Rui Borges pediu uma melhoria à equipa no jogo frente ao Alverca (Foto Miguel Nunes)
Rui Borges pediu uma melhoria à equipa no jogo frente ao Alverca (Foto Miguel Nunes)

Há uma pergunta que fazemos poucas vezes a um treinador ou a quem lidera: como estás?

Perguntamos pelo resultado. Pelo próximo jogo. Pela classificação. Pelo jogador A, B ou C. Pela decisão que correu mal. Pela solução para amanhã. Perguntamos quase sempre pelos outros. Raramente perguntamos por ele.

Matías Lucuix, selecionador argentino de futsal, colocou recentemente esta questão de uma forma que merece reflexão. Falava sobre a profissão de treinador, sobre a pressão, a necessidade permanente de motivar, preparar, decidir e apresentar resultados, quando lançou uma pergunta simples: «quem cuida de nós?»

A pergunta ficou-me. O desporto de alto rendimento evoluiu extraordinariamente na forma como cuida do atleta. Hoje monitorizamos carga, sono, alimentação, recuperação, fadiga, estado emocional e risco de lesão. Existem médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, analistas e especialistas em diferentes áreas do rendimento. Percebemos que, para exigir rendimento, temos de criar condições para que esse rendimento aconteça, mas há alguém sentado no banco a quem continuamos a pedir uma disponibilidade quase ilimitada.

O treinador tem de estar emocionalmente equilibrado quando a equipa não está. Tem de transmitir confiança quando ele próprio tem dúvidas. Tem de proteger jogadores, gerir expectativas, resolver conflitos, comunicar com dirigentes, enfrentar a comunicação social, tomar decisões impopulares e, no fim, ganhar.

Se ganha, cumpriu. Se perde, tem que dar explicações e, muitas vezes, sai.

Existe aqui uma contradição. Pedimos inteligência emocional ao treinador, mas nem sempre lhe damos espaço para ter emoções. Pedimos-lhe segurança quando vive permanentemente na incerteza. Pedimos-lhe que cuide, sem perguntar quem cuida dele. E isto ultrapassa o desporto.

Um CEO entra numa reunião e todos esperam respostas. Um diretor recebe os problemas que os outros não conseguiram resolver. Um presidente de Câmara enfrenta diariamente decisões que afetam milhares de pessoas e tem de responder às expectativas de uma comunidade, mesmo quando não existem soluções simples. Um professor gere as emoções de uma turma. Um médico precisa de transmitir segurança a uma família. Um treinador entra no balneário depois de uma derrota e sabe que vinte pessoas vão procurar no seu rosto uma indicação sobre aquilo que acontecerá a seguir.

A liderança tem uma característica curiosa: quanto maior a responsabilidade, menor parece ser a autorização para demonstrar fragilidade. Mas onde coloca o líder tudo aquilo que absorve?

A história de Lucuix ajuda-nos a compreender melhor esta questão. Antes de ser treinador, foi um dos grandes talentos do futsal argentino. No Mundial de 2012, aos 26 anos, sofreu uma lesão gravíssima. Seguiram-se operações, complicações e quase três anos de tentativas de recuperação. A primeira preocupação era voltar a jogar. Depois passou a ser voltar a andar normalmente. Durante esse processo sentiu algo que ainda hoje influencia a sua forma de liderar: o isolamento.

Um jogador gravemente lesionado não perde apenas a possibilidade de competir. Deixa de treinar com os seus colegas, de viajar, de concentrar, passa menos tempo no balneário e começa, progressivamente, a afastar-se daquilo que constituía a sua identidade. Os jogos acontecem. A equipa continua, mas ele fica.

Lucuix sabe o que esse afastamento provoca porque o viveu e sentiu. Por isso, enquanto treinador, procura manter os jogadores lesionados próximos da equipa, envolvidos e ligados ao grupo.

Há aqui, na minha opinião, uma extraordinária lição de liderança: transformar aquilo que nos faltou naquilo que passamos a oferecer aos outros.

Falamos muito da adversidade como instrumento de resiliência. Cair, levantar, superar, mas há outra consequência da adversidade menos discutida: pode tornar-nos mais atentos.

Quem já esteve de fora percebe melhor quem ficou de fora. Quem já sentiu insegurança reconhece-a mais depressa. Quem já precisou de ajuda pode compreender melhor a importância de ajudar. A vulnerabilidade, quando compreendida, pode transformar-se numa competência de liderança. Claro que não significa romantizar o sofrimento nem acreditar que é necessário sofrer para liderar. Significa sim perceber que a experiência só ganha verdadeiro valor quando conseguimos transformá-la em aprendizagem útil para os outros.

Há ainda outra dimensão desta discussão. O treinador passa grande parte do tempo a cuidar da confiança dos jogadores, enquanto a sua própria confiança é permanentemente colocada à prova pelo resultado. E o resultado importa sempre e prevalece sobre praticamente tudo.

Um treinador de alto rendimento não pode esconder-se atrás do processo quando não ganha, mas existe uma diferença entre responsabilizar alguém pelo resultado e reduzir todo o seu trabalho ao resultado. Uma bola no poste pode alterar uma classificação. Uma lesão pode mudar uma época. Uma decisão num segundo pode alterar meses de trabalho. O líder é responsável por muitas coisas que não controla totalmente. Viver diariamente dentro dessa diferença tem um custo elevado…

As organizações que procuram alto rendimento deveriam, por isso, acrescentar uma pergunta às suas métricas de performance: quem sustenta as pessoas que sustentam a organização?

Não se trata de proteger os líderes da exigência. Trata-se antes de criar condições para que consigam suportá-la. Um treinador que procura apoio psicológico não é menos forte. Um diretor que admite uma dúvida não perde necessariamente autoridade. Um líder que pede ajuda não deixa de liderar.

Durante demasiado tempo confundimos liderança com invulnerabilidade. Queremos líderes fortes, competentes, exigentes, ambiciosos e capazes de decidir sob pressão. Devemos continuar a querê-los assim, mas se esperamos que cuidem de equipas durante muito tempo, precisamos também de construir equipas e organizações capazes de cuidar deles.

Lucuix conhece os dois lados. Conheceu a vulnerabilidade do jogador que deixou subitamente de conseguir fazer aquilo que definia grande parte da sua vida. Hoje conhece a responsabilidade de liderar uma das maiores potências do futsal mundial. Entre essas duas experiências existe uma ideia que serve para o futsal, para o futebol e para qualquer organização: ninguém deixa de precisar de cuidado porque passou a ser responsável por cuidar dos outros.

Antes de perguntarmos ao treinador ou ao líder qual é a solução para o próximo problema, podemos começar por uma pergunta bem mais simples: Como estás?

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

A iniciar sessão com Google...