Rita Fontemanha justificou despedida dos relvados aos 32 anos

«Nem nos meus melhores sonhos acharia possível ter uma carreira como a que tive»

Rita Fontemanha despediu-se dos relvados aos 32 anos como quis. Uma década de leão ao peito e dez troféus depois pendurou a batuta sem mágoas. Futuro está alinhavado… fora de Alcochete.

Como é que se diz adeus a uma vida inteira? Rita Fontemanha colocou um ponto de final em 20 anos de carreira de futebolista aos 80’ duelo entre Sporting e Racing Power, na última jornada da Liga, com a leveza que sempre a caracterizou com a bola nos pés.

De Alcochete a Alvalade, as homenagens à capitã leonina multiplicaram-se e emocionaram quem nunca sonhou com uma carreira profissional. A incerteza no início do percurso numa era bem mais cinzenta do futebol feminino contrasta com dez anos «sem arrependimentos» ao serviço das verdes e brancas. A média de 32 anos recorda sem mágoas percurso trilhado entre Porto, Madrid e Lisboa e antecipa o futuro com entusiasmo em entrevista a A BOLA.

—   O que é que sentiu quando saiu de campo pela última vez na carreira aos 80’ diante do Racing Power?

 Saí feliz e em paz. Encerrar uma carreira não tem que ser só um momento triste, para mim também é um momento feliz. Senti muito carinho por parte das pessoas. À medida que fui atravessando aquele campo, houve muita gente a abraçar-me e sentia ‘ok, isto está a chegar ao final’. Obviamente há sempre uma parte de mim que sai com alguma tristeza porque vivi uma jornada extraordinária no futebol, mas senti que era tempo de finalizá-la. Foi uma caminhada feliz apesar de tudo. Estou feliz e orgulhosa por tudo aquilo que fiz.

—  Saiu nos seus termos?

 Totalmente. Senti que esta era a época para fazê-lo. Tomei a decisão de forma ponderada, comuniquei com tempo ao Sporting porque tinham de ser os primeiros a saber da minha vontade e respeitaram sempre os meus timings e as minhas decisões. O Sporting homenageou-me de formas extraordinárias. Saio no meu tempo e quando achei que era o momento.

—  O que é que esteve na origem dessa decisão aos 32 anos?

 Apesar de me sentir super bem fisicamente porque procurei ao longo destes anos cuidar-me para ter uma maior longevidade, senti que estava a ficar um bocadinho cansada a nível mental. O futebol e a alta competição são muito exigentes. Sempre soube da importância que tinha dentro do balneário para passar os valores certos diariamente e o impacto positivo que tinha, mas obviamente que todos queremos ter mais minutos. Não sentir que conseguia acrescentar esse tipo de valor ao clube significou que o meu tempo estava a chegar ao fim. Não é que não me sentisse fisicamente a 100% mas se calhar mentalmente já me sentia a 99% e 99% não chega para um clube como o Sporting. O nosso sentido de competência varia muito consoante aquilo que conseguimos alcançar a nível profissional e sentia que também já não estava a conseguir dar ao Sporting tudo aquilo que o clube precisava.

Rita Fontemanha foi ovacionada no final do último jogo - Foto:@fontemanha/instagram
Rita Fontemanha foi ovacionada no final do último jogo - Foto:@fontemanha/instagram

—  Preferiu terminar a carreira já no Sporting em vez de continuar a jogar noutro clube?

—  Houve bastantes vezes em que ponderei se deveria ir para outro clube para ter mais de espaço e mais minutos, mas, no final do dia, o coração pendeu sempre para ficar no Sporting. Sabia que queria deixar um legado no Sporting, tinha o objetivo muito claro de transmitir os meus valores e ser alguém que fazia parte da história do clube. Não havia melhor forma de o fazer do que terminar a minha carreira aqui. Não me arrependo de todo, mesmo que muita gente possa achar que com 32 anos ainda é cedo, para mim não havia desfecho nenhum melhor para mim do que este. Como o meu grande sonho e objetivo era terminar a carreira no Sporting, não me fazia sentido sair para outro sítio.

O meu grande sonho e objetivo era terminar a carreira no Sporting,

— O decréscimo no tempo de jogo foi planeado ou apenas opção técnica?

— Penso que foi opção técnica. Obviamente que os místeres, sabendo desde fevereiro tinha intenções de terminar a minha carreira, puderam dar mais espaço a quem fica. De qualquer das formas não acho que tenha sido uma questão pensada. São questões técnicas que obviamente respeito. Continuei exatamente por isso a dar sempre o 100% do primeiro ao último dia.

Poucos minutos, muita presença

Rita Fontemanha somou apenas 360 minutos esta época, distribuídos por sete jogos. A capitã leonina, ainda assim, figurou na ficha de jogo de todas as partidas disputadas.

—  No momento em que comunica a decisão de pendurar as botas ao plantel várias colegas de equipa ficaram em lágrimas...

—  Por muito que adore ver o carinho que os adeptos têm por mim, no final do dia o respeito que consegui conquistar da parte delas é o melhor que posso levar daqui. São elas convivem comigo diariamente e que representam um bocadinho daquilo que sou. Perceber que este também foi um momento delas, foi muito especial. Faz-me sentir que fiz as coisas bem.

—  O que sentiu quando foi homenageada antes do Sporting-Vitória no Estádio de Alvalade, a 4 de maio?

—  Foi, sem sombra de dúvidas, um dos dias mais bonitos e especiais da minha vida. Aquela homenagem representa muito mais do que só 10 anos no Sporting, representa história no meu clube. Não me recordo de outra situação como esta. O corredor que elas [colegas de equipa] me fizeram foi muito emocionante, o aplauso dos adeptos. O facto desta homenagem ter vindo da mão do presidente representa muito e demonstra que, além da gratidão e do privilégio que sinto em representar o Sporting, também existe muita gratidão do clube por tudo aquilo que dei. Querer retirar-me aqui foi-me retribuído a 100%.

A homenagem do Sporting a Rita Fontemanha - Foto: Miguel Nunes

— Esta homenagem reflete também a evolução da valorização do estatuto das futebolistas dentro do próprio clube?

—  É um reflexo claro da evolução da modalidade e do espaço que conquistámos. O Sporting abriu-nos portas. Nós agarrámos e aproveitámos. Poder ficar marcada na história do Sporting, no museu e em tudo o que representa este grande clube tem de ser motivo de orgulho, não só para mim, mas para todas as pessoas que estão à minha volta.

— Já caiu a ficha que acabou oficialmente a carreira?

— Ainda não. Há uma pausa para férias que iria acontecer de qualquer das formas. Acredito que no recomeço da próxima temporada poderei sentir um bocadinho falta das rotinas do dia-a-dia, do espírito de balneário que é uma coisa que não se encontra em mais lado nenhum e poderei passar aqui por um período mais difícil, o chamado luto pós-futebol. Vou ter de sofrer um bocadinho, mas estou tranquila.

Rita Fontemanha foi ovacionada no final do último jogo - Foto:@fontemanha/instagram
Rita Fontemanha foi ovacionada no final do último jogo - Foto:@fontemanha/instagram

—  Já tem o futuro alinhavado? 

 Acredito que posso fazer a diferença fora das quatro linhas e continuar a contribuir positivamente para o crescimento do futebol no geral. O futebol foi provavelmente a parte mais bonita da minha vida e da minha jornada. É um momento triste, mas também entusiasmante. Vou experimentar coisas novas, perceber aquilo em que me sinto mais confortável e que tipo de caminho é que vou querer traçar. Mas já tenho o futuro mais ou menos o futuro alinhavado. Ainda não posso revelar. mas posso dizer que passará muito pela área da comunicação.

—  Fora do Sporting?

 Fora do Sporting.

— Estudou enquanto jogava?

— Tinha estado um ano na Católica a tirar Direito, depois mudei-me para a Faculdade de Desporto. A minha mãe pediu-me para não deixar de estudar quando fui para Espanha. Tentei enquanto estava em Madrid. Faltam-me duas cadeiras para terminar porque entretanto o futebol profissional meteu-se. De manhã ficava difícil portanto tenho ali um senão. Em 2021/22, estudava na universidade de manhã, vinha para o Sporting porque treinávamos às 15h30 e depois saía direta para o polo universitário para dar treinar às miúdas quatro vezes por semana. Foi um ano caótico, mas ao mesmo tempo obrigou-me também a sair um bocadinho da minha zona de conforto e a organizar-me da melhor forma possível. Foi muito giro. Pude contactar com as camadas jovens, isso ajudou-me a a desenvolver-me enquanto profissional.

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— Sentiu o bichinho do treino?

— Tenho um bocadinho porque adoro futebol e entender tudo o que acontece no dia-a-dia. Como passei por tudo percebo perfeitamente o que é que cada uma está a sentir em diferentes momentos do treino.

—  Sente que ficou alguma coisa por fazer na carreira de jogadora? 

— Penso que não ficou nada por fazer porque em todos os sítios onde estive e em todos os dias da minha vida e da minha carreira dei os meus 100%. Utilizei todas as ferramentas que tinha para poder ser melhor pessoa e melhor atleta. Nunca poderei colocar em palavras o quão grata sou pelo carinho gigante que recebi desde que anunciei que ia terminar a carreira. Isso nunca teria acontecido se o caminho não tivesse sido este. Estou muito tranquila, não ficou nada por fazer, nada por dizer e espero realmente que a minha marca tenha ficado nas pessoas. Nem nos meus melhores sonhos acharia possível ter uma carreira semelhante àquela que tive e terminar da forma que terminei. Nunca pensei estar a dar uma entrevista sobre a minha carreira e por isso mesmo é uma vitória. Ainda bem que os sonhos existem, mesmo aqueles que não achamos possíveis. 

— Se tivesse de descrever a carreira que teve numa só palavra qual seria?

Épica. Vivi tudo o que tinha para viver, experienciei tudo o que tinha para experienciar, passei por clubes extraordinários, conheci pessoas maravilhosas ao longo da minha carreira e termino no melhor clube do mundo. 

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