Portugueses brilham na formação de um desporto que é rei na Noruega
No início houve desconfiança. Afinal, um português a querer dar cartas no andebol norueguês? Numa das modalidades mais populares e com resultados internacionais? Mas isso rapidamente mudou.
Hoje, Henrique Lobo, de 28 anos, e apenas seis depois de ter chegado ao país para fazer um estágio de um ano, é bicampeão nacional de sub-18 femininos.
Sim: um português conquistou dois títulos consecutivos no principal escalão de formação do país que é o atual campeão Europeu, Mundial e Olímpico de andebol feminino.
«Sempre tive ideia de treinar em países nórdicos pela cultura que há de andebol. Por isso, entrei em contacto com o Mats Olsson [sueco antigo selecionador de Portugal] e foi através dele que cheguei para estagiar no Aker, clube do qual agora sou coordenador da formação, treinador principal das sub-18 e adjunto da equipa principal», resume o antigo jogador do Académico FC, formado em Educação Física e com mestrado em treino de alto rendimento na FADEUP.
A aposta na Noruega, país para o qual se mudou em 2020, não podia ter sido mais certeira. Ali conseguiu algo que, admite, em Portugal dificilmente teria conseguido: tornar-se profissional e viver apenas daquilo que mais gosta, o andebol.
«Trabalhei muito para isto. Claro que é preciso sempre o fator sorte para ter uma oportunidade, mas também causei boa impressão durante o estágio e depois mostrei trabalho para crescer dentro do clube», orgulha-se, o jovem que vive na capital Oslo.
«Tenho noção de que se estivesse em Portugal, dificilmente estaria a viver do andebol, que era o objetivo que tracei quando entrei para o mestrado. Aqui vivo só do andebol há cinco anos», explica.
Henrique Lobo chegou à Noruega em 2020. Curiosamente, o ano em que, no mesmo país, Portugal fez a Europa abrir a boca de espanto ao alcançar o 6.º lugar no Europeu, depois de 14 anos de ausência de uma grande competição. E o técnico acredita que o crescimento que o andebol português teve desde então também ajudou a afastar possíveis desconfianças.
«Sempre me senti bem recebido, muito respeitado, mas esse também ajudou. Agora, as pessoas já não estão surpreendidas pela qualidade do andebol português, que está ao nível dos melhores do mundo», acrescenta, ele que tem mais um ano de contrato e tem o objetivo de chegar ao mais alto nível.
Ex-FC Porto campeão na estreia
Se a desconfiança de um treinador português já estava afastada, mais ficou no último fim de semana. É que Henrique Lobo, desta vez, teve companhia lusa nos festejos: Miguel Sarmento conduziu o Asane ao título de sub-18 masculino.
«Nos quartos de final falámos e dissemos que seria giro ter dois portugueses em finais. Termos vencido os dois foi ainda melhor», comenta o técnico de 36 anos.
Para os mais atentos, o nome será familiar. Afinal, falamos do antigo ponta direita de FC Porto e ABC, internacional em todos os escalões até aos sub-21, que enquanto jogador conquistou dois campeonatos e uma Taça Challenge, entre outros títulos.
Depois de ter jogado seis épocas na Noruega, ao serviço do Viking, Miguel terminou a carreira na época passada e aceitou o convite para ser treinador de formação, alcançando um título nacional logo no ano de estreia.
«É um desafio maior alcançar um feito assim num país diferente do nosso. Tem de haver muita dedicação para confiarem em ti, porque há treinadores de qualidade que as direções já conhecem. Mas foi-me dado esse voto e correspondi», resume, ele que já há vários anos se preparava para este passo.
«No ABC já me tinham desafiado e gostei da experiência e aqui na Noruega estive sempre ligado ao treino de miúdos. Sinto-me muito confiante no meu futuro como treinador, quero ter ainda mais sucesso do que alcancei como jogador. Eu joguei a Champions pelo Porto e ABC, quero voltar a ter essa sensação como treinador», confessa.
Ao contrário do que acontece com Henrique Lobo, porém, Miguel Sarmento não vive apenas do andebol. Apesar de conciliar o trabalho no clube com o cargo de treinador da seleção regional de Bergen e ter também funções na federação norueguesa na área da deteção de talentos, Miguel admite que aquilo que ganha com o andebol por mês «talvez desse para viver uma semana na Noruega».
Nesse sentido, já desde os tempos de jogador que começou a trabalhar na área da fotografia e vídeo, tendo, entretanto, lançado a própria empresa no mesmo ramo, que já emprega alguns funcionários.
A ideia para o futuro, porém, é clara: apostar a fundo na carreira de treinador. Afinal, o andebol é a grande paixão.
«Nos meus tempos livres gosto de ver andebol de todo o mundo. Tudo o que está relacionado com o andebol dá-me mais prazer do que fazer vídeos e fotografias. Só ainda não me dá dinheiro para poder viver disso», nota.
O trabalho que tem realizado, sobretudo com o percurso até ao título nacional dos juniores do Asane, abriu-lhe algumas portas que Miguel podia aproveitar já. Mas depois de o andebol ter sido prioridade ao longo de tantos anos, decidiu que agora precisa de ter tempo para a família.
«Tenho dois filhos: a Ema, com cinco anos, e o Edgar de três. O terceiro vem a caminho. A minha ideia é continuar a vingar no andebol da Noruega, e já falei disso com a Marta, a minha mulher. Mas a curto prazo quero dedicar-me mais à família, antes de apostar mais na carreira de treinador principal», sublinha.
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