A pergunta que me inquieta
Há muitos anos tive a sorte de fazer a cobertura dos Jogos Paralímpicos, não de inverno como estes que estão agora a realizar-se e onde Portugal tem pela primeira vez um representante, o snowboarder Diogo Carmona, mas a edição de verão, com muitos portugueses que regressaram a casa com muitas medalhas.
Foi o serviço, ao longo da minha carreira, que mais me marcou. Provavelmente porque nunca tinha tido um contacto direto com pessoas com deficiência e estava longe de conhecer a realidade que encontrei. Tinha, como muitos, uma ideia feita e totalmente errada.
O primeiro dia na piscina foi um murro no estômago e, ainda hoje, não consigo responder a uma pergunta que continua a incomodar-me: estamos perante uma celebração do desporto ou perante um palco onde se amplificam histórias de vida para sublinhar a diferença?
Entre medalhas, recordes e lágrimas, os Jogos Paralímpicos tornou-se um dos mais poderosos instrumentos de visibilidade para atletas com deficiência. Mas essa visibilidade deixa-me sempre a pensar se ao contar estas histórias, estamos a normalizar a presença destes atletas no desporto de alto rendimento ou, involuntariamente, a transformá-los em exceções extraordinárias?
Claro que é impossível negar o impacto positivo dos Jogos. Durante duas semanas, atletas que raramente ocupam o centro da agenda mediática tornam-se protagonistas. Modalidades pouco conhecidas ganham transmissão televisiva, estádios cheios e uma audiência global. Mais importante ainda, o evento contribui para desafiar a visão tradicional da deficiência como sinónimo de incapacidade. Nos Jogos Paralímpicos, o que vemos são atletas de elite, preparados ao mais alto nível, capazes de performances que exigem talento, disciplina e anos de treino.
Ao mesmo tempo, a força das narrativa do evento reside muitas vezes nas histórias pessoais. Acidentes, doenças ou percursos de exclusão social estão quase sempre presentes e esses relatos aproximam o público dos atletas, criam empatia e mostram pessoas que não desistem perante adversidades tantas vezes trágicas e até injustas. E é esta zona cinzenta que nos devia inquietar.
O fenómeno que alguns identificam como porn inspiration devia fazer-nos corar. Estas histórias emocionam o público sem deficiência. São heróis, super-heróis! Se eles conseguem ultrapassar as adversidades, nós, de forma egoísta, celebramos essa conquista, tomamo-la como inspiração, como motivação. Reduzimos o seu desempenho desportivo a quase nada. Quando um atleta olímpico vence, fala-se de tática, preparação física ou talento.
Quando um atleta paralímpico triunfa, a história leva-nos irremediável e inevitavelmente para a biografia e o drama pessoal. O risco é claro: ao tentar celebrar estas conquistas, podemos estar a reforçar a ideia de que a deficiência continua a ser algo extraordinário que precisa de ser superado.
Inquieta-me que não consigamos ainda ultrapassar este (pre)conceito e perceber que podemos, nós jornalistas, contribuir para ampliar e amplificar esta oportunidade de falar apenas de atletas com recordes, ambições e resultados. Sem que a vida de sobreponha ao mérito, apenas, desportivo e ao talento.