À procura de Ronaldinho
Ronaldinho tem 46 anos e um problema com o número 299. Podia deixá-lo assim. Não vai. Vai vestir a camisola do Ravenna e voltar a um campo de futebol. Falta um golo. O golo 300. Há contas que um homem faz com números. Outras faz com o tempo.
Uma pequena dívida com a estatística.
Haverá marketing. Claro. Haverá câmaras, fotografias, vídeos, camisolas, nostalgia vendida em pequenas doses. Ronaldinho continua a ser uma marca extraordinária. Um sorriso seu ainda atravessa gerações. Uma bola nos pés ainda desperta qualquer coisa em milhões de pessoas.
Mas esta história fala de outra coisa.
De algo muito mais humano.
Ronaldinho vai procurar um jogador que já não existe. Ele próprio. É essa a condenação dos futebolistas. Nenhum jogador deixa o futebol. É o futebol que deixa o jogador.
Primeiro, quase sem avisar. Um metro que desaparece numa corrida. Uma recuperação que fica congelada. Um adversário que antes chegava depois e agora chega primeiro. Uma bola que a cabeça manda para um lado e o corpo entrega noutro. Pequenas traições.
Até que chega o dia em que o jogador percebe.
O futebol continua dentro dele. O jogador é que já não consegue estar dentro do futebol.
Por isso, é tão difícil o adeus.
Quem trabalhou uma vida inteira num escritório pode passar pela porta do antigo emprego e sentir alguma nostalgia. Quem jogou futebol passa por um relvado e encontra uma parte de si. Porque um futebolista não deixa apenas uma profissão. Deixa um corpo.
Deixa o rapaz que conseguia correr sem pensar nas pernas. Deixa o jovem que acordava no dia seguinte e não sentia dor. Deixa aquele instante maravilhoso em que tudo aquilo que imaginava podia ser executado.
Com Ronaldinho tudo isso deve ser ainda mais cruel. Poucos jogadores tiveram uma relação tão íntima entre imaginação e corpo. Pensava e acontecia. Via um espaço e a bola aparecia.
Imaginava uma finta e os pés obedeciam.
Decidia humilhar a geometria e a geometria agradecia.
Ronaldinho fez desaparecer a distância entre aquilo que um homem sonha e aquilo que um homem consegue fazer. Depois chegou o tempo.
O único defesa que nunca perdeu um duelo.
Agora, aos 46 anos, o Bruxo vai voltar a calçar as chuteiras. Vai entrar num campo. Vai receber a bola. E durante alguns segundos acontecerá algo estranho. A cabeça saberá exatamente o que fazer. A visão permanece. A memória também. O jogador continua a reconhecer os espaços. Continua a antecipar movimentos. Continua a saber onde deve colocar o pé.
Só que o pé chega mais tarde.
E é aí que mora a tristeza. Mesmo no jogador mais sorridente do mundo.
Ronaldinho procura o golo 300. Mas procura também uma tarde em Barcelona. Uma noite em Paris. Um treino em Porto Alegre. Um corredor no Camp Nou. Um defesa do Real Madrid diante dele. Procura o rapaz de tranças ao vento. Não vai encontrá-lo. Nenhum de nós encontra. Essa é a verdadeira história deste jogo. Não o regresso. A procura.
Passamos grande parte da vida a tentar regressar a lugares que continuam a existir apenas dentro de nós. A rua da infância ainda lá está. Mas já não é a nossa rua. A escola continua no mesmo sítio. Mas já não é a nossa escola. O estádio permanece. A baliza mede o mesmo. A bola continua redonda. Mas o jogador desapareceu.
É por isso que os antigos futebolistas aceitam jogos de homenagem, partidas de veteranos, desafios improváveis. Muitos não precisam do dinheiro. Muitas vezes nem precisam do aplauso. Precisam de tocar outra vez naquele mundo. Por alguns minutos. Só alguns. Querem enganar o relógio. E às vezes conseguem.
A bola chega. O primeiro toque sai perfeito. O adversário aproxima-se. O corpo esquece a idade durante dois segundos. Surge um passe que ninguém viu. Então aparece o sorriso. Não porque fizeram uma grande jogada. Porque reconheceram alguém. Durante dois segundos voltaram a encontrar-se. Depois o jogo continua.
E o tempo também.
Ronaldinho marcou 299 golos. Quer mais um. Mas o verdadeiro golo que procura não pode ser marcado. Não está no campo. Está algures entre aquilo que foi e aquilo que ainda sente ser.
Essa é a tragédia silenciosa de todos os grandes jogadores.
O mundo vê homens envelhecerem.
Eles continuam a ver o rapaz. O rapaz corre. Dribla. Acelera. Faz coisas impossíveis. Nunca se cansa. Nunca sente dores. Nunca pensa que haverá um último jogo.
Ronaldinho vai procurá-lo outra vez. Pode encontrá-lo num toque. Num passe. Num sorriso.
Até num golo. Depois acabará o jogo. As luzes vão apagar-se. E Ronaldinho perceberá aquilo que, no fundo, já sabia. Nunca deixou o futebol.
Foi o futebol que, há muito tempo, começou a deixá-lo.