Treinador do Torreense afirmou que a sua equipa técnica «ainda não percebeu o que atingiu» ao vencer a Taça de Portugal

Promessa por cumprir, Liga Europa e... foco na subida: tudo o que disse Luís Tralhão

Análise do treinador do Torreense à conquista da Taça de Portugal

Luís Tralhão, treinador do Torreense, analisou, em conferência de imprensa, a conquista da Taça de Portugal após vitória diante do Sporting, por 2-1, depois de prolongamento.

É uma conquista que fica para a história, a que deve este sucesso?

— Em primeiro lugar, quero agradecer a todos os adeptos e sócios do Torreense que estiveram presentes e foram brutais. Não cresci na zona, só lá estou há dois anos. Felizmente, os nossos caminhos têm sido brilhantes. No ano passado conseguimos ganhar a Liga Revelação, este ano ganhámos a Taça de Portugal. O apoio deles tem sido fantástico. A primeira palavra tem de ser para eles. A comunhão que há entre os adeptos tem vindo a crescer. Temos ganho e ajuda. O maior orgulho é sentir a felicidade de todas as pessoas a darem-me os parabéns. Obviamente que a nossa maior força foi a capacidade de percebermos que podíamos ganhar o jogo. Quando soubemos do calendário e que íamos ter poucos dias para preparar o jogo, não treinámos coisas muito elaboradas nos últimos dias. Disse aos jogadores que andávamos a preparar este jogo há muitos meses. Há jogos em que temos de defender mais ou atacar mais. A resiliência é uma das nossas principais características e define bem o que somos e representamos.

Já lhe passou pela cabeça como vai ser a festa? Vai ser melhor que o Carnaval? Tem alguma promessa para cumprir depois desta vitória?

— Relativamente à festa, não sei o que vai acontecer. Em tom de brincadeira, quando íamos jogar com o Fafe, a equipa técnica começou a brincar com rapar o cabelo e fazer uma tatuagem... É melhor não nos lembrarmos disso. Isto se ganhássemos a Taça. O que tinha dito em tom de brincadeira é que ia a pé para casa e ia preparar o jogo de quinta-feira. Não sei se vou conseguir cumprir o que disse. Acho que não me vão deixar. Vou a Torres. Estou à espera de muita gente. Obviamente que é um momento importante, mas como profissional que sou já estou a pensar no que irá acontecer na quinta-feira. Isso também me arrefece os ânimos. Temos festa hoje, mas temos de trabalhar amanhã.

Depois desta conquista, como vai ser o desafio de fazer descer o plantel à terra para o jogo de quinta-feira?

— O grupo tem isso presente ao longo das últimas semanas. À medida que nos íamos aproximando do fim da época, sabíamos que só podíamos contar connosco para o lugar de play-off. Sonhávamos com a subida direta, mas acabou por não acontecer. O Académico de Viseu teve muito mérito. A nossa caminhada foi fantástica. Acabámos com os mesmos pontos que o Académico, tivemos menos golos marcados. O objetivo principal era chegar pelo menos ao play-off. Isso não foi fácil de atingir. Às vezes dá-se pouco relevo ao que fizemos. Era uma equipa que tinha começado bem o campeonato, depois não esteve tão bem, e em janeiro estava a menos pontos da descida do que do play-off. Fizemos uma recuperação fantástica. Tinha dito que, se conseguíssemos, íamos aos dois lados. Nunca senti que fosse justo abdicar da Taça ou fazer uma gestão que pudesse comprometer. Os jogadores queriam muito chegar aqui. No que diz respeito ao focar, eles estão cientes dessa responsabilidades. Muitos deles estão a abraçar-me e a dizer que quinta-feira há mais. Isto ainda não acabou. Temos de recuperar fisicamente e esperar que o fator emocional nos catapulte para outro patamar. Dedico esta conquista a toda a gente que nos tem acompanhado, aos adeptos. Acho que é uma justa homenagem. Alguns de vocês não se lembrar de 2004, mas havia bandeiras e energia nas ruas. Isso em Torres Vedras sente-se e fico emocionado. Os meus jogadores são fenomenais. Não seria fácil noutro grupo entrar e ter este tipo de sucesso. São os principais responsáveis. Falei do André Sabino, dedicar à direção do Torreense que apostou em mim. Lembro-me da primeira reunião que tive e na altura estava na formação do Benfica. Nem sempre é fácil é sair de um clube com a dimensão do Benfica, mesmo estando numa função diferente. Quando saí da reunião, senti que fazia sentido. Gostei de falar com as pessoas. Quero dar uma palavra a toda a equipa técnica, que se formou em janeiro. Acho que ainda não nos apercebemos do que atingimos. Ainda temos muito para crescer, mas é difícil juntar pessoas tão boas no mesmo grupo. Gosto muito de ambiente de trabalho positivo. Dedico a todo o staff e, pessoalmente, a toda a minha família, que é o meu suporte. Se sou a pessoa que sou, dedico aos meus pais. Obrigado a eles. À minha mulher, que é especial. Foi parecido com a reunião do Torreense. 'Isto vai dar certo'. Temos dois filhos fabulosos. Fico sempre contente por se falar em Tralhão. É um apelido que não era comum.

A resposta defensiva da equipa roçou a perfeição? Numa questão futurista, é mais preciso ser um psicólogo para que o foco do jogo de quinta-feira não seja beliscado?

— Relativamente à parte estratégica, tinha vindo a acompanhar o Sporting desde o início da época. Como profissionais, vamos vendo as melhores equipas portuguesas, são referências. Conheci-a bem o estilo que o Rui Borges implementa na sua equipa. Aproveito para deixar uma palavra ao Rui e ao Sporting. É uma equipa que tem um poderio ofensivo gigante. Depende do gosto que temos pelo jogo, mas para mim é uma das equipas que tem mais opções atacantes. Também colocam a bola nas costas. Na primeira parte, o Sporting teve oportunidades de golo e podia ter marcado. Não tivemos as saídas rápidas como gostaríamos de ter. Criámos perigo nas que tivemos. Nem sequer revi nada, mas no que tenho presente, era que estávamos a sair bem, mas que não podíamos abusar na bola batida na frente. Estávamos a dar a bola rapidamente ao Sporting. Fiquei muito satisfeito. Olhamos muito para o futebol como a arte de atacar e criar golos bonitos, mas defender também é uma arte. Tenho de ser um treinador. O treinador tem um bocadinho de tudo. Temos de olhar para a parte da recuperação física.

Qual a importância do Leo Silva? O golo muito cedo alterou ou reforçou a estratégia da equipa?

—Tínhamos visto que o Pote e o Trincão em zonas mais baixas, jogámos muito interior. Sabíamos que muitas vezes, na Liga 2, encurtámos à frente com o central. Não quisemos deixar o Suárez sozinho no um para um. O Suárez é um jogador de topo mundial. O Leo, se houvesse necessidade, entraria nessa zona. Ao intervalo vimos algumas imagens e que o Leo estava demasiado cedo na linha. O Quintero acabou por estar mais baixo porque o Maxi Araújo assim o obrigou. Sentimos que era preciso ter a bola. Faltavam-nos algumas linhas de passe. O impacto do golo cedo... foi muito bom. Começar a ganhar deu-nos serenidade. Creio que estar a ganhar muito cedo tirou-nos a capacidade de ter a bola. Equipas como a nossa, que se vê a ganhar num palco como este, acaba por se agarrar mais ao resultado do que ao processo. E ainda bem (risos).

O Torreense vai jogar a UEFA Europa League? Qual o momento-chave desta final?

— Ainda não pensei nisso. O meu foco estava hoje e depois no jogo de quinta-feira. Creio que está resolvida a questão burocrática. O momento-chave do jogo para mim foi o primeiro golo, que nos deu alguma serenidade, e depois o facto de o Sporting não ter marcado na primeira parte. Isso deu-nos essa confiança. Diria que não há um momento específico, mas houve momentos importantes.

Como se vive na pele, depois de uma época tão longa, o primeiro e segundo golos?

— Não sei se tiveram oportunidade de ver, acho que fui a única coisa que não se mexeu no segundo golo. Basicamente estava a pensar no tempo que faltava e no que se tinha de fazer. Assim como os jogadores se preparam, eu também. No passado já tive em estádios com muitas pessoas, mas nunca num estádio com 40 mil pessoas. Tive o discernimento suficiente para manter a cabeça fria e ir analisando o jogo. Ainda há uns meses, na Liga Revelação, ganhámos ao Estrela da Amadora no último minuto e entrei em campo. Há momentos de maior impacto em que consigo manter a calma. Nunca pensei durante o jogo que estávamos a fazer história.

Como descreve este momento e que mensagem deixa aos adeptos?

— Vou ter na memória para sempre quando marcámos o segundo golo e vejo os nossos adeptos todos aos saltos. É uma imagem que vai ficar para sempre. Muito obrigado por acreditarem e por nos acompanharem. Tem sido assim ao longo dos jogos. Na próxima quinta-feira não sei se haverá lugar para todos. Que acreditem, como nós acreditamos que para o ano vamos jogar mais vezes contra Sporting, Benfica ou FC Porto. Não era a cereja no topo do bolo, era a fruta toda.

Num espaço de três ou quatro meses, o Torreense pode subir à Primeira Liga, ganhou a Taça, vai jogar a Supertaça com o FC Porto e vai estar na UEFA Europa League... Já recebeu uma chamada do seu irmão João e se falou com ele sobre a possível saída do Benfica?

— Não estava nada à espera. Sabia do potencial que a equipa tinha. Honestamente, quando entrei em janeiro, na minha cabeça estava que tínhamos capacidade para lutar pela subida de divisão. A Segunda Liga é muito equilibrada. Tinha esta meta. Relativamente ao meu irmão, fui falando com ele. Se calhar já me ligou, mas não tenho o telemóvel comigo. Os meus pais já me disseram que ele já lhes ligou e está muito contente. Não pôde estar cá hoje. Sobre o seu futuro, terão de lhe perguntar a ele.

Que conversa se tem com os jogadores ao intervalo?

— É um grupo misto de juventude e maturidade. Normalmente dou-lhes um espaço para falarem uns com os outros. Senti a equipa calma, sem euforia. Ao intervalo tentámos corrigir o que não estava tão bem. Senti o balneário sereno. O que mais ouvi é que íamos conseguir. Tento ser mais racional do que emocional.

Um jantar é o castigo mínimo que o Seydi vai ter pelo golo falhado de baliza aberta?

— (Risos) Normalmente, de semanas em semanas, o nosso almoço são uns frangos. Juntámos a malta... O Seydi vai ter de pagar não sei quantas vezes. Quando falhou, pensei: 'Não podemos sofrer depois de falharmos um golo destes'. Faz parte. A emoção que tem, é tão rápido que ultrapassa o próprio pensamento. Estava cansado. Tem acrescentado sempre, tenho de lhe agradecer. Fico contente por eles, é um grupo que merece.

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