Despedida de Vicente Lucas do Estádio do Restelo (Foto: Miguel Nunes)
Despedida de Vicente Lucas do Estádio do Restelo (Foto: Miguel Nunes)

«Quanto maior era, mais pequeno se fazia»: a despedida do «imortal» Vicente

Patrick Morais de Carvalho e treinador Paulo Sérgio estiveram nas cerimónias de despedida da figura maior do Belenenses e do futebol nacional

A polícia fecha a Rua dos Jerónimos. Pouco antes do meio-dia, o cortejo fúnebre de Vicente Lucas deixa a capela rumo ao Estádio do Restelo e é liderado por uma tarja da Fúria Azul. «Eterno Vicente», está escrito, em memória do Magriço que dizia: «O Belenenses é tudo para mim». Palavras que Patrick Morais de Carvalho recordou já no relvado do estádio.

«O Vicente dizia que o Belenenses era tudo», afirma o presidente do Belenenses, destacando um homem que fazia da humildade um eufemismo: «O Vicente, quanto maior era, mais pequeno se fazia e isso é apanágio das lendas e dos imortais. Encarnava uma série de valores que são do Belenenses, do desporto e de Portugal.»

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«Sou pequeno demais para falar do Vicente»

Wilson Eduardo, Diogo Leitão, Nuno Tomás e Cuca, jogadores do plantel principal dos azuis, ajudaram a carregar o caixão de Vicente para o relvado. Coberto por uma bandeira azul e branca, o último adeus de Vicente ao seu estádio foi feito rodeado por jogadores da equipa sénior e alguns da formação. O som de fundo, o hino do clube tocado em gaita de foles. Novo momento que ajudou a recordar que Vicente, acima do que atingiu enquanto jogador e de ter secado Pelé no Mundial de 1966, a pessoa que era eclipsava o que fez em campo.

«As minhas memórias não são de um treinador, são de um amigo que tinha sempre uma palavra certa na hora certa e que a todos apoiou por igual, do que mais se destacava aos que tinham mais dificuldades. Tratou todos como um semelhante, sendo ele o gigante que era, nunca vestiu essa pele», recordou Paulo Sérgio, que conviveu com a lenda nascida em Moçambique no início de carreira de jogador.

Emotivo, recordou que «não se esquecem os conselhos e o apoio de um amigo». «Sou pequeno demais para falar do Vicente», explicita.

João Nuno, treinador do Estrela da Amadora e que treinou o Belenenses entre janeiro e setembro de 2025, também esteve presente nas cerimónias, que concluíram com uma paragem do carro funerário junto aos bustos de Vicente e Matateu. «Ambos estiveram no melhor onze dos primeiros 50 anos da Seleção, para a FPF», recorda Patrick, que lançou também o repto para a luta que o Belenenses tem dentro de campo, ao tentar subir à Liga 2: «O Vicente vai ser o 12.º jogador em todos os jogos até ao final da temporada.»

Vicente viveu os últimos dez anos de vida numa cadeira de rodas, depois de ter de amputar parcialmente ambas as pernas devido a gangrena. Uma batalha que travou até ao fim, tal como a cegueira num olho, provocada num acidente de viação aos 31 anos e que acabou prematuramente com a carreira de jogador.

«Soube superar várias dificuldades, sobretudo de saúde, e teve uma postura de grande dignidade até ao fim. Quando recebi a notícia, apesar de não ser totalmente inesperada, foi um momento de dor», diz Patrick, que termina com uma certeza: «Estes jogadores saberão dignificar o nome do Vicente e a sua vontade em ver o Belenenses na Primeira Liga o mais rápido possível.»

O último jogo a que Vicente assistiu no Estádio do Restelo foi 21 de fevereiro, na vitória (2-1) com a Académica, equipa que o Belenenses visita este sábado num duelo decisivo na luta pela subida de divisão.