Paralímpicos: esteve oito horas soterrado após sismo e agora fez história pelo Haiti
Ralf Etienne tornou-se o primeiro atleta de sempre a representar o Haiti nuns Jogos Paralímpicos de Inverno, um feito notável para um homem que, em 2010, esteve oito horas soterrado sob os escombros de um edifício que ruiu durante o devastador sismo que abalou o país.
A estreia histórica aconteceu esta sexta-feira na prova de Slalom Gigante, na categoria de esquiadores de pé, disputada na pista de Tofane, em Cortina d'Ampezzo.
Etienne terminou a primeira manga na 34.ª posição, mas sofreu uma queda na segunda. A participação foi possível graças a uma bolsa de 12 meses do programa 'Desporto para a Mobilidade' do Comité Paralímpico Internacional, que o ajudou a qualificar-se.
Recorde-se que, a 12 de janeiro de 2010, um sismo de magnitude 7.0 mudou a vida do agora atleta para sempre. Etienne, na altura um bem-sucedido empresário de 21 anos, foi resgatado após oito horas debaixo dos destroços. Devido à gravidade dos ferimentos e à demora no acesso a cuidados médicos, a perna esquerda teve de ser amputada.
O terramoto foi um dos mais mortíferos da história, causando, segundo dados oficiais, cerca de 222.570 mortos, mais de 300.000 feridos e deixando 1,5 milhões de pessoas desalojadas.
«Ainda estou a assimilar o que significa estar aqui, mas é uma grande plataforma para o país, para mostrar uma face diferente. Quando as pessoas olham para o Haiti, veem o caos, por isso quero mostrar-lhes excelência, liderança, resiliência e trabalho árduo», afirmou.
«É um sonho tornado realidade. Quero mostrar aos jovens do meu país que há esperança, porque eu tenho uma deficiência e posso estar aqui, para que eles possam fazer tudo o que quiserem», complementou.
Nascido em 1989 em Mirigôane, a cerca de 100 quilómetros da capital Porto Príncipe, Etienne era, antes da tragédia, dono de um jornal, uma revista, uma produtora e dirigia um programa de rádio. Após o sismo, a vida tomou novo rumo.
Da comunicação social à medicina
Viajou para os Estados Unidos, onde estudou Medicina e tirou um MBA na Universidade Anderson, em Indiana, com o apoio de Gregory Adamson, o médico que o ajudou com a prótese.
Depois de se formar, regressou ao Haiti para fundar a organização sem fins lucrativos 'Rebuilding Haiti', que já ajudou a reconstruir casas, apoiou cuidados de saúde — distribuindo 40.000 pares de óculos — e prestou auxílio às vítimas do furacão Matthew.
A carreira profissional levou-o a trabalhar no setor financeiro, nomeadamente no Banco de América e em Wall Street. Atualmente, reside em Londres, onde trabalha na City, tendo-se mudado devido às políticas migratórias da administração Trump.
Foi durante uma viagem ao Lago Tahoe que descobriu a paixão pelo esqui, e um encontro com o ex-medalhista paralímpico Monte Meier, em Utah, marcou o início do percurso como atleta.
Recorde-se que, além do Haiti, também Portugal, Macedónia do Norte, El Salvador e Montenegro estrearam-se nesta edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno.
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