Quando nasce uma estrela

É este um momento decisivo na carreira de um jovem jogador. Encarar todos os elogios sem deslumbramentos e sem abdicar do carater

AGORA que Portugal e a Europa deram conta da existência de um jovem defesa central, um adolescente de dezoito anos, que joga frente a Messi a Neymar ou Mbappé com a mesma autoridade e convicção com que defronta o mais incógnito adversário, chovem os elogios a António Silva cujo muito provável sucesso futuro parece ter sido antecipado por uma inesperada lesão de Morato. Nessa altura, já com dois centrais lesionados, Roger Schmidt experimentou António Silva. Provavelmente sem grande entusiasmo, mas o treinador alemão não pode ter deixado de ficar surpreendido pela maturidade e competência daquele jovem defesa central, alto, esguio, versátil e que, acima de tudo, procura jogar limpo, mantendo um sentido posicional de jogador experimentado, assumindo atitudes e temperamento que indicam características de liderança, lendo o jogo defensivo, mas também ofensivo, com olhos de craque.

Tudo indica, pois, que nasceu uma estrela e que a poucos dias de fazer dezanove anos entrará certamente nas contas para uma provável escolha de Fernando Santos para o Mundial do Catar.
E este, importa dizê-lo, é um ponto crítico na carreira promissora de António Silva. Saber lidar com a fama e com o elogio transversal de colegas de profissão, treinadores, jornalistas, analistas e, sobretudo, do público do futebol. É este um momento decisivo na formação do caráter de um futebolista que, ainda muito novo, já é especial, mas que precisa de estabilização na regularidade exibicional e na humildade de perceber que ainda está em tempo de aprender. Nesta fase da sua promissora carreira, António Silva tem de ter a inteligência e o bom senso de evitar o deslumbramento sem abdicar da sua personalidade, da sua autoconfiança, da sua vontade de superação que torna maiores, mesmo aqueles que já são grandes.
 

António Silva com Mbappé

PORTUGAL e Espanha juntaram a Ucrânia à sua candidatura ibérica à realização do Mundial de 2030. O presidente da UEFA apadrinhou a ideia, Volodymyr Zelensky agradeceu o ato de solidariedade, o mundo ocidental aplaudiu.
É difícil contrariar a onda de aprovação. A Ucrânia é, de facto, um país mártir, atacado pela poderosa Rússia na sua legítima independência e que, apesar de tudo, resiste com o heroísmo e o sangue do seu povo. E, no entanto, não consigo deixar de manifestar a minha preocupação, porque acho que se está a abrir, mesmo que por boas razões, uma caixa de Pandora.

No início, prevalecia a ideia de que o Desporto e a política deveriam viver separados. Ou seja, podiam morar na mesma casa, mas era indecoroso dormirem juntos. Depois surgiram as discriminações negativas. O caso do apartheid na África do Sul, por exemplo, levou à exclusão da participação dos atletas do país nos Jogos Olímpicos e, agora, todas as seleções russas foram excluídas das maiores competições desportivas, incluindo o Mundial de futebol no Catar. Trata-se, agora, de uma escolha cirurgicamente política para integrar uma candidatura ibérica que histórica e culturalmente, por si só, fazia todo o sentido. Juntar a Ucrânia a esta candidatura só pode ter um significado político, mesmo que bem intencionado, mas abre as portas para que, no futuro, os poderes políticos se sobreponham de forma irreversível às instituições desportivas. Poderão dizer - e com alguma razão - que isso já acontece, até no que respeita à influências de poderes económicos que colocam em causa a seriedade de muitas escolhas. É verdade, mas o combate a essa realidade não passa pela defesa da promiscuidade e influência decisiva dos interesses políticos... e dos políticos.

DENTRO DA ÁREA
Os portugueses pouco se mexem

Os resultados obtidos pelo Eurobarómetro sobre a frequência do exercício físico ou prática desportiva são preocupantes, embora não surpreendentes da realidade portuguesa. Setenta e cinco por cento dos homens e oitenta por cento das mulheres admitem que nunca ou raramente fazem exercício físico, contra cinquenta e sete e sessenta e cinco por cento da média europeia. Um dos dados setoriais mais interessantes é aquele em que se assinala como maior diferença a escassa atividade dos portugueses em clubes desportivos.
 

FORA DA ÁREA
Brasil nunca nos será indiferente

O Brasil nunca nos será indiferente. O Brasil somos nós com açúcar e canela. Um país lindo que os homens, em muitos lugares, ajudaram a estragar. O Brasil é samba e Portugal é fado. Completamo-nos na alegria e na nostalgia. Falamos a mesma língua e partilhamos a História. Esta será uma semana de especial importância para o futuro dos brasileiros: Lula ou Bolsonaro? As sondagens que erraram na primeira volta, aontam para o regresso de Lula. Mas pergunto como é possível país tão grande ter candidatos tão pequenos?