Abel Ferreira passou a ser um dos mais vitoriosos treinadores da história do Palmeiras, com 237 jogos ganhos, igualando Luiz Felipe Scolari — Foto: IMAGO
Abel Ferreira passou a ser um dos mais vitoriosos treinadores da história do Palmeiras, com 237 jogos ganhos, igualando Luiz Felipe Scolari — Foto: IMAGO

Abel com toda a razão!

Treinador tem toda a legitimidade para desabafar do modo como o fez esta semana. Dizendo que «o futebol está doente», o português soltou a alma e juntou-a à razão. 'Livre e Direto' é o espaço de opinião em A BOLA do jornalista Rui Almeida

Em oitenta segundos, Abel Ferreira fez parar o mundo do futebol. Parar para pensar, parar para refletir, parar para compreender as diferenças, os estímulos, as obrigações do alto rendimento, as desmesuradas pressões da competição, ela própria diretamente influenciada pelos ritmos alucinantes da sociedade moderna, e pelas desesperantes cobranças do lucro, da vitória, da supremacia.

Contextualizemos: o treinador português havia ganho por 1-0 o encontro da segunda mão da Taça dos Libertadores, no Paraguai, e com essa vitória conquistado o apuramento para os quartos de final da maior competição sul-americana para clubes, depois de um empate a um golo em São Paulo, no primeiro jogo.

Passou, com este triunfo, a ser um dos mais vitoriosos técnicos da história do Verdão, com 237 jogos ganhos, igualando Luiz Felipe Scolari. Aliás, se há palavra que pode definir os cinco anos e meio de Abel Ferreira no comando da equipa do norte da capital paulista é sucesso, e não apenas em número de jogos, mas em toda a formulação mais ampla do termo, tornando-se uma referência na história do emblema e do futebol brasileiro.

Ora isto quer mesmo dizer que Abel tem toda a legitimidade para desabafar do modo como o fez esta semana. Dizendo que «o futebol está doente», o português soltou a alma e juntou-a à razão, falando de treinadores, jogadores, presidentes e jornalistas, da pressão tremenda criada, sobretudo utilizando a comunicação social tradicional, mas também os novos media, para a necessidade emergente de ganhar, no sentido mais estrito do termo: vencer jogos, ultrapassar adversários e conseguir primeiros lugares.

As palavras de Abel, o português mais bem inserido na intrincada e complexa teia do futebol brasileiro, ecoaram como ele próprio pensara, e com as consequências daí advenientes.

Ganhar não pode ser apenas marcar mais golos e somar mais pontos. O processo de preparação de uma equipa profissional estimula a competição como primeiro patamar. Desde logo, a competição interna, entre os elementos de um mesmo grupo de trabalho, pela capacidade de convencer a equipa técnica de que constituem a melhor solução para determinado jogo. Depois, a competição inter pares, sabendo-se como se sabe que ela é encarada de modo muito distinto, assim sejam identificadas diversas zonas do globo.

Falar de rivalidade, em Portugal, é deitar abaixo os principais competidores do nosso emblema. Uma espécie de quanto pior, melhor, não percebendo, a maioria dos adeptos mais fanáticos, que só com adversários de qualidade é que as vitórias ficam valorizadas.

Depois, fora do campo, a perceção estrutural de que a indústria necessita de todos, em cooperação e com idênticos objetivos, parece também não colher, uma vez que os principais dirigentes são os primeiros a virar costas a soluções de fundo, a conversas profícuas e que, em primeira instância, deveriam visar a melhoria do produto final apresentado (que, de resto, é particularmente valioso).

Quer dizer: em Portugal vale a máxima latina do salve-se quem puder, pressionando treinadores e jogadores, culpando jornalistas e visando opositores.

Mas não se pense que a comunicação social fica incólume nesta equação. Bem pelo contrário. A proliferação de programas de debate, nos diversos canais televisivos e até em prestigiadas frequências radiofónicas, sob o pretexto da consolidação de audiências, é o pior caminho, o mais fácil, aliás, para acicatar rivalidades e desinformação.

E a contribuição dada pelos media surge, portanto, como também decisiva para um panorama muito pouco agradável ou, parafraseando Abel Ferreira, «doentio».

O treinador luso procurou, muito claramente, distinguir entre o que compete, lutando, trabalhando, melhorando, ativando novas propostas e alternativas, e o que ganha, suscitando a ideia de que ganhar não é um verbo redutor, antes abraça todos aqueles que competem e tentam fazer o seu melhor.

No Brasil, sobretudo, são diversos os episódios de uma imensa pressão sobre clubes e comissões técnicas para a obtenção da vitória. O próprio Palmeiras vinha de um ciclo de quatro jogos sem vencer (quebrado, justamente, no Paraguai), e o som dos contestatários havia subido inopidamente de intensidade.

Influencers de frigideira, opinion makers de quintal, todos tentavam empurrar fora de borda Abel e os seus companheiros, na certeza de que este jogo paralelo não era jogado pela primeira vez, e não é exclusivo do maior país da América do Sul.

A reação, forte e marcante, de Abel Ferreira na coletiva que se seguiu ao encontro com o Cerro Porteño bem pode ser plasmada para o futebol português, onde todos parecem formatados e treinados para a voragem do triunfo, da maledicência, da crítica fácil, da sugestão imediata. Mimetizando para as redes sociais, com o auxílio importantíssimo da cobardia do anonimato e dos perfis falsos, todos se parecem sentir à vontade com estes princípios de funcionamento e de comportamento.

Falta-nos reduzir o ritmo, equidistanciar, equilibrar e pensar. Pensar na nossa vida, pensar no modo como nos relacionamos com os que nos rodeiam (e mesmo com os que não conhecemos se não dos ecrãs de televisão ou das viagens pela internet). Falta paciência para compreender os processos, que variam muito de profissional para profissional, de estrutura para estrutura. Falta tolerância, para entendermos que o futebol é apenas a coisa mais importante de todas as coisas menos importantes da nossa vida, embora salvaguardando que é a vida de muitas famílias pelo mundo.

Falta cumprir a capacidade de perceber que quem trabalha e persegue objetivos, mesmo que os não consiga, é tão digno como os mais dourados pelos resultados e pelos troféus.

Falta curar o futebol, começando por nos curarmos a nós próprios.

Cartão branco

Estamos entre presenças importantes de representações portuguesas em provas internacionais.

Depois dos Campeonatos Europeus de atletismo e dos seus homólogos de natação, são os Jogos do Mediterrâneo, na italiana cidade de Taranto, que chamam a atenção.

Antes dos resultados, a participação. Em qualquer das três provas, chegar para competir é o primeiro grande objetivo, porque qualquer atleta sabe o quão difícil é fechar um ano de trabalho, conciliando tantas vezes o percurso no Ensino Superior com a presença no alto rendimento desportivo, prescindindo de tantos momentos entre família e amigos, para conseguir representar o seu país entre os eleitos.

A dois anos dos próximos Jogos Olímpicos (Los Angeles-2028), Portugal tem, nos seus atletas e na sua determinação, o melhor exemplo para o país. Que o saiba aproveitar.

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