A festa do Tondela no relvado de Alvalade (MIGUEL NUNES)
A festa do Tondela no relvado de Alvalade (MIGUEL NUNES)

Quem perde pontos assim não merece mesmo ser feliz (crónica)

Sporting demorou mais de uma hora a perceber como desbloquear a muralha tondelense. Quando percebeu, marcou dois golos. Mas depois, incrivelmente, sofreu dois já na compensação. Em duas jornadas seguidas, o bicampeão perdeu quatro pontos com o último e o penúltimo classificados!

Com apenas três golos marcados nos últimos seis jogos, o ainda bicampeão nacional atravessava uma crise de eficácia. A máquina goleadora, outrora imparável, parecia agora bloqueada. Este cenário, agravado por uma sequência de apenas uma vitória e pela perda do segundo lugar, colocava em cima da mesa a possibilidade de, frente ao aflito Tondela, vermos um Sporting desanimado e cansado.

Assim foi. O leão entrou em campo sem a habitual capacidade de pressão, com Pedro Gonçalves e Quenda incapazes de mostrarem um pingo de talento, com Morita e Bragança a falharem, à vez, demasiados passes e Suárez, lá na frente, a ser apenas uma sombra de si próprio. A juntar a tudo isto, o Tondela — não criando perigo — disputava cada lance como se fosse o mais importante da sua vida e se dele dependesse a permanência na Liga.

Até ao intervalo, por entre múltiplas pequenas quezílias (sobretudo entre Maranhão, Debast e Maxi), o Sporting construiu apenas duas oportunidades de golo: através de Maxi Araújo (21’), permitindo defesa para canto de Bernardo Fontes; e por Suárez, após passe de Catamo, rematando contra o guarda-redes. Muito pouco para quem queria colocar pressão no agora segundo classificado da Liga.

A segunda parte começou igual à primeira. Leão esquálido, com olheiras, penugem seca e a ter de atacar um Tondela com seis homens à frente de Bernardo Fontes e mais quatro numa segunda linha, sempre atrás da linha da bola. Ou Catamo sacava um coelho da cartola, como tantas vezes fez nos últimos jogos, ou o Sporting iria passar por imensas dificuldades.

Rui Borges percebeu-o e, ao contrário do que lhe é habitual, avançou para trocas de jogadores ainda antes da hora de jogo: Quenda por Trincão e Vagiannidis por Salvador Blopa. Pedro Gonçalves derivou para a esquerda, com Trincão a passar para o meio. Blopa era um lateral mais ofensivo. A ideia, no papel, parecia boa.

Logo a seguir, aos 59’, o quase impensável aconteceu. Bola lançada para a corrida de Maxi, cabeça do uruguaio para a pequena área, onde apareceu Catamo, sozinho e só com Fontes pela frente, a desviar por cima da barra. Incrível! Porém, nem dois minutos depois, as trocas de Rui Borges deram resultado: Catamo abre para Blopa, bem na direita; cruzamento para a quina da pequena área, onde apareceu Suárez, com a ponta do pé esquerdo, de supetão, a abrir o marcador.

Desfecho inacreditável

Estava aberto, por fim, o caminho do golo. E o jogo desbloqueou. O Tondela tornou-se um pouco mais ousado na tentativa de sonhar com o empate e o Sporting encontrava mais espaço para criar perigo junto de Fontes. Aos 78’, os leões chegam ao segundo golo e àquilo que parecia ser o ponto final nas eventuais dúvidas que havia em redor do vencedor.

Até que, já com diversas trocas introduzidas por Rui Borges e Gonçalo Feio, o período de compensação trouxe algo de verdadeiramente incrível e quase inacreditável. O Sporting vence por 2-0 e, aos 90+2, o Tondela tem uma grande penalidade a seu favor, por empurrão de Kochorashvili em Hugo Félix. Há a perspetiva do 2-1 quando ainda faltavam dois ou três minutos para o final da compensaão, mas Rui Silva estica-se como nunca e evita o golo de Aiko.

Os sportinguistas pareciam, por fim, poder descansar em cima da vantagem de dois golos e de faltarem apenas dois minutos para o final do jogo. A pressão do Sporting sobre o Benfica iria acentuar-se, pensavam todos os que, no estádio ou pela televisão, assistiam ao jogo.

Não era, porém, exatamente assim. E estava quase tudo na cabeça de Cícero. Na sequência da defesa de Rui Silva para canto, a bola vai na direção da cabeça de Cícero, que a desvia na direção da baliza dos leões. Ainda toca no ombro de Salvador Blopa e entra: autogolo. O segundo do jogo.

Fica a pairar alguma angústia entre os leões e, logo a seguir, novo canto, novo desvio de cabeça de Cícero e novo golo do Tondela: 2-2. Se, antes do jogo, era improvável o Sporting perder pontos com o penúltimo classificado, mais improvável (quase impossível, dir-se-ia) seria perder pontos quando estava a ganhar por 2-0, já bem dentro do período de compensação. Quem perde quatro pontos com o último e o penúltimo classificados, não merece ser campeão. Nem vice-campeão.