Koki Ogawa é uma das figuras do NEC - Foto: IMAGO

Perdeu a Taça, mas não o estatuto de equipa que mais diverte na Europa

NEC ocupa o terceiro lugar na liga neerlandesa e não resistiu ao AZ na final de ontem da taça

O futebol, na sua essência mais pura, é um espetáculo de entretenimento, e poucas equipas no continente europeu compreenderam essa missão tão bem como o NEC. Este domingo, o clube viveu a amargura de perder a final da Taça dos Países Baixos, um golpe duro para uma cidade que ansiava por um troféu histórico, para o AZ Alkmaar. No entanto, reduzir a temporada a esse resultado seria um erro de análise desportiva: o que se está a passar em Nijmegen é, atualmente, uma das experiências táticas mais radicais e fascinantes do futebol europeu.

Sentados num impressionante 3.º lugar da Eredivisie, o emblema de Gelderland — cujo nome, N.E.C., deve ser lido como uma sigla e não como uma palavra — carrega na identidade a história da cidade. A sigla significa Nijmegen Eendracht Combinatie, fruto da fusão em 1910 entre o Eendracht (que se traduz por «União» ou «Concórdia») e o clube Nijmegen. Esta união nunca foi tão literal como agora, com a equipa e os adeptos em perfeita sintonia num futebol de vertigem que se tornou o destino obrigatório para gosta de ver muitos golos.

Até ao momento, a equipa faturou 74 vezes no campeonato. Para colocar este número em perspetiva, apenas quatro colossos das grandes ligas europeias conseguiram melhor: Bayern (105), PSV (84), Barcelona (84) e Inter (75). O NEC não se limita a ganhar; o NEC atropela, tendo marcado três ou mais golos em 13 ocasiões distintas esta época.

Esta vertigem ofensiva tem um arquiteto com uma visão muito particular: Dick Schreuder. O treinador neerlandês não é um recém-chegado ao futebol de ataque, mas em Nijmegen elevou o conceito ao extremo. A sua filosofia baseia-se num sistema de alto risco e recompensa total. Estruturado num fluido 3-4-2-1, o desenho tático transforma-se constantemente num 3-2-5 no momento ofensivo. Sim, leu bem: cinco jogadores na linha da frente, ocupando a largura total do campo e sufocando a saída de bola adversária.

Adeptos do NEC

A razão para este estilo quase kamikaze reside na crença de Schreuder de que o controlo do jogo não se faz pela posse passiva, mas pela agressividade espacial. O técnico, que já passou pelo PEC Zwolle e pelos espanhóis do Castellón, transporta consigo a herança do futebol total, mas despida de cautelas defensivas excessivas. O resultado é um caos organizado que tanto encanta como assusta os seus próprios adeptos. Se, por um lado, o ataque é demolidor, a defesa paga o preço da exposição: com 48 golos sofridos, o NEC apresenta números defensivos dignos de equipas que lutam pela permanência, tendo consentido três ou mais golos em sete partidas.

Este desequilíbrio crónico é, ironicamente, o que torna o NEC a equipa mais divertida de observar na Europa. Num futebol moderno muitas vezes pautado pelo medo de perder e por blocos baixos impenetráveis, a equipa de Nijmegen escolheu o caminho da coragem. Perderam a Taça, é verdade, mas conquistam cada vez mais admiração entre todos os que acreditam que o futebol deve ser, acima de tudo, uma celebração do golo. O N.E.C. pode não ter o troféu na vitrine, mas tem os olhos do mundo postos em si quando está em campo.

Dick Schreuder, treinador do NEC

No centro deste furacão ofensivo, destacam-se figuras que personificam a audácia de Schreuder. O veterano Bryan Linssen, de 35 anos, tem sido o farol, liderando não só a lista de melhores marcadores com 10 golos, mas também a de assistências, somando 8 passes decisivos, o que demonstra uma longevidade impressionante no topo do futebol neerlandês.

Ao seu lado, a criatividade de Tjaronn Chery (9 golos e 6 assistências) e a energia do jovem turco Basar Onal conferem ao ataque uma imprevisibilidade constante. Nota ainda para a forte presença nipónica no plantel, com o instinto finalizador de Koki Ogawa (8 golos) e a visão de jogo de Kodai Sano no meio-campo, provando que o talento deste N.E.C. é tão internacional quanto o seu impacto mediático nesta temporada.