Presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, Luciano Gonçalves, em grande entrevista a A BOLA

O que diz a «Bíblia da arbitragem portuguesa» que será apresentada em janeiro

Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, Luciano Gonçalves, em grande entrevista

— O Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, num artigo de opinião muito recente, anunciou que este será o ano da apresentação do plano nacional de arbitragem. Quais são as linhas mestras deste plano?

— Será a nossa Bíblia para os próximos 20 anos. O foco principal do plano nacional de arbitragem são o recrutamento, a retenção, o profissionalismo, a humanização e a internacionalização. Algo que nos faz planear a arbitragem, prevendo aquilo que serão os próximos ciclos e chegando aos objetivos: triplicar o número de árbitros, colocar árbitros nas fases finais das grandes competições, recrutamento e retenção. Já têm existido várias medidas que nos começam a preparar para esse plano. O plano nacional de arbitragem, que iremos apresentar ainda no decorrer do mês de janeiro, vai muito nesse sentido: profissionalização, olhar muito para a base, para depois ser natural termos cada vez mais árbitros, mais preparados para qualquer desafio internacional, e não se passar a seca que nós temos passado, já há 14 anos que não temos um árbitro no Mundial.

— Esses são os objetivos macro. Mas como se chega lá? Pode dar exemplos de medidas que já estejam ou venham a ser implementadas? No fundo, como é que se recruta e retém mais árbitros?

— Temos que fazer um plano nacional envolvendo todas as 22 associações de futebol, criando estruturas profissionais para poderem acompanhar, poderem ir às escolas diariamente, numa estratégia integrada em que iremos ter um diretor para o recrutamento e retenção que irá acompanhar as 22 associações distritais, criar um plano em parceria com a Direção-Geral de Educação, o Desporto Escolar, onde se irá às escolas acompanhar toda essa fase, para depois poder trazer esses jovens que têm algum interesse. O nosso problema não é termos a quantidade de árbitros, é retermos esses árbitros. E esses árbitros retém-se com maior acompanhamento, sensibilizando as associações de futebol para darem uma maior compensação financeira melhor aos árbitros que chegam. Mas não é apenas de dinheiro que se trata, é também de questões de segurança. Isso é algo que nos ultrapassa um bocadinho mais, a questão do policiamento é algo que não passa por nós, mas o que podemos fazer nas nossas associações e na Federação é criar regulamentos disciplinares que punam as situações não desejadas. Também previmos regulamentos disciplinares transversais de Bragança ao Algarve, às ilhas.

— O próprio Luciano falou em dinheiro, que não sendo o único fator é incontornável. O orçamento para a arbitragem aumentou da época anterior para esta?

— Com o plano nacional de arbitragem, naturalmente o orçamento irá aumentar. Irá também existir aquilo que é uma gestão de recursos mais responsável, ou seja, deixamos de fazer atividades reativas e passamos a fazer um plano diluído no tempo, com pessoas que passam a estar muito mais dedicadas ao processo. Mas naturalmente existe um investimento no orçamento para a arbitragem e para o plano.

— Falou em triplicar o número de árbitros, penso que estaria a referir-se a um horizonte de 20 anos. Recordo uma entrevista recente do Duarte Gomes em que ele falou em duplicar nos próximos 12 anos. Isto é exequível?

— Sim. É importante olharmos para isto sempre mediante as necessidades. Ou seja, eu não preciso de triplicar o número de árbitros em Portalegre, já lá tenho árbitros suficientes para o número de jogos. Temos é de ir ajustando o número de árbitros às necessidades locais. Se em Portalegre o número de árbitros é suficiente, então vamos arranjar forma de mantermos aquele número de árbitros e irmos aumentando aquilo que for necessário. Não necessitamos de ter 100 se só vamos utilizar 40. E isto só é possível fazer-se com esta análise e caracterização das 22 associações distritais, para percebermos onde é que existe verdadeiramente necessidade. Temos muitas associações onde temos que efetivamente triplicar o número de árbitros para evitar que eles andem a fazer 3 jogos por fim de semana, 3 jogos por dia, 6 ou 7 jogos por fim de semana. E também fazer com que algumas associações de futebol, não tendo árbitros, façam jogos sem equipas de arbitragem nomeadas, nos escalões mais baixos da formação. Não é isso que o futebol deseja, não é isso que o futebol espera.

— Que número vê como ideal, daqui a 12 e daqui a 20 anos, em termos de árbitros profissionais?

— O número de árbitros do futebol profissional deve estar sempre adequado ao número de equipas das respetivas competições. Se tivermos uma redução de equipas na primeira e na segunda liga, naturalmente o número de árbitros também deve reduzir. O ideal é olharmos também para outro dado, sempre muito importante: nós por hábito dizemos que o número de árbitros que devíamos ter nos campeonatos profissionais é 20, mas depois esquecemo-nos dos assistentes. Cada vez mais os árbitros assistentes e os VAR também têm de ser profissionais. Não imagino a arbitragem profissional em Portugal,  daqui a 12 anos, se não tivermos toda esta estrutura totalmente profissional. Tal como é uma equipa de futebol, tal como é um clube. Temos que ter árbitros, árbitros assistentes, todos profissionais. Se mantivéssemos agora as equipas que temos, a nível de árbitros devíamos andar à volta dos 25 árbitros, no máximo, para fazermos as duas competições árbitros. Duplicando naturalmente o número de assistentes e de VAR e AVAR.

— Pensa recorrer a árbitros estrangeiros, como o Conselho de Arbitragem anterior chegou a fazer?

— O que iremos continuar a fazer, como o Conselho de Arbitragem anterior fazia, são intercâmbios de árbitros meramente para questões formativas e troca de experiências. Iremos alargar os países com quem se fazem essas parcerias, porque isso faz todo sentido. Iremos alargar inclusive isso ao futebol não profissional. Ou seja, fazermos intercâmbio com a nossa vizinha Espanha, por exemplo, para os nossos árbitros do futebol não profissional irem arbitrar alguns jogos das ligas femininas, do futsal, e eles virem cá também fazerem idênticas competições. Mas sempre num prisma de formação e troca de experiências. Isso, para mim, é que faz sentido.