Penálti, fuga e campeão na secretaria

Marrocos perdeu no terreno de jogo, mas ganhou na secretaria. Isto é legal? Antecipo a resposta: legal é, mas não é bom para ninguém. 'Direito ao golo' é o espaço de opinião quinzenal de João Caiado Guerreiro, advogado

A final do Campeonato Africano de Futebol, entre Marrocos e o Senegal, foi uma confusão, uma barracada, um filme de terror, mas dos maus. Quase no fim do tempo regulamentar, o árbitro marcou penálti a favor de Marrocos. E a maioria dos jogadores do Senegal, apoiada pelo seu treinador, abandonou o campo. Sadio Mané, a grande estrela da equipa e um grande jogador, ficou em campo e, ao fim de algum tempo, lá convenceu os colegas a voltar ao jogo. Brahim Díaz falhou o penálti que tinha sido assinalado a favor de Marrocos e, no prolongamento, o Senegal conseguiu marcar e foi campeão. Quase épico, depois do nunca visto.

Dias depois, Marrocos recorreu do resultado do jogo, alegando que, ao abandonar o campo, a seleção do Senegal tinha desistido da partida e, portanto, perdido por 0-3. O órgão disciplinar da CAF — Confederação Africana de Futebol — veio agora atribuir o título a Marrocos, concordando com os argumentos apresentados. O Senegal vai afirmando nas redes sociais que não entrega o troféu, estando este guardado por soldados!

Marrocos perdeu no terreno de jogo, mas ganhou na secretaria. Isto é legal? Antecipo a resposta: legal é, mas não é bom para ninguém.

Antes de mais, convém dizer que os adeptos senegaleses só se podem queixar dos seus jogadores. Sadio Mané excluído, os que abandonaram o campo tiveram o resultado que mereceram. São profissionais a representar o seu país; não podem desistir porque não gostam de uma decisão do árbitro. O órgão disciplinar da CAF decidiu de acordo com o artigo 82 do regulamento: «Se, por qualquer motivo, uma equipa abandona uma competição antes do seu fim (…) será considerada derrotada e eliminada da competição (…).» Mais, de acordo com o artigo 83, um atraso de mais de 15 minutos tem a mesma sanção, e o artigo 84 especifica que a equipa que abandona será considerada como tendo perdido por 0-3, caso não esteja a perder por mais.

Nada a criticar quanto ao órgão disciplinar: aplicou apenas o regulamento. As críticas maiores devem ser dirigidas ao árbitro e aos outros agentes desportivos que aceitaram o recomeço do jogo. Isso não devia ter acontecido: a equipa do Senegal abandonou o campo, perdeu.

Reconheço que é fácil escrever isto, mas difícil estar na pele do árbitro e do delegado: com a multidão ao rubro, tanto que ambas as federações foram multadas pela desordem causada pelos seus adeptos, é extremamente difícil decidir bem. Pode imaginar-se a pressão sobre o árbitro para que o jogo recomece. Mas as decisões de secretaria, embora necessárias porque as regras são para cumprir, são más para o espetáculo. Os adeptos querem sair do estádio ou desligar a televisão sabendo quem ganhou e quem perdeu. Mudar o resultado só mesmo em casos muito sérios, como este. Nisso, a FIFA tem sido consistente em manter os resultados de campo. Isso também explica a popularidade do futebol.

Agate de Sousa, no salto em comprimento, e Gerson Baldé, na mesma modalidade, conquistaram o título mundial. 91% do Direito ao Golo vai para eles. E também um bocadinho para o Sporting, o SC Braga e o FC Porto. Que grande campanha europeia estão a fazer estes clubes!