Guilherme Muller (SL Benfica)

«Por mim, os nove campeões mundiais estariam na equipa principal em três anos», diz diretor-geral do Benfica Campus

Guilherme Müller lembra, em entrevista ao As, que 80% dos jogadores que assinam o primeiro contrato profissional com o clube conseguem tornar-se futebolistas profissionais

A formação do Benfica consolidou-se nas últimas duas décadas como uma das mais reputadas do futebol mundial, responsável pelo aparecimento de jogadores como Rúben Dias, Bernardo Silva, João Félix, João Neves ou António Silva. Em entrevista ao jornal espanhol AS, Guilherme Müller, diretor-geral do Benfica Campus, explicou os fundamentos de um modelo que classifica como identitário e estratégico para o clube da Luz.

Há cerca de um ano no cargo, Müller lidera uma estrutura que foi a principal fornecedora da Seleção Nacional campeã europeia e mundial de sub-17. Um reconhecimento que, sublinha, resulta de um trabalho continuado. «Não se fez num só dia. A formação do Benfica tem uma longa história», afirmou, destacando o papel decisivo da criação do Benfica Campus, que completa 19 anos e atingirá as duas décadas no final da época.

Os pilares 'hardware' e 'software'

«Estamos a falar de muito tempo, de muitos profissionais e da consolidação de uma metodologia que foi sendo afinada», explicou, considerando «enorme» a evolução registada nos últimos 20 anos. A base do modelo assenta em dois pilares: o hardware, que inclui infraestruturas e tecnologia, e o software, composto pelas pessoas e pela cultura do clube. «É evidente que os edifícios e os campos não formam jogadores sozinhos; as pessoas e a cultura do clube são o mais importante», afirmou, sem desvalorizar o impacto estrutural do Campus, que permitiu aumentar equipas, recursos e qualidade de trabalho.

Média dos campeões mundiais é de 10 anos no Benfica

Um dos segredos do sucesso é a retenção de talento. No último Mundial de Sub-17, vencido por Portugal, o Benfica contou com nove jogadores, todos com percursos longos no clube. «A média de anos que esses rapazes levam no Benfica é de dez», revelou Müller, destacando Anísio Cabral como exemplo paradigmático dessa ligação precoce e continuada. A relação com as famílias surge como elemento-chave, com programas específicos de apoio e gestão de expectativas. «Sou um grande defensor dos pais, porque sem pais não há futebolistas», sublinhou.

A filosofia de jogo é transversal a todos os escalões, próxima de modelos como Barcelona ou Ajax, baseada na posse, iniciativa e mentalidade ofensiva, sob o lema «formar para ganhar». Ainda assim, existem adaptações, sobretudo na equipa B, que compete na Segunda Liga com jogadores de 18 anos frente a adversários muito mais experientes. Essa exposição ao chamado «futebol de homens» é vista como essencial para acelerar o processo de maturação competitiva.

Objetivo é preparar dois jogadores por época para a equipa principal

Atualmente, o Benfica conta com cerca de 600 atletas distribuídos pelos centros de formação, pólo de Lisboa e Benfica Campus, sendo que cerca de 75% das captações ocorrem entre os 6 e os 12 anos. Um dado estatístico ilustra a eficácia do modelo: «80% dos jogadores que assinam o primeiro contrato profissional com o Benfica conseguem tornar-se futebolistas profissionais», um valor muito acima da média europeia. O objetivo mínimo passa por preparar dois jogadores por época para a equipa principal, ainda que a decisão final caiba sempre ao treinador.

Portugal continua a ser a principal «mina de ouro» do clube, sustentada por uma rede de scouting descrita como uma «malha muito apertada» em todo o território nacional, responsável por identificar talentos como João Félix, recrutado ainda jovem ao FC Porto. Contudo, a estratégia não se esgota no mercado interno. O Benfica desenvolve uma abordagem internacional, com academias próprias em África, nomeadamente na Costa do Marfim, e planos para criar uma «constelação de academias» em pontos estratégicos, como os Estados Unidos. O jogador africano é valorizado pela intensidade e capacidade atlética, enquanto na América do Sul o cenário mudou significativamente.

Relação privilegiada com o Brasil mudou

A antiga relação privilegiada com o Brasil tornou-se mais competitiva e financeiramente exigente, ao ponto de esta ser a primeira época, em muitos anos, sem jogadores brasileiros na equipa principal. Ainda assim, o Benfica mantém presença sul-americana com atletas argentinos e colombianos.

A recente conquista do Mundial Sub-17 funcionou como uma montra internacional para jovens como Anísio Cabral, Neto ou Quintas, despertando interesse externo. «São jogadores que geram curiosidade de outros clubes», reconhece Müller, garantindo, porém, que todos têm um plano de evolução definido. A ambição é clara: «Se dependesse só de mim, em dois ou três anos esses nove estariam na equipa principal.»

Com o Mundial 2030 no horizonte, Müller aponta um problema estrutural do futebol português: as infraestruturas. Ao contrário do Euro 2004, defende que o investimento deve ser canalizado para a formação e não para estádios. «Cremos que o futebol formativo em Portugal o merece», afirmou, expressando o desejo de ver a Seleção Nacional maioritariamente composta por jogadores formados no Benfica.

Apesar de o Benfica Campus ser hoje uma academia de elite, o diretor-geral admite que «precisa de crescer», tornando inevitável a expansão das infraestruturas para responder ao aumento de equipas, profissionais e exigência competitiva. Um desafio que não altera o princípio orientador do clube: manter a formação como pilar estratégico, diferenciador e identitário do Benfica.