Fechem os CTT nas Lajes. Guga entrega tudo
O Marinhense-Lajense do último fim-de-semana, a valer para a penúltima jornada da Série C do Campeonato de Portugal, foi daqueles que só visto… Esperamos, todavia, que, mesmo que aqui - forçosamente - seja apenas contado, acreditem nas peripécias que lhe passamos a descrever.
Foi, verdadeiramente, de loucos. Tanto o emblema da Marinha Grande como o das Lajes entraram para a ronda 24 nos lugares de despromoção: o continental em 11.º com 24 pontos, e o insular em 10.º com 26. O encontro começou e a turma da casa já estava (praticamente) a ganhar. Aos 5', o marcador assinalava 2-0. O terceiro tento (ainda) sem resposta chegou a seguir, para complicar a vida do conjunto do arquipélago dos Açores que começava a cair na descrença da manutenção. Isto porque, em caso de derrota, descia.
«Foi muito complicado... Sofrer dois golos em menos de um minuto (4' e 5') e depois veio o terceiro (26')... Olhar à volta, estar a jogar fora de casa, contra um adversário direto, e saber que no fim dos 90 minutos, se acabasse daquela forma, já não tínhamos hipótese…», recorda Guga, extremo da formação da Ilha Terceira, em conversa com A BOLA.
Mas a malta da ilha lá arrebitou e muito por culpa do craque com quem falamos (já explicaremos porquê). O Lajense reduziu antes do intervalo (37') e marcou logo a abrir o segundo tempo (47'). E, como não há dois sem três, os comandados de Pedro Lima lá foram à procura do tento outra vez.
«Quando fizemos o 3-3 [61'] foi um alívio. Dissemos: 'Epá, vai dar!'», conta Guga. E deu. Mas a euforia de uma recuperação épica pouco durou. «Logo a seguir sofremos o 4-3 [66'] e dissemos: 'Fogo, como é possível?! Acabámos de empatar um jogo desta maneira e para depois sofrermos assim?!'. Foi frustrante», confessa o craque.
Com o resultado em 3-4 a quase dez minutos do final, a turma das Lajes já se via a despedir-se do Campeonato de Portugal - naquela que é a primeira época do clube na competição. Até que dois golos, aos 79' e 86', mudaram tudo outra vez e permitiram aos açorianos sair dos lugares de descida, a uma jornada do final.
Que foi épico é inegável, mas verdade seja dita: com alguém a dar passes para golo como quem dá hóstias na missa de domingo às 11h (nos Açores) na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Vila das Lajes, qualquer um se safa.
Cinco assistências num só jogo!
A vitória homérica que aconteceu no Municipal da Marinha Grande teve um nome em destaque: Guga, precisamente. Não é por acaso que é o extremo a entregar-nos este relato escrito da partida. É que naquela reviravolta não houve outro entregador.
O número 10 do Lajense fez tantos passes para golo que, no final do desafio, nem sabia ao certo quantos tinham sido. «Foi tão estranho... Só quando acabou o jogo é que caí em mim e percebi que tinha feito as cinco assistências e, ao início, até pensava que só tinham sido quatro. O pessoal é que me chamou a atenção: 'Não, tu fizeste as cinco'. Inexplicável. É algo que nunca pensei que pudesse fazer», admite.
«A primeira assistência foi num canto. A segunda num livre lateral pela direita. A terceira em bola corrida, com um passe a rasgar entre a defesa. A quarta foi numa bola metida para mim nas costas da defesa, em que ganhei o espaço. Depois tinha o defesa a fechar-me a baliza e o guarda-redes a sair a mim e toquei para o lado, para o meu colega encostar. A quinta, se calhar, é a melhor. Dou uma virada, com um passe longo atrás do meio campo, e a bola fica perfeita no lado oposto da defesa. O meu colega fica na cara do guarda-redes e marcou», evoca o craque, de 25 anos (desta vez, sem se esquecer de nenhuma).
«Prefiro assistir do que marcar. Não sei porquê, é uma coisa que está em mim desde pequeno, mas que vem com naturalidade», realça.
Chamado de «Messi» por alguém que partilhou balneário com... Messi
Número 10, esquerdino, baixinho e joga a descair para a direita… Faz lembrar alguém. Naturalmente, o seu ídolo. «A minha referência no futebol é o Messi. É o único. Não há ninguém como ele», considera, antes de dizer que há amigos que, em tom de brincadeira, o tratam pelo nome do astro argentino. «Tenho dois colegas, o Bruno Mendonça e o Agostinho Cá, que jogaram comigo no Fontinhas, que me chamam sempre Messi», revela.
Se há alguém com propriedade para fazer comparação é mesmo Agostinho Cá, que foi formado e jogou na equipa B do Barcelona, tendo convivido de perto com os dois. O lajense foi feliz com o ex-blaugrana no Fontinhas, tendo subido o clube à Liga 3 e sido vice-campeão do Campeonato de Portugal, em 2022.
Guga não seguiu, no entanto, com o emblema supramencionado para o terceiro escalão e voltou a casa. «Quando regressei o Lajense fui fazer aquilo que eu e o Simão Fonseca, o diretor desportivo, tínhamos prometido um ao outro, que era levar pela primeira vez a equipa aos nacionais. E conseguimos», enfatiza.
Simão Fonseca, a quem o craque se refere, é o famoso dirigente que muito tem de agradecer ao FM pelo cargo que, atualmente, ocupa (e com distinção, refira-se).
O menino da terra e, além de ter feito parte do plantel que subiu o Juventude (como o trata, com carinho) aos nacionais, também fez história nas camadas jovens: «Fui campeão nos juvenis, campeão regional e depois açoriano. O Lajense nunca tinha sido campeão na formação. Fomos os primeiros. Foi nessa altura que dei o salto para o Estoril [jogou nos sub-19 dos canarinhos, entre 2017 e 2019].»
Agora a história está a ser escrita nos graúdos e o próximo fim-de-semana é de grandes decisões. O triunfo na última jornada contra o Marialvas garante a permanência do clube da AF Angra do Heroísmo no Campeonato de Portugal. O empate pode não ser suficiente. «Se conseguirmos a manutenção, vai ser muito importante para o clube e tenho a certeza de que no próximo ano irá abordar o CP de outra forma», perspetiva Guga.