Pedro Sousa (foto A BOLA)
Pedro Sousa (foto A BOLA)

Pedro Sousa, o jogador que voltou sempre

Do CIF ao Top 100, das lesões ao banco de treinador: uma carreira construída sobre recomeços

Perfil realizado por Sofia Cascais, no âmbito da disciplina de Jornalismo Desportivo da Licenciatura em Comunicação Social e Cultural da FCH-Católica, à qual A BOLA se associa.

No CIF, em Lisboa, Pedro Sousa continua a aparecer mesmo quando não está lá. Está nas fotografias espalhadas pelo clube, nos campos onde os treinos se sucedem, no som das bolas a baterem na terra batida e na memória de quem o viu crescer entre raquete, futebol e brincadeiras na mata. Está, sobretudo, nas palavras do pai, Manuel Sousa, o “Manecas” que sorri antes de voltar quase sempre ao mesmo ponto: Pedro nasceu ali.

«Nasceu aqui no CIF, praticamente», diz. Começou «na brincadeira», com três ou quatro anos, da mesma forma que hoje o avô faz com Manel, o filho de Pedro. O círculo, no ténis, às vezes demora décadas a fechar-se. No caso de Pedro Sousa, começou num clube que foi casa, escola, refúgio e ponto de partida. E talvez seja por isso que a sua carreira não se perceba apenas pelos rankings, pelas finais ou pelas lesões. Percebe-se também por essa ligação a um lugar onde o ténis nunca foi só uma profissão.

Hoje, Pedro já não entra em campo para jogar. Depois de ter chegado ao Top 100 mundial, de ter disputado uma final de ATP em Buenos Aires - em 2020, onde perdeu com o norueguês Casper Ruud - e de ter representado Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio, está do outro lado da linha, no banco. Treina Jaime Faria – que em 2025 entrou no Top 100 e chegou ao quadro principal do Australian Open – e trabalho também com Henrique Rocha na Federação Portuguesa de Ténis. Visto de fora, o movimento parece simples: o jogador termina a carreira, o treinador começa. Mas Pedro sabe que o ténis não é assim tão linear.

«Foi difícil, mas temos que aceitar. Faz parte da vida», diz, com a sobriedade de quem não parece interessado em dramatizar a própria história. A entrevista é feita à distância, porque Pedro está em viagem, num torneio com Jaime Faria. Responde de forma direta, contida, quase económica. Não se alonga. Não procura engrandecer o que viveu. Quando olha para trás, descreve o percurso como «diferente», não necessariamente mais duro do que o dos outros. Mas o pai conta a mesma história com outro ritmo, outra memória e outra emoção. Entre os dois, desenha-se o retrato de um jogador que teve talento cedo, mas passou grande parte da carreira a regressar ao ponto de partida.

Filho do clube

Pedro não se lembra de um momento exato em que tenha decidido ser tenista profissional. «Foi uma coisa natural», recorda. Passava muito tempo no CIF, jogava ténis, jogava futebol e ficava ali tardes inteiras. «Para mim, o CIF sempre foi quase uma segunda casa. Os meus pais tinham a escola lá, eu passava lá muito tempo. Tinha aí muitos amigos, passava lá as tardes todas, a jogar ténis, a jogar futebol, a brincar na mata ou o que fosse». O ténis apareceu menos como uma revelação e mais como uma consequência.

Manecas está no CIF há mais de 40 anos e já vai «na terceira geração» de alunos. Descreve o clube como sendo o melhor do país – «sem facciosismos», sublinha -, com dezanove campos, piso rápido e terra batida, inserido numa bolsa de natureza a pouco minutos do centro de Lisboa. «Os miúdos passavam cá o dia nas férias, em ténis, futebol, as brincadeiras de miudagem, e criaram aqui uma relação forte». Pedro foi um deles. Como foram antes Gastão Elias e Gonçalo Falcão.

Mas uma segunda casa também pode carregar expectativas. Pedro era filho de Manecas, antigo jogador e figura conhecida do clube. O pai percebeu cedo que isso podia pesar. «Havia ali mais uma situação que metia uma pressão extra dos torneios, por ser filho de quem era. Como eu tinha sido bom jogador, o filho tinha de ser também». Por isso, quando Pedro era mais novo, o pai tentava relativizar os resultados, não valorizava demasiado os torneios, procurava criar rotinas que o ajudassem a entrar em campo mais solto. «O Pedro ficava nervoso, tenso. Notava-se logo um dia ou dois antes das provas».

Pedro Sousa no Estoril Open de 2008 (foto: A BOLA)
Pedro Sousa no Estoril Open de 2008 (foto: A BOLA)

Quatro anos parado

O talento, esse, parecia evidente para quem o acompanhava. O próprio pai acaba por reconhecer: Pedro tinha «muita facilidade em jogar». Quando acabou a carreira de júnior, estava entre os melhores do mundo da sua geração. A transição para sénior começou bem, mas depois veio a primeira lesão grave: uma fratura de stress na canela com recaída. Quase dois anos interrompidos.

Aos 25, 26 anos já estava outra vez praticamente ali à porta do Top 100, conta o Manecas. Então surgiu outro golpe: uma lesão no pulso, duas operações, mais dois anos parado. «O ranking que estava à porta dos 100 desapareceu. Teve que voltar ao percurso zero, voltar aos Futures para a Tunísia». No total, quatro anos de carreira perdidos para lesões. O pai faz as contas com uma serenidade que só vem de ter vivido tudo aquilo de perto: «Só com muita resiliência é que ele se manteve no circuito profissional e atingiu o nível de jogador que teve».

É nessa parte da carreira que o perfil de Pedro se afasta da imagem mais limpa do jogador de elite. O circuito de Futures, que Pedro percorreu durante anos, tem uma dureza que raramente chega ao grande público. «As pessoas de fora, claro que não têm muito essa noção de como é que é jogar um Future em Marrocos. Não têm uma noção das condições que às vezes se apresentam», diz Pedro. Sem árbitros de cadeira, bolas desgastadas, campos precários. Uma aprendizagem, também, mas um caminho duro.

O pai recorda que, depois das derrotas, Pedro acusava muito. «No momento e naquele dia, era para esquecer, nem valia a pena falar com ele». A frustração aparecia de forma clara, mas não ficava por muito tempo. Um ou dois dias depois, o caminho recomeçava. Pedro admite ter pensado em para, «tanto no início como no meio». «Há momentos duros, há lesões, há fases menos boas e tem que se pôr todas as opções em cima da mesa». Mas continuou até aos 34, 35 anos.

O Top 100, visto de fora, pode parecer apenas um número. Para o ex-tenista, foi um destino adiado várias vezes. «Era o grande objetivo da minha carreira. Foi bastante difícil, foi um objetivo cumprido». Quando o atingiu, já numa fase mais tardia, não o viveu como o início de uma subida sem limite, mas como uma confirmação. Tinha chegado. Não pelo caminho mais curto, nem no momento ideal, mas chegado. A final em Buenos Aires e os Jogos Olímpicos vieram depois. «Foram os dois momentos que mais me marcaram na minha carreira», diz, sem hesitar.

Sentar no banco

Pedro terminou a carreira no mesmo universo onde a começou. O CIF organizou uma festa de despedida que Manecas descreve como «marcante e pesada». «Foi um misto de situações, de pai, de treinador, tudo, porque acompanhei aqui tudo e estive sempre muito presente na carreira do Pedro». Para o filho, era o fechar de um círculo que durou três décadas. Mas a despedida não foi um ponto final.

Pouco depois de deixar de competir, Pedro Sousa entrou num papel técnico na Federação Portuguesa de Ténis, acompanhando Henrique Rocha e Jaime Faria. A transição não foi simples. «Afinal dedicamos a vida toda a este deporto e à competição; apesar de continuarmos ligados, não é da mesma forma». A nova condição tem um nome que ele próprio escolheu: «sofrer de fora». O ponto está a ser jogado do outro lado da rede e já não há nada a fazer com a própria raquete.

Com Henrique Rocha, a ligação ganhou um simbolismo especial num torneio Challenger disputado no próprio CIF, em setembro de 2025. Rocha chegou à final e não escondeu o peso do momento: «Estar numa final aqui em casa é incrível, principalmente num torneio como o do CIF, que é um clube muito especial para mim e para o Pedro». Cinco anos depois do treinador, o pupilo tinha chegado à decisão do Challenger mais antigo do país, no mesmo clube onde Pedro cresceu.

Com Jaime Faria, o presente ganhou mais visibilidade. Numa entrevista ao jornal Record, Faria definiu a relação de forma direta: «O Pedro Sousa é tão ambicioso como eu. O ténis é um crescimento, uma evolução que temos vindo a fazer, não só eu como jogador, mas o Pedro também como treinador – no final de contas é uma coisa nova para ele». Em Wimbledon 2025, Faria foi ainda mais longe, revelando que queria vencer Lorenzo Sonego, o jogador que tinha eliminado o seu treinador em 2021, «para buscar essa vingança». A ambição, portanto, não ficou presa à carreira de jogador. Apenas mudou de corpo.

Quando se pergunta a Pedro o que tenta transmitir aos jogadores que acompanha, a resposta é cuidadosa. «Tentei transmitir ao Jaime e a Henrique a minha visão sobre a carreira deles. Às vezes vou buscar exemplos sobre o que me aconteceu a mim ou sobre o que achaba que faltava, mas principalmente tento transmitir o que acho que faz falta a eles e no caso deles. Claro que há algumas coisas em que me revejo, mas cada um tem a sua carreira e o seu percurso».

No CIF, essa memória continua a ter lugar físico. Manecas fala do clube como quem fala de uma casa com várias gerações. «Já vou na terceira geração, a apanhar os netos de alguns dos meus alunos». Pedro foi uma dessas crianças que passaram dias inteiros no clube e acabaram por levar o nome para fora dele. Agora regressa através de outros – dos jogadores que treina, do filho que começa a brincar com a raquete e das histórias que o pai continua a contar.

A carreira de Pedro Sousa não foi a de um jogador que subiu sempre. Foi a de um jogador que voltou sempre. Voltou das lesões, voltou dos rankings baixos, voltou dos torneios pequenos, voltou ao objetivo que parecia escapar. E, quando já não pôde voltar como jogador, encontrou outra maneira de permanecer no ténis.

Sentou-se no banco.

Do outro lado da linha, o jogo continua.

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