Prudência de costa a costa
Ao longo deste Campeonato do Mundo, assistir-se-á, por certo, a vasta polémica em torno do número de bilhetes vendidos para a competição. Nos jogos disputados no México — serão 13 —, sempre que a ‘tricolor’ entrar em campo haverá garantia de lotação esgotada (duas vezes no Azteca e uma em Guadalajara, na fase de grupos); outras partidas, por envolverem seleções sul-americanas, nomeadamente a Colômbia, ou o Uruguai, que mede forças com a Espanha em Guadalajara, deverão igualmente encher as bancadas (e já veremos adiante o que tal significa). Muitas dúvidas se levantam, com inteira legitimidade, quanto aos encontros marcados para Monterrey, que dificilmente parecerão capazes de mobilizar milhares de mexicanos — o nível de vida não é elevado e os bilhetes são caros —, como sucede com Suécia–Tunísia, Tunísia–Japão e África do Sul–Coreia do Sul, manifestamente menos sedutores para o grande público.
No Canadá, que também acolhe 13 jogos, em cidades de tradição futebolística como Toronto e Vancouver, haverá partidas de manifesto escasso interesse — um dos preços a pagar por se ter alargado a prova a 48 finalistas —, como Catar–Nova Zelândia ou Senegal–Iraque; ainda assim, o balanço final não deverá revestir-se de contornos dramáticos.
Nos Estados Unidos, onde verdadeiramente se joga a parcela substancial da competição, a questão assume outra natureza. O «soccer» é uma modalidade que, na MLS, enche estádios com emigrantes ou descendentes de emigrantes, sobretudo de raiz latino-americana. Porém, o futebol americano, o beisebol, o basquetebol e o hóquei no gelo (por esta ordem) arrastam multidões de outra índole. Daí que — somando-se a isso as dificuldades na obtenção de vistos, com que se debatem muitos milhares de adeptos — as interrogações sobre a ocupação dos estádios sejam inteiramente pertinentes.
A FIFA explica a divergência entre o que o olhar alcança e o que os registos oficiais proclamam com o enorme número de lugares disponibilizados aos patrocinadores, que muitas vezes não comparecem. Ainda assim, como já sucedeu no Coreia do Sul–Chéquia, não deixará de haver estádios menos compostos, o que constitui dano evidente para a imagem da competição.
Uma curiosidade final: vários estádios tiveram de ser reconfigurados, já que a largura de um recinto de futebol americano é de 48,8 metros, ao passo que, no caso do ‘nosso’ futebol, varia entre os 68,3 e os 73,2 metros, sendo por isso necessário retirar filas de cadeiras para alargar os relvados.
Uma última nota: Trump não marcou presença no Estados Unidos–Paraguai. Depois do enxovalho sofrido no jogo dos Knicks frente aos Spurs, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, preferiu jogar pelo seguro, apesar de a estreia da seleção de Pochettino ter ocorrido em Los Angeles. É a isso que se chama prudência de costa a costa…