha posição favorita, onde achava que podia render mais, me sentia mais confortável e que as minhas valências podiam ser mais úteis. A média estou mais próxima da baliza, que sempre foi uma coisa que gostei. É óbvio que a polivalência é uma vantagem, tanto para o treinador como para a atleta, mas não nos especializamos numa posição. Se me perguntarem se adorava jogar a lateral-direito, não adorava, mas o que gostava mesmo era de jogar. Média será sempre a minha posição.

— O que é que precipitou o regresso a Portugal em 2016?

— No final da época 2015/16 estava a treinar com a equipa A do Atlético de Madrid e jogava na B. Queria mudar de ares e precisava de mais espaço porque estava a passar por uma fase de falta de confiança. Na altura tive uma proposta para ir para a Suíça, mas não achei que fosse um sítio onde me poderia desenvolver na plenitude. Depois surge a proposta para o Sporting. Em conjunto com a minha família, pensei ‘se calhar faz-me sentido voltar ao meu país, ter algum protagonismo e voltar a ganhar confiança. Depois vejo o que é que poderá acontecer.’

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