«Palhaço das bofetadas» (ou não)
Meu caro Roger Schmidt:
TREINADOR com o seu perfil e o seu conhecimento sabe-o bem: que foi o Marcelo Bielsa, no seu jeito sempre filosófico de jogar futebol com as palavras (sem nunca deixar de o jogar com a cabeça…) que o descobriu:
– … quem ganha não deve preocupar-se em ir à procura das razões, que há de haver sempre alguém a inventar teorias para o justificar…
É verdade - e também é verdade que, às vezes, se faz ainda pior a procura (alvoroçada) da teoria (sem grande razão) para justificar uma derrota. Foi o que aconteceu consigo no que disse de Vlachodimos depois angústia trazida do Bessa:
– É óbvio que não foi o seu melhor jogo, mas contra o Boavista podia ter estado melhor... O Boavista teve três oportunidades para marcar e marcou três golos…
É, dessas suas palavras tirou-se, num fogacho, a ideia de que estava a culpar Vlachodimos (e só Vlachodimos) dos três golos sofridos - arranjando, assim, um subterfúgio para lhe tirar a baliza (foi a insinuação que rodopiou em fogaréu). Sendo justo, terei de admiti-lo: pondo-se a frase (toda ela) no contexto a sua ideia até poderia não ser o que pareceu: fazer de Vlachodimos o seu (único) bode expiatório. Sim, porque, a dada altura da sua afirmação ouve-se:
– … O Boavista teve três oportunidades para marcar e marcou três golos, mas não foi só ele, a nossa performance na defesa nestes três golos poderia ter sido melhor…
Admitindo, pois, que o que estava no seu espírito não era a crucificação pública (e a humilhação picada) de Vlachodimos – terá de admiti-lo, meu caro Roger Schmidt: que ouvindo-se o que ouviu, o Vlachodimos pôde sentir-se como se sentiu: o mais injustiçado dos jogadores do Benfica pela sua diatribe (tendo ou não o seu perverso sentido). Eu sei e você também: os guarda-redes têm esse destino cruel que Eduardo Galeano, revelou, romântico, no seu antológico Futebol: sol e sombra:
– Chamam-lhe porteiro, guardião, goleiro, cérbero ou guarda-trincheiras, mas também podia ser chamado de mártir, paganini, penitente ou palhaço das bofetadas. Sem sair da baliza, aguarda, só entre os postes, o seu fuzilamento. Não marca golos. Está ali para impedir que os marque. O golo, a festa do futebol: o goleador faz a alegria e o guarda-redes, esse desmancha prazeres, desfá-la. E o guarda-redes tem sempre culpa. E se não a tem, paga à mesma. E quando a equipa tem uma tarde má, é ele quem paga a conta, sob uma chuva de remates, expiando pecados alheios. Os outros jogadores podem cometer um ou vários erros de palmatória, mas redimem-se com uma finta espetacular, um passe magistral, um disparo certeiro: ele não.
Havendo, claro, neste seu futebol mais pós-moderno pormenores que já não são como a poesia de Galeano notou (como, por exemplo, não jogarem com o número 1 nas costas e terem de jogar com os pés como se lá não tivessem dois ferros de engomar...) – o que não deixou de haver no seu comentário ao Vlachodimos foi, ainda assim, o que Vlachodimos não merecia (mesmo só por aquilo que fez ou não fez contra o Boavista). Não, não merecia que pudesse sair das suas palavras (sendo ou não essa a sua intenção) na imagem empolada do «palhaço das bofetadas» – ou na imagem do destino agreste de quem tem sempre a culpa e se não tem paga à mesma. Por isso parece-me natural que ele lhe tenha ido pedir explicações (sem o fazer na lógica ao contrário do Bielsa)...
Aliás, vou dizer-lhe mais: espantou-me que você, meu caro Roger Schmidt, tivesse dito o que disse (como o disse) porque não me esqueço de ter lido no livro que há pouco lançou por cá:
– O treinador é o responsável principal pelos resultados desportivos – sobretudo quando não há sucesso. Lamuriarmo-nos, portanto, não é o mais adequado…
e lamuriar-se foi exatamente o que você fez (a sugestionar água sacudida do capote) – fazendo-o surpreendentemente mal. Mal, sim, por ter sido feito por alguém que também o sublinhou no seu livro de treinador (que ganha):
– ... o ambiente dentro da equipa vai ficando cada vez mais forte. Todos por um, um por todos. Todos têm a sua quota no mérito quando há sucesso. Mas quando se dá a derrota, é o treinador o único responsável. Durante o curso de treinador de futebol, quando eu estagiei no Werder Bremen, disse-me, com um sorrisinho, o Thomas Schaaf: ‘O treinador é sempre o otário. Quando ganha, assiste aos outros a festejar. Quando perde, fica sozinho em frente às câmaras.’ Hoje percebo o que ele quis dizer, e não está longe da verdade…
Não, não o achando obviamente «otário» no Bessa – ainda assim confesso-lhe: pior do que o guarda-redes do Benfica no Bessa, esteve o treinador do Benfica no Bessa. E é por isso que eu compreendo que Vlachodimos tenha ficado agastado com o que (pouco feliz) você disse dele, naquele contexto e em público - e ele lhe tenha pedido explicações (sem o fazer na lógica ao contrário do Bielsa).
O modo como as pediu, não sei – mas não acredito que o fizesse em ofensa, resmunguice ou despautério. E se Vlachodimos não o fez assim, você, meu caro Roger Schmidt, seria sempre o seu «verdugo» e o seu «mártir» (usando as insinuantes e românticas palavras de Galeano) se o mandasse da Luz borda fora, apenas a a pretexto disso. Não acontecendo tal, não deixará de ter outro problema em mãos: saber se irá pôr mais na sua baliza o Vlachodimos (que foi figura decisiva, talvez a mais decisiva, para que você fosse campeão). Não, não julgo que se o fizesse isso fosse a sua a «desautorização». Ou sinal de quebra de liderança. Pelo contrário. E voltando a atirá-lo a jogo, o que mostraria é aquilo que julgo que você não é: um déspota irritável (e irritado). E ainda o livraria do que poderia ser outro problema (para si): deixar no balneário a desconfiança a pairar na ideia de que o eu ganho, eles empatam e nós ganhamos e se eu não ganho alguém há de pagar por isso – é o seu lema. Ou a tropeçar na versão piorada do fado que Thomas Schaaf lhe cantou (em si):
– O treinador é sempre o otário. Quando ganha, assiste aos outros a festejar. Quando perde, fica sozinho em frente às câmaras…
É, livre dessa responsabilidade de mandar Vlachodimos borda fora, pode não estar de outra. Não bastando o Vlachodimos ser o melhor guarda-redes entre os postes que o Benfica tem, você quer (já se percebeu) guarda-redes melhor no domínio do jogo aéreo. Querendo igualmente guarda-redes a jogar airoso com os pés (o óbvio calcanhar de Aquiles do Vlachodimos) e não podendo mandar o Aursnes para a baliza (é quase só o que lhe falta) – está-se mesmo a ver quem mandará... E, quando isso acontecer, mesmo que Vlachodimos não se tenha ido embora, voltará a falar-se dele como «mártir» ou «palhaço das bofetadas» – simplesmente porque você foi inábil a dizer o que disse (de microfone aberto) antes do jogo com o Estrela...