Que Vitória queremos? - Parte II
1 — Intitulei o meu último escrito «Que Vitória queremos?», desenvolvendo depois acerca dos mínimos de empenhamento e profissionalismo que, num clube com os nossos pergaminhos, temos de exigir. Porque representar o Vitória tem de significar ao nível da exigência, na proporção, o mesmo que representar o Benfica, FC Porto e Sporting, isto é, há mínimos de exigência em que não podemos transigir.
No entanto em algumas das reações que recebi ao que então escrevi, percebi que se gerou a expectativa de que pudesse essa reflexão ir mais longe, designadamente quanto à forma de detenção do capital da SAD, se mantendo-a controlada pelos sócios, como sucede atualmente, ou não. É uma boa questão. Na Liga, creio que apenas Benfica, FC Porto, Sporting, Vitória S.C., Gil Vicente e Casa Pia têm a maioria do capital da sua SAD controlado pelo clube; em todos os demais o clube tem participações minoritárias.
Sabemos que há exemplos em que a venda da maioria do capital da SAD se tem convertido numa oportunidade de crescimento desportivo (o SC Braga talvez seja o maior exemplo disso mesmo, mas também Famalicão, Estoril e Santa Clara, por exemplo), mas há também outros casos em que esta opção correu muitíssimo mal, atirando as equipas de futebol para divisões inferiores ou mesmo para a extinção — vd. Desp.Aves, Belenenses ou Boavista.
2 — A questão não é, portanto, meramente empírica embora estes exemplos demonstrem como um passo destes, para ser ponderado, tem de o ser com imensa cautela e sobretudo com possibilidade de recuo. Eu sou há muitos anos favorável a que o Vitória se adeque ao que os novos tempos ditam, sob pena de poder ver perder a sua posição relativa. Tenho imenso receio destes maus exemplos, mas tenho a maior convicção de que o Vitória é o clube português com maior potencial para investidores sérios e sólidos.
Sabendo não estarem os três ditos grandes para isso disponíveis (eles que têm fontes de receita absolutamente incomparáveis connosco), dos demais, no campeonato português, o Vitória é claramente o clube mais interessante, com maior potencial, com uma massa humana que acompanha quem queira investir num projeto de crescimento desportivo e não apenas num entreposto de compra e venda de jogadores de futebol. O Vitória tem tudo para ser um grande clube, mas não tem a capacidade financeira que lhe permita manter essas suas expectativas.
E perdeu hoje a ligação à comunidade empresarial que teve no passado e na qual se alcandorava para manter o nível que soubemos manter durante décadas. O que nos obriga a olhar para o futuro ao ponto de sobre ele decidir, ao invés de nos limitarmos apenas a contemplar e lamentar (a que já me referi em textos anteriores).
3 — Não desconheço que seja tema sensível e divisor. A minha opinião não é diferente da de qualquer associado do clube, mas ela é claramente no sentido de que o Vitória deveria abrir este dossiê, permitir que o tema fosse discutido, serenamente, antes de ter propriamente uma proposta em cima da mesa, apenas debatendo o modelo de gestão futura da equipa de futebol. E quanto ao equilíbrio dessa opção, considero inclusive que se possa testar um modelo com condições de recompra, isto é, com termos negociados à partida para, ao cabo de x anos (ex: 5 anos) o clube poder recomprar a maioria do capital, com preço pré-determinado, caso seja essa a vontade dos sócios.
Se virmos bem, na prática foi isto que sucedeu aquando da recompra a Mário Ferreira, que já teve a maioria do capital e depois aceitou vendê-la novamente ao clube. Recordo aliás que embora não pressupusesse então a alienação de maioria, os sócios do Vitória demonstraram imensa maturidade e sentido prático na participação e posição inequívoca que tomaram quando se tratou de autorizar a entrada no capital da VSPORTS. Projetos sólidos, parceiros confiáveis, contextos explicados, os vitorianos, com toda a sua paixão e sentido de pertença ao seu clube, não deixarão de avaliar o que consideram ser melhor para o seu futuro.
4 — Uma palavra à Liga de Clubes e ao Conselho de Arbitragem da FPF. Aquilo que sucedeu esta semana, no Alverca-Sporting, com o árbitro João Pinheiro a exibir um amarelo por simulação ao atleta Luis Suárez é dos momentos mais ridículos a que já pude assistir. Após um momento raro de seriedade no futebol português, em que o atleta do Sporting teve a honradez de reconhecer que não era penálti a favor do seu clube, apesar de o árbitro o ter assinalado, ao invés de ser assinalado e usado como exemplo de ética no desporto, o árbitro, sentindo-se apoucado no seu julgamento, pune com amarelo o atleta que acabara de ter uma atitude exemplar. Isto dá vergonha alheia.
E a exemplaridade da atitude do atleta, juntamente com a inacreditável decisão do árbitro, têm de levar estas entidades a sair do conforto da sua opacidade e a tomar posição pública sobre isto. Não o fazer equivale a transmitir aos demais que é errado ter a postura correta e eticamente exigível. Um momento caricato e incompreensível.