Presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, Luciano Gonçalves, em grande entrevista a A BOLA

Presidente do CA revela a A BOLA: «Programas de arbitragem na TV estão suspensos»

Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, Luciano Gonçalves, em grande entrevista

— Menos de um ano passado desde a tomada de posse deste Conselho de Arbitragem esperava tanta ebulição em torno da arbitragem e dos árbitros?

— Se me perguntassem há um ano se estava à espera de ter tanta desinformação ou um ambiente tão tóxico em torno da arbitragem, diria que não. Certamente existem vários fatores para isso. Começo por dizer tenho a certeza de que não existem mais erros do que existiam no passado. Existem certamente mais microfones, mais pessoas a comentar sobre a arbitragem e a pegar em tudo aquilo que vemos ou que não vemos em torno da arbitragem, o que naturalmente acaba por criar um ambiente mais tóxico, que também não dá as melhores condições para a arbitragem poder evoluir e melhorar.

— O que é que pode ou está a ser feito para melhorar a confiança em relação ao setor?

— O foco, aquilo que estava previsto e que nós tínhamos no nosso plano quando nos candidatámos para este quadriénio, nós implementámos, está em marcha. Queríamos uma maior transparência na arbitragem, queríamos os árbitros cada vez mais profissionais, queríamos um plano nacional de arbitragem que possa guiar a arbitragem, não de uma forma reativa, mas com planeamento, e queríamos comunicar mais. Infelizmente, na parte da comunicação não estamos a ser entendidos da forma como gostaríamos. Aquilo que serviria para darmos mais informação está a virar-se contra a nossa arbitragem. Erros vão acontecer sempre, é fácil pegar-se neles para depois criar todo um alvoroço. Acreditamos muito no nosso processo, tomámos uma série de medidas logo no primeiro ano. A criação do Diretor Técnico Nacional era muito importante, a criação dos coordenadores técnicos distritais também, e isso está em marcha. Não se vai ver o resultado destas alterações nos primeiros meses. Não estamos a trabalhar para o momento, mas para o que pretendemos que seja a arbitragem daqui a 20 anos.

— Tinha este tema reservado mais para a frente, o da comunicação, mas já que tocou nele perguntava-lhe se esse mau entendimento que está a existir pode conduzir a mudanças ou se vai seguir firme o caminho definido?

— Em todos os projetos que me envolvi nunca tive qualquer problema em ajustar ou melhorar processos. Claramente está visto que o nosso futebol não está preparado para a comunicação que nós estamos a colocar. Portanto, também digo aqui sem qualquer problema, juntamente com o Diretor Técnico Nacional decidimos suspender os programas do Canal 11 e os programas da Sport TV.

— É só o público que não está preparado ou os próprios árbitros também se sentem incomodados com a exposição?

— Como não está a passar a mensagem que pretendíamos, naturalmente está a criar um ambiente nada favorável e que faz com que os árbitros também não se sintam confortáveis. Além do normal, todas as semanas falar-se sobre arbitragem, estamos a dar conteúdo para se falar ainda mais, todas as semanas, de arbitragem. Uma coisa era aquilo que a comunicação social via, aquilo que os comentadores viam, aquilo que era a opinião deles. Nós ainda estamos a dar a nossa explicação, assumindo os erros,  assumindo porque é que a decisão foi daquela forma e não foi daquela, ou seja, ainda estamos a dar mais conteúdo. Tendo em conta que é claro para nós que a nossa mensagem não está a chegar da forma como pretendemos, para bem da estabilidade dos árbitros, para bem da própria arbitragem, para também trazer aqui alguma tranquilidade, vamos suspender esses programas até que o futebol e os árbitros e todos nós estejamos preparados para voltar novamente a ter algo assim.

— Com efeitos imediatos?

— Com efeitos imediatos. Iremos continuar com a Conferência de Imprensa a cada dez jornadas, como fizemos ao fim da décima, mas mesmo essa, se entendermos que a mensagem não passa aquilo que nós pretendemos passar, de uma forma transparente e credível, também não tenho qualquer problema em chegar à vigésima jornada e depois não a continuar. Iremos manter a publicação dos relatórios de desempenho das equipas de arbitragem. Se o que for sendo publicado for sendo aceite, mesmo não se concordando, mas se for com naturalidade, sem se colocar em causa a seriedade e a normalidade dos processos, iremos continuar, mas se entendermos que não está a passar a mensagem, que só estamos a contribuir para ter mais ruído, naturalmente também iremos suspender.

— Apesar de ser um processo suspenso, como acaba de anunciar, suscita curiosidade a forma como era articulada a escolha dos lances entre o Conselho de Arbitragem e o Diretor Técnico Nacional, que apresenta os programas. Como é que isso se operava?

— Acho que as pessoas, no geral, acabaram por nunca perceber muito bem o que é a função de um Diretor Técnico Nacional e o que é a função do Conselho de Arbitragem. É importante não nos esquecermos, não nos desviarmos. O Conselho de Arbitragem é quem lidera toda a arbitragem a nível nacional. Não existem nomeações que não sejam feitas pelo Conselho de Arbitragem,  não existem classificações que não sejam feitas pelo Conselho de Arbitragem e não existem quaisquer decisões sem ser pelo Conselho de Arbitragem. O Diretor Técnico Nacional foi quem nós escolhemos para treinar os nossos árbitros e não existe em Portugal pessoa com tanta competência, com tanto conhecimento, com uma forma tão clara de comunicar como o Duarte Gomes. Ele treina os nossos árbitros, os nossos assistentes,  os nossos VAR, ele e, naturalmente, a equipa técnica que tem debaixo dele. O que acontece na apreciação às decisões dos lances é sempre a secção de classificações e o Conselho de Arbitragem a decidirem de que forma é que o lance é ou não é punido, se é bem decidido, se não é bem decidido. Existe depois sempre uma articulação, naturalmente, entre o Conselho de Arbitragem, a secção de classificações e a Direção Técnica Nacional, que diz, ‘olhem, este lance, no nosso entender, é para cartão vermelho’. E a secção de classificações diz que sim, é para cartão vermelho, ou não, não é para cartão vermelho.  Felizmente, em 95% das vezes, para não dizer 98%, as opiniões são unânimes. Quando não existe essa unanimidade, a decisão da secção de classificações  prevalece. Ou seja, o árbitro é penalizado, ou não, mediante a decisão da secção de classificações e não a do Diretor Técnico Nacional.  É importante conversarmos sobre este tema. É assim que funciona e não podia ser de outra forma.

— Já foi negada a existência da famosa jarra, mas a verdade é que há árbitros afastados após cometerem erros, parece-me factual…

— São duas coisas completamente diferentes. Uma coisa é a jarra, como nós toda a vida ouvimos falar, outra coisa, que eu entendo que faz muito mais sentido, é fazer a gestão de um ativo. Não podemos, de forma nenhuma, castigar o árbitro colocando-o numa jarra à espera que as coisas se alterem. Existem formas de fazer a gestão normal. Isto acontece em qualquer empresa, e você como diretor também sabe, tem que liderar equipas: quando os erros acontecem existem formas de penalizarmos os nossos ativos para eles perceberem efetivamente que aquilo não pode acontecer. Isso acontece com as notas nas classificações, acontece não tendo jogos, não porque existe o clube A, o clube B ou o clube C que se queixa e o árbitro vai para a jarra porque o clube se queixa. O procedimento que adotamos é a deteção do erro, percebermos porque é que aconteceu. Os árbitros, quando erram, seja de que forma for, têm a sua punição, não têm o pagar logo, imediatamente, mas sabem que aquela nota negativa que tiveram pode fazê-los descer de divisão, e como sabem a primeira divisão ou segunda divisão tem uma diferença muito grande. Pode ser a diferença entre ser indicado ou não indicado para o nível internacional…

— Partilha a ideia de que houve uma quebra na qualidade geral dos árbitros, nos últimos anos, em Portugal?

— Acho que não, o que acontece é que passámos a dar muito maior exposição aos nossos árbitros. Nós somos obrigados a colocar a fazerem Sporting, Benfica ou Porto árbitros que têm 2 ou 3 anos de futebol profissional. Isto era impensável há alguns anos, mas é o caminho e a gestão que eu acho corretos, fazer com que estes árbitros consigam também, daqui a 4 ou 5 anos, terem condições para fazer dérbis, clássicos e qualquer jogo no futebol profissional. Todos os árbitros que estão no futebol profissional têm que estar disponíveis e ter capacidade para fazer qualquer jogo do futebol profissional, senão não faz sentido lá estar, se não foi alguma coisa a montante que falhou, foi a nossa seleção lá atrás que falhou. Temos de ter muito mais árbitros a arbitrar em dérbis e clássicos, não podemos ter só um árbitro ou dois disponíveis para fazer esse tipo de jogos. Houve árbitros a fazer, este ano, jogos dos principais clubes que se calhar a maior parte das pessoas nem sequer sabiam que estavam no futebol profissional. Não sendo conhecido também faz com que se ache que o árbitro é mais fraco. Não acho que o quadro seja mais fraco, acredito é que o quadro acaba por ser muito mais exposto do que era antigamente. Era muito mais protegido. Até chegarem a árbitros de topo já tinham 10 ou 15 anos de arbitragem na primeira divisão.

— Concorda que o aumento das multas sobre os clubes, sobre os dirigentes, sobre os agentes de futebol que se pronunciam sobre a arbitragem é uma das soluções para aliviar o setor?

— Eu sou muito lírico: no mundo perfeito isso não devia ser necessário, naturalmente devíamos ser todos responsáveis para que não fosse necessário esse tipo de multas. As multas devem ser dissuasoras, não devem ser penalizadoras, mas efetivamente tendo em conta aquilo que é, em que nós teimamos em não conseguir olhar para o futebol no seu todo e olharmos sempre para os nossos interesses, o nosso clube, o nosso meio, falamos porque queremos justificar-nos para os adeptos, justificamos porque queremos criar uma cortina de fumo… Como a arbitragem acaba por servir sempre como uma justificação, não temos outro caminho senão criar regulamentos mais penalizadores, que sejam verdadeiramente dissuasores. Falamos sempre dos bons exemplos a nível europeu, dos bons exemplos na Inglaterra, mas depois também temos que olhar para a Inglaterra e compararmos as coimas, o tempo que demoram a sair, depois não existe recurso sobre recurso… Aqui sai uma multa no Conselho de Disciplina, depois vai para o TAD, depois ainda vai para o Tribunal Civil. De uma vez por todas, temos de perceber todos, todos, todos os que estamos envolvidos no futebol que o caminho tem que ser com regulamentos disciplinares mais penalizadores, decisões mais céleres e aceitarmos com naturalidade, quando erramos, que temos que ser penalizados porque erramos.

— Os clubes estarão disponíveis para essa mudança?

— Não sei responder. Acredito que a própria Liga também tem um papel muito importante na sensibilização dos clubes para que eles aceitem isso com naturalidade. Acredito que se não estiverem a pensar só no seu clube, se estiverem a pensar na indústria do futebol como um todo, vão perceber que será o melhor caminho antes de destruirmos cada vez mais a imagem do nosso futebol.

— Já explicou a relação entre Direção Técnica Nacional e Conselho de Arbitragem, mas há mais vertentes interessantes. Como é que está realmente estruturada a arbitragem hoje?  E há a curiosidade, chamemos-lhe assim, de existir um elemento da direção responsável pela área de arbitragem, quando, alegadamente, o CA se trata de um órgão independente…

— Certo. É importante que isto fique claro para todos: como o Alexandre disse, e muito bem, o Conselho de Arbitragem é totalmente independente. Não existe ninguém, mas ninguém mesmo, que tenha qualquer tipo de influência no Conselho de Arbitragem além do seu Presidente e da sua Direção. Por sinal, tenho a felicidade de ter uma grande equipa ao meu lado.  A função que foi criada de alguém representante da direção, no caso o doutor Rui Caeiro, ficar com o pelouro da arbitragem é algo que vem da direção, não é algo que tenha qualquer influência no Conselho de Arbitragem. Não toma qualquer decisão. Certamente, a função que foi pensada na estrutura da Federação Portuguesa de Futebol é de garantir que a pessoa vai perguntando qual o ponto de situação da arbitragem. É o Rui Caeiro que vai perguntando para expor à direção.  Para clubes, para qualquer outra estrutura para fora, não existe mais ninguém a não ser o presidente do Conselho de Arbitragem. Em Portugal vivemos muito na perceção, gostamos muito de passar a imagem que qualquer pessoa manda na arbitragem, controla a arbitragem, mas isso é completamente falso. Ninguém manda na arbitragem. Ninguém. Esse diretor da Federação é apenas alguém que é responsável perante a direção, que leva a informação que o Conselho de Arbitragem transmite. Nada mais que isso. Não tem nada a ver com o dia-a-dia da arbitragem, com nomeações, com a secção de classificações.

— Mudou algo, neste quase ano de trabalho do Conselho de Arbitragem, no treino de árbitros e videoárbitros?

— Sim, sim. Passámos a ter os videoárbitros a treinar de uma forma mais especializada. Especializou-se a função de VAR e AVAR, foram-se fazendo treinos mais assíduos, as pessoas já não estão preocupadas em fazer o treino de campo e depois fazer o treino de VAR, focam-se só mais na questão do treino de VAR. Passámos a treinar mais tempo, mais horas, e demos também outro passo muito importante, algo que já não se fazia há 14 anos, ou seja, quando se iniciou o projeto de profissionalismo nós iniciámos com 10 árbitros, na época passada tínhamos 9 árbitros, e este ano passámos para 16. Alargámos também a dois árbitros assistentes e depois também se acompanhou com apoios pontuais mais duas árbitras na preparação para competições internacionais e dois árbitros de futsal, também com o objetivo de fazer a preparação do Europeu que se inicia ainda este mês. Fomo-nos focando mais no processo. Estamos a tentar uma estrutura mais profissional de forma que os árbitros e os assistentes possam ter mais tempo para se dedicarem à função da arbitragem e ao treino, não andarem a treinar como andavam a treinar muitas das vezes em horários pós-laborais, conciliando com as suas atividades.

— A nomeação dos videoárbitros para um jogo depende de alguma forma do árbitro que vai apitar esse jogo, ou são nomeações independentes umas das outras?

— Fazemos nomeações distintas. Nomeamos a equipa de arbitragem, o árbitro e os árbitros assistentes, e depois nomeamos a equipa de VAR e AVAR. Não existe uma ligação direta como acontece com o árbitro. Aqui nomeamos o árbitro e pelo menos um dos assistentes é sempre o que anda com ele, para ir criando rotinas. E no caso dos árbitros internacionais andam quase sempre com a mesma equipa. Com os VAR isso não acontece. Vamo-los colocando um pouco também mediante o nível de experiência que cada um deles tem, mediante também se o árbitro é mais ou menos experiente. Mas o objetivo é que a curto prazo se consiga ter equipas de arbitragem mais fixas: o árbitro e os seus assistentes, e quando vai aquele árbitro e aqueles assistentes ter um leque de dois ou três videoárbitros que acompanhem aquele árbitro.  Isto ia ajudar naturalmente o processo, as dinâmicas entre equipas, a comunicação, mas para se conseguir isso também é necessário algum tempo. Necessitamos de formar VAR. Não podemos esquecer que este grupo de VAR surgiu agora nesta especialização, apesar de já termos ali um leque grande de VAR que já vinham de trás, com muita experiência

— Recentemente foi noticiado um movimento de protesto de árbitros, nomeadamente na região Norte, com ameaça de greve incluída. Pode esclarecer o que se passou?

— É simples. Nós temos a função de dirigir a arbitragem. A APAF, que eu também tive a felicidade de conhecer durante muitos anos, faz a representação da classe. A APAF e os árbitros exigiram uma série de medidas e nós tínhamos de encontrar formas de conseguirmos dar essas condições, desde que para nós, naturalmente, também fizessem sentido. Algumas fizeram sentido, outras nem por isso,  mas chegámos a entendimento no sentido de darmos mais condições, alargarmos, encaminharmos cada vez mais para aquilo que eram as condições que eles queriam também. Tinha a ver com condições de treino, disponibilidade. A associação de classe e os árbitros fizeram algumas reivindicações, não tínhamos os mesmos timings, mas chegámos a um entendimento, porque para nós o interesse é que os árbitros também estejam confortáveis dentro da linha que o Conselho de Arbitragem tem delineada.