Ramires revive os golos ao FC Porto: «O primeiro foi uma fífia do Kralj»
Bastam os dedos de uma mão para contar os jogadores que, na história do Alverca, marcaram ao FC Porto nas 12 partidas entre as duas equipas. Ramires, antigo extremo-direito, é um deles e tem uma ligação especial a essa história: foi o primeiro futebolista a faturar em duelos contra os dragões, em 1998, numa derrota por 5-1, em casa, repetindo a dose mais tarde, na época 1999/2000. Uma temporada histórica, na qual o Alverca impôs aos azuis e brancos dois empates — nas Antas (0-0) e em casa (1-1). Neste último jogo, Ramires marcou primeiro e Jorge Costa empatou ainda antes do intervalo.
«O Jorge Costa... foi uma perda terrível. Aproveito para endereçar os meus sentimentos à família portista», atalha, no primeiro contacto com A BOLA. O antigo campeão europeu de sub-18 por Portugal está no topo dos atletas com mais jogos pelos ribatejanos: 223, com 37 golos marcados. Não é coisa pouca.
É o embate de domingo com os portistas que faz a conversa fluir. E há um nome que vem à baila: Ivica Kralj! Um dos mais polémicos guarda-redes da história do FC Porto, montenegrino de nascimento e titular da baliza da antiga Jugoslávia. Não havia que enganar, mas enganou, transformando-se num dos maiores flops da história dos dragões. O golo de Ramires foi marcado a Kralj, num frango monumental que acentuou a desgraça do reforço portista.
«Lembro-me perfeitamente do lance. Ele abordou mal a bola num canto curto, estava a chover, tentou socá-la, mas ela resvalou na luva e entrou, foi uma fífia. Foi mais demérito dele do que mérito meu», recorda. «O segundo foi com o Vítor Baía na baliza. Foi um passe do Milinkovic, o nosso número 10, que me isolou pela direita. Eu era muito rápido, o defesa-esquerdo deles era o Esquerdinha, que já faleceu, e fiz um remate cruzado com muita força», tem esse lance bem definido na memória.
«Lembro-me de que o FC Porto estava muito forte. Tivemos muitas dificuldades. O FC Porto sempre teve grandes equipas e tínhamos de correr o dobro para conseguir ganhar. Curiosamente, o FC Porto foi a única equipa grande que nunca conseguimos vencer enquanto estive no Alverca. Ganhámos ao Sporting, ao Benfica — na Luz e em Alverca —, ao Boavista, ao SC Braga... mas ao FC Porto não. Só empatámos ou perdemos», expõe. Um enguiço que se mantém até hoje: nunca os ribatejanos bateram os azuis e brancos.
O FC Porto sempre teve grandes equipas e tínhamos de correr o dobro para conseguir ganhar. Curiosamente, o FC Porto foi a única equipa grande que nunca conseguimos vencer enquanto estive no Alverca
«Deco: percebi que ia ser dos melhores»
Ramires fez parte de uma geração com grande talento. Imaginar Deco, Hugo Leal ou Maniche numa equipa da II Liga, juntos, dá uma imagem do que era o Alverca no final do século passado: «Era uma equipa inacreditável para a II Liga. A média de idades era de 20 ou 21 anos. Tínhamos o Deco, o Maniche, o Juba, o Hugo Leal... o nosso meio-campo era fortíssimo. O Deco, a partir da segunda volta, agarrou o lugar e nunca mais saiu. Dava para ver que ia ser um dos melhores médios do Mundo. Ele e o Maniche tinham uma qualidade acima da média. Jogar com o Deco era fácil, ele vinha sempre fazer tabelas comigo na linha. No FC Porto, melhorou muito a parte defensiva e foi isso que o fez ser dos melhores do Mundo. Eu disse isso lá: se melhorasse a defender, ia ser ‘top’. E foi.»
O Deco, a partir da segunda volta, agarrou o lugar e nunca mais saiu. Dava para ver que ia ser um dos melhores médios do Mundo. Ele e o Maniche tinham uma qualidade acima da média
«Foram três épocas e meia emprestado pelo Benfica e depois as restantes a título definitivo. Na altura, o Luís Filipe Vieira já não queria jogadores emprestados, queria ativos do clube, e eu e o Veríssimo [atual treinador do Benfica B] assinámos em definitivo», conta, recuperando o contexto que o levou ao Alverca, ele que até foi formado no Sporting.
Ramires terminou a carreira em 2011/12, no Luxemburgo, ao serviço do Union, e é hoje «motorista de Uber, já lá vão oito anos». «Atualmente, estou fora do futebol. A única coisa que fiz foi a convite do Jorge Andrade, que é como um irmão para mim — somos os dois da Amadora. Fui adjunto dele nos Iniciados do CAC da Pontinha durante uma época e meia», situa.