Samu brilhou na primeira parte e abriu o caminho da vitória de penálti, após dois falhanços em jogos anteriores. Foto Rogério Ferreira/KAPTA +
Samu brilhou na primeira parte e abriu o caminho da vitória de penálti, após dois falhanços em jogos anteriores. Foto Rogério Ferreira/KAPTA +

Líder sólido e paciente à espera dos momentos certos (crónica)

Mais pragmatismo que brilho, muita solidez e a virtude de saber esperar pelas alturas em que o jogo lhe dá o que precisa — eis o segredo do dragão

Segue imparável o FC Porto na liderança do campeonato, após ter alcançado a 11.ª vitória consecutiva na prova e não ter ainda conhecido o sabor da derrota. Aliás, só por uma vez não colecionou três pontos, quando recebeu o Benfica na 8.ª jornada da Liga. Segue a alta velocidade, frenético? Não — segue pragmático, paciente e a distribuir o esforço dos minutos de forma muito inteligente pelo jogo fora. Aquela imagem inicial dada pelo dragão de Farioli, a pressionar por quantas tinha a cada segundo, vai-se esvaindo e dando lugar a uma equipa sólida, que sabe esperar pelos momentos certos para resolver os jogos a seu favor.

Veja-se, por exemplo, como apareceu a vantagem na chuvosa e ventosa noite desta segunda-feira no Porto. Por saber que defende bem e é forte a transpor a bola de trás para a frente na hora em que a recupera, o FC Porto não teve vergonha de deixar o Gil dominar aparentemente o meio-campo e ter, até, um pouco mais de bola ao longo da primeira parte. Samu estava endiabrado e nada estático entre os centrais minhotos, assumindo-se como verdadeiro joker do jogo azul e branco, recuando, jogando de costas para a baliza e criando condições para os médios entrarem em posição de finalização.

E foi então assim que o FC Porto chegou ao 1-0. Não de forma direta, mas vale a pena recordar o toque mágico com que Samu colocou Gabri na cara do golo, evitado por um corte cirúrgico de Konan. Na sequência do respetivo canto, penálti infantil e desnecessário cometido por Murilo sobre o espanhol e eis que surgiu a hipótese de o avançado se redimir dos dois falhanços em jogos anteriores e colocar a equipa em vantagem.

Estávamos então perto do intervalo e pouco mais aconteceu até as três equipas irem descansar. O comandante do campeonato não estava a brilhar, mas estava seguro, e isso valia mais do que qualquer nota artística, até porque ainda haveria tempo para isso caso as coisas corressem de feição.

Uma das grandes incógnitas para a segunda parte era se o FC Porto iria deixar-se ficar por linhas atrasadas, onde — repete-se — se sente muito confortável, ou se correria atrás de um 2-0 que permitisse então o descanso. Intimamente relacionada com esta havia outra dúvida: iria o Gil acentuar a sensação de domínio sobre o jogo e obrigar o dragão a sofrer? Na verdade aconteceu um meio termo insosso, que foi quebrado aos 61 minutos com as entradas de Rodrigo Mora e William Gomes em campo. Saíram Gabri Veiga, meio apagado, e Borja Saínz, sempre pronto a explodir mas pouco eficaz neste jogo.

As coisas agitaram-se um pouco, mas curiosamente foi o Gil a fazer duas aproximações à baliza de Diogo Costa: um remate forte à figura do guarda-redes da Seleção Nacional, que ainda assim não conseguiu segurar, e um livre de Luís Esteves ao poste. No minuto a seguir César Peixoto tentou mudar a dinâmica do Gil e colocou em campo Bamba e Martín Fernández. Azar dos azares: um minuto depois, o uruguaio estava expulso por entrada altamente imprudente sobre Thiago Silva.

Terá ruído aqui de vez a estratégia minhota, até porque outro Martim Fernandes, sem acentos e em Português, lateral direito portista, tirou da cartola um coelho improvável e, a um quarto de hora do final, disparou a mais de 30 metros da baliza para o 2-0.

Ficava tudo decidido. Ainda entrou o reforço polaco Pietuszewski, aumentou a fantasia e o líder chegou ao 3-0. O Gil prossegue um campeonato excelente, e mostrou porquê, mas desta vez não deu para mais.