Na formação, o erro não deve ser visto como algo a evitar, mas como parte do processo de aprendizagem — Foto: IMAGO
Na formação, o erro não deve ser visto como algo a evitar, mas como parte do processo de aprendizagem — Foto: IMAGO

Formar crianças não é gerir resultados

O treinador de formação precisa de ter a coragem de permitir que as crianças vivam o jogo, mesmo quando o resultado está equilibrado e a solução mais fácil seria recorrer apenas aos que oferecem resposta imediata. 'Tribuna Livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Gonçalo Mendonça, coordenador do futsal de formação do Clube Recreativo Leões de Porto Salvo

No desporto é comum ouvir treinadores dizerem que, em determinados momentos do jogo, precisam de pensar primeiro na equipa e no resultado. Em contextos de rendimento, esta lógica faz sentido. O jogo exige respostas imediatas e decisões orientadas para competir.

Mas quando falamos de crianças, a pergunta talvez deva ser outra: estamos a gerir o jogo ou estamos a formar pessoas?

Na formação, o foco não deve estar apenas no resultado do fim de semana. Deve estar nas experiências que proporcionamos, nas oportunidades criadas e no desenvolvimento de cada criança.

Por isso, aspetos como os minutos de jogo, a participação, o feedback e a exposição a diferentes momentos competitivos tornam-se fundamentais. O treinador de formação precisa de ter a coragem de permitir que as crianças vivam o jogo, mesmo quando o resultado está equilibrado e a solução mais fácil seria recorrer apenas aos que oferecem resposta imediata.

Porque não se aprende apenas quando tudo corre bem.

Aprende-se quando se falha. Quando se sente a pressão. Quando se toma uma decisão errada. Quando ainda não se consegue resolver um problema.

Na formação, o erro não deve ser visto como algo a evitar, mas como parte do processo de aprendizagem. Muitas vezes, o erro não é incapacidade; é tentativa, exploração e crescimento.

Talvez uma das maiores diferenças entre formação e rendimento esteja precisamente aqui. No contexto sénior pode dizer-se que determinado jogador não serve para aquele momento. Na formação, o desafio é outro: reconhecer que a criança ainda não está preparada e assumir a responsabilidade de a ajudar a chegar lá.

O «não consegue» transforma-se em «ainda não consegue». E esta pequena mudança de linguagem altera toda a filosofia.

Talvez seja também por isso que seja injusto avaliar treinadores de formação apenas por vitórias, classificações ou troféus.

Talvez as perguntas devam ser diferentes: quantas crianças jogaram? Quanto evoluíram? Quantas continuaram a gostar do desporto? Quantas permaneceram no processo?

Porque, no fundo, esse pode ser o verdadeiro resultado da formação.

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