Quique Flores: «Gostaria de ter participado na grande transformação do Benfica»
MADRID — Quique Flores, 60 anos, está ligado sentimentalmente (e também esteve profissionalmelmente) a Benfica e Real Madrid. Treinou os encarnados na época 2008/2009, jogou como lateral-direito nos merengues de 1994 a 1996. Oportunidade ideal para falar, em grande entrevista a A BOLA, dos dois clubes. E não só.
— Como surgiu a possibilidade de treinar o Benfica?
— Foi tudo muito fácil, o Benfica contactou Mariam Abou-Khadour, uma agente que trabalhava em Valência, ela aproximou-se do meu empresário e assim começou tudo. Tive uma reunião com o Rui Costa num hotel, rapidamente chegámos a acordo e assinei um contrato por dois anos.
— Como foi recebido?
— Muito bem, toda a gente me tratou da melhor forma possível e fiz muitos amigos. Tenho uma excelente recordação daquele ano que passei no Benfica. Foi pena a equipa, naquela altura, não ser assim tão forte.
— Como era a relação com os responsáveis do clube?
— Dava-me bem com toda a gente, não se metiam no meu trabalho. Luís Filipe Vieira apoiou-me muito e o mesmo fez o Rui Costa, que ia a todos os jogos, viajávamos juntos e falávamos sempre de futebol. Também fiz uma grande amizade com o Shéu, uma pessoa extraordinária. Ele dizia-me: ‘Quique, não vou à frente nem atrás, vou no meio.’ Ele era mesmo assim.
— Como era o plantel?
— Tínhamos David Luiz, Di María, Pablo Aimar e José Antonio Reyes, que eram as joias da equipa. Para o Pablo, não foi um bom ano, tinha tido uma pubalgia e outras lesões, demorámos muito a recuperá-lo. Jogava, mas não estava a 100 por cento. Também estavam o Nuno Gomes, que já estava pelos últimos anos da carreira, o Mantorras, que estava lesionado. Contratámos também David Suazo.
— José Antonio Reyes já não está entre nós. Como o recorda?
— Com enorme carinho. Chorei muito quando soube da notícia. Estava a chegar a Xangai para disputar um desafio e vi que tinha imensas mensagens. Estranhei porque habitualmente tenho poucas. Quando percebi que Reyes tinha morrido, a sensação que tive foi horrível. Para mim, era como um filho, treinei-o em três equipas: Benfica, Atlético Madrid e Espanhol. Era um rapaz especial, tive uma pena enorme.
— A Taça da Liga que ganhou com o Benfica foi o seu primeiro título. Como o recorda?
— Sim, foi o primeiro dos seis títulos que tenho na carreira. Em Valência, fomos à Champions, mas não ganhámos títulos. Este foi especial, mas com um sabor agridoce, era um dérbi da cidade, mas não era o título que mais desejávamos. Mesmo sendo um ano de transição, os meus olhos estavam mais postos primeiro na Liga e depois na Taça de Portugal.
— Apesar de tudo, como viveu esse triunfo?
— Com satisfação. Trabalhámos muito para transformar uma equipa que tinha ficado em quarto lugar na época anterior numa equipa competitiva, capaz de chegar à Champions. A Taça da Liga deu-nos a sensação de que estávamos no caminho certo, tínhamos um grupo e formado uma equipa. As ideias eram bastante claras e os jogadores acreditavam no projeto. Foi o único título que conseguimos, mas, se Portugal não tivesse perdido um lugar no ranking da UEFA, teríamos ido à Champions. Não éramos campeões nacionais, mas, pelo menos, estaríamos na principal competição europeia.
O FC Porto era um avião, plantel extraordinário, e o Sporting tinha uma equipa mais sólida que a nossa
— Se havia tão boas perspetivas, por que é que só ficaram no terceiro lugar?
— O FC Porto era um avião, tinha um plantel extraordinário, e o Sporting tinha uma equipa mais sólida que a nossa, trabalhada há dois ou três anos e com uma filosofia muito definida. Vínhamos de um quarto lugar, com muitos problemas e muitas mudanças, faltou-nos completar a transformação. Na primeira volta fomos líderes, mas faltou-nos profundidade, estávamos numa maratona e não tivemos fôlego para competir até ao fim.
— Tinha mais um ano de contrato, gostaria de ter continuado?
— No início, sim. Mas quando o clube começa a duvidar se somos ou não o treinador certo, é melhor não continuar. Antes de terminar a Liga, sentámo-nos e decidimos que a minha passagem pelo Benfica acabava. Também suspeito que Jorge Mendes teve alguma influência para que viesse Jorge Jesus, mas, para isso, seria preciso que, antes, fosse eu a sair. Gostaria de ter participado na grande transformação do plantel que o Benfica fez no ano seguinte e ser protagonista nessa mudança, mas já estava no Atlético Madrid, a ganhar títulos europeus.
— Bom, também não se pode queixar, foi para o Atlético Madrid.
— Não me queixo de nada do que me dá a vida, nesta profissão estamos sempre expostos, há altos, baixos e meios-termos, o importante é encarar tudo com alegria, satisfação e gratidão para com quem apostou em nós, para com jogadores, equipas e adeptos que fizeram parte do nosso crescimento.
— Como vivia a rivalidade com o Sporting?
— Com normalidade, jogámos um particular na pré-época, no Algarve, ganharam-nos 2-0 e pareceram muito superiores, depois trabalhámos para que nos jogos da Liga já houvesse equilíbrio de forças. Nenhum de nós conseguiu tirar o título ao FC Porto, que era uma equipa superior, mas reduzimos muito a distância que tínhamos para o Sporting. A rivalidade entre os adeptos é natural, a mesma que existe entre os do Atlético e os do Real Madrid. Tenho muitos amigos no Benfica, também os tenho no Sporting e não há qualquer problema com isso.
Tive conversa inesquecível com Eusébio. Para ele o meu padrinho, Di Stéfano, era o melhor do mundo
— Na Taça UEFA, eliminaram o Nápoles, como recorda isso?
— Foi uma eliminatória duríssima, podia perfeitamente ter sido uma final europeia. Havia muita tensão porque a minha chegada ao clube ficaria marcada pelo que nela acontecesse e foi logo contra um adversário fortíssimo. O Nápoles tinha uma grande equipa, mas fizemos um jogo extraordinário na Luz, perdemos 2-3 em Nápoles e ganhámos 2-0 na Luz, foi uma eliminatória memorável. Fomos diretamente para a fase de grupos. Jogámos com o Olympiakos, com uma equipa ucraniana [Metalist], com o Galatasaray e com o Hertha. Lembro-me muito bem desse jogo em Berlim porque tive uma conversa inesquecível com o Eusébio. Estávamos num hotel que fazia parte do próprio estádio, durante a merenda antes do jogo e sentámo-nos os dois a conversar, com o relvado ao fundo. Perguntei-lhe muitas coisas, inclusive sobre o meu padrinho, Alfredo Di Stéfano. Antes disso, perguntei-lhe quem tinha sido, para ele, o melhor jogador do mundo. Respondeu sem hesitar: ‘O Alfredo.’ Foi uma conversa maravilhosa, sou um apaixonado pelo futebol vintage, e ouvir o Eusébio falar daquela época foi um verdadeiro privilégio.
— Quando foi para o Atlético Madrid, a estrutura que encontrou, era melhor ou pior que a do Benfica?
— O Benfica estava mais organizado. O Seixal era uma estrutura extraordinária, já era excelente há 16 anos, imagino como estará agora. Era um clube onde se podia trabalhar muito bem, com muitas ferramentas e magníficas condições. Com o passar dos anos, Benfica e Atlético estão a níveis semelhantes, mas naquela altura o Benfica estava mais avançado.
— Por onde passou, deixaram-no trabalhar sem interferências?
— Sim, completamente. Tive bons diretores desportivos, tratámo-nos sempre bem uns aos outros, construímos boas equipas e tive grandes jogadores. Quando tive jogadores para ganhar títulos, ganhámos títulos, quando tive jogadores para ir à Champions, fomos à Champions, quando o plantel era de meio da tabela, fizemos meio da tabela, quando a equipa tinha risco de descer não descemos. É simples.
— Falou de Aimar, Reyes, Di María e David Luiz como os mais influentes. Mas quem era a sua voz dentro do campo?— O Luisão, sem dúvida. Era a voz de todos, não apenas a minha, era a extensão do treinador dentro do campo, tinha uma personalidade extraordinária. Tínhamos uma muito boa relação e mantive contacto com ele durante bastante tempo. O Nuno Gomes também era magnífico, brilhante dentro e fora do campo, era outra excelente extensão da equipa técnica.
Rui Costa é alguém que entende de futebol. Apesar de figura enorme mantém a humildade
— Naquela época imaginou que o Rui Costa poderia chegar a presidente?
— Sinceramente, não pensei nisso. Como já era diretor desportivo, imaginava-o muitos anos nessa função, no Benfica ou em qualquer clube do mundo. Mas quando surgiu a possibilidade de ser presidente, achei que poderia fazer um bom papel. É alguém que entende o futebol, tem experiência e, apesar de ser uma figura enorme, mantém uma humildade muito importante, sabe ouvir e isso, para mim, vale muito.
— Em Portugal teve duas experiências importantes: uma muito boa e outra… nem tanto. A boa foi que encontrou o amor — namorou Orsi Fehér, irmã do antigo avançado Miklos Fehér.
— Claro. O amor está em todo o lado. Basta estar atento.
— E a má foi o problema com o Javier Balboa.
— Para mim não foi um problema. Quando confiamos num jogador, ele tem de te devolver essa confiança. Se um jogador, anos depois, não fala bem de mim porque não jogou, isso diz mais sobre ele do que sobre mim. Quando contratamos jogadores, não lhes prometemos servidão, o rendimento é que fala. Se não o coloquei a jogar, foi porque não o considerei entre os melhores naquele momento. O meu compromisso com o Benfica era pôr sempre os melhores em campo.
— Ainda se falam?
— Nunca nos cruzámos, mas se o visse, cumprimentava-o. Ele talvez não. Mas não lhe guardo qualquer rancor. Quem guarda rancor sofre muito.