Issa Doumbia tem-se exibido a grande nível com a camisola do Sporting e promete vir a ser uma das figuras da próxima Liga — Foto: IMAGO
Issa Doumbia tem-se exibido a grande nível com a camisola do Sporting e promete vir a ser uma das figuras da próxima Liga — Foto: IMAGO

Doumbia, o rei incontestável da pré-época

Italiano não pediu licença para acrescentar alta voltagem ao jogo leonino. O Sporting moldou-se para a vertigem no mercado e os sorrisos multiplicam-se com o bom mercado até agora

Doumbia é o novo Froholdt. E Froholdt continua a ser o velho Froholdt. Tal como o dinamarquês começou a deixar bocas abertas de espanto nas bancadas e para lá delas desde os primeiros jogos até ser ontem novamente decisivo na conquista do FC Porto da Supertaça diante do Torreense, também o médio italiano de origem marfinense está a maravilhar os adeptos do Sporting e talvez a deixar alguma inveja nos do Benfica, que também o terá tentado contratar ao Veneza neste verão.

Logo aí se nota uma abordagem diferente dos dois rivais no mercado: o leão rodeia e avança com uma certeza que contrasta com uma águia que quase sempre parece duvidar e pairar no ar em círculos, à espera de uma oportunidade que não chega. E as dúvidas, por cúmulo, também não são resultado de uma maior paciência para tomar melhores decisões. São indefinição pura e simples de quem não sabe muito bem o que quer. Ou então reflexo de um modelo de funcionamento obsoleto ou disfuncional. Em qualquer dos casos, há algo que está profundamente errado na organização do emblema da Luz. Não é propriamente uma novidade, eu sei.

Não é que o Sporting não falhe alvos ou que alguns não se tornem no que se esperava, mas a percentagem de sucesso em Alvalade é bastante positiva, sobretudo quando comparada com a do arquirrival. E, com a perda de unidades tão influentes em causa nesta pré-temporada, os de verde e branco demonstraram rapidamente que há muito tinham estipulado onde queriam ir. E foram. Doumbia, depois de Zalazar. Altimira. Silas Andersen. Meio-campo defensivo e ofensivo refeitos. Depois, a troca da certeza de Diomande pelo potencial de Ba, arriscando q.b., sem pestanejar, perante a rábula dos exames médicos que teriam inicialmente estragado a transferência para Estrasburgo — contrariados pelas declarações do empresário e pelos testes feitos pelos verde e brancos. Faltará agora apenas o tal extremo namorado há muito, que não foi Faye, entretanto com guia de marcha para França.

A surgir no vazio — sem Pedro Gonçalves e ninguém ainda na ombreira para entrar —, Flávio Gonçalves faz passar a ideia de que a equipa pode confiar e ver o que dá com ele, pelo menos até janeiro, quando abrir nova janela de transferências. A vir para dentro desde a esquerda com um novo pote de soluções criativas para o ataque. O leão tem assim mais margem para gerir o (mais de um) mês que falta de mercado. E ter, sim, paciência para não se deixar deslumbrar por qualquer senegalês do Granada, que, poucos toques na bola depois, se perceberia que não era bem aquele jogador que se pretendia.

Já escrevi aqui que as revoluções têm custos e a perda de referências deverá ser o fator mais preocupante para Rui Borges. É uma rotura por completo com o passado, em nomes, mas também em dinâmicas. Os resultados têm dado razão, bem como um moral cada vez mais elevado, aos leões, porém é nos momentos de baixa que os líderes são procurados. Necessários. E, esses, irão de certeza aparecer, porque as épocas são longas e não há equipas imunes. Claro que no contexto do futebol português, com a tal diferença cada vez maior entre os três/quatro grandes e os demais, não será exposto como poderia ser em campeonatos mais exigentes, mas o Sporting parte em cima de uma temporada de zero títulos. E, por isso, com uma pressão maior do que o normal. Por muito que se diga que ela existe sempre, nem por isso tem o mesmo peso, ao ponto de, por vezes, se tornar sufocante. Sobretudo se os primeiros resultados não ajudarem.

Depois, outra questão talvez passe pelo enfrentar blocos baixos. E a pausa que a equipa não quer ter em nenhum momento dos seus ataques. Todas as jogadas apontam para uma finalização, o que tanto pode elevar uma equipa a tornar-se avassaladora como diminuí-la ao ponto de se a ver sôfrega, se não encontrar o critério. Para já, claro, só se vislumbra a face mais sorridente do leão.

Doumbia é, naturalmente, uma das razões para esse sorriso tão aberto e genuíno. É incrível como passou ao lado dos gigantes do calcio, que o puderam ver jogar todos os fins de semana, para assinar por uma equipa portuguesa, ainda que tenha a Champions, a da época passada e a desta, como trunfo de sedução. Porque, se olharmos para grupos de trabalho como os de Juventus, Milan, Atalanta ou Roma, por exemplo, encaixaria muito bem também nessas equipas.

Não é só energia, embora crie, acumule e liberte mais do que praticamente todos os outros. É velocidade, técnica, drible e sobretudo rapidez de execução. Define bem e quase de imediato, assume o momento, seja este mais ou menos solene, e promete ser um quebra-cabeças para todos os que lhe aparecerem pela frente. Terá de encontrar o tempo certo nos duelos defensivos, apenas, a fim de não se colocar em risco para eventuais cartões amarelos e suspensões, porque com a bola nos pés não há praticamente nada que se lhe aponte. E o espírito, esse, é praticamente indomável, ainda que ao serviço do coletivo. Como não podia deixar de ser.

E se o leão se apresentar na Champions a um nível pelo menos parecido com o da última temporada, Doumbia poderá ser daqueles que duplicará rapidamente o valor. Não é que o Sporting pense tão cedo em vendê-lo, mas poderá fazê-lo se assim o quiser. O potencial está realmente todo lá. E Doumbia provou-o em cada encontro que jogou desde que fez as malas e viajou para Lisboa.

O leão cresceu em dimensão física, inspirando-se na influência de Froholdt e aproximando-se da ideia que levou Farioli e o FC Porto ao título. Todo ele é vertigem e explosão. Se o que acrescentou chega para encurtar distâncias e ultrapassar o rival nortenho só saberemos quando a pré-época perder o prefixo. Talvez até mesmo apenas quando se defrontarem. E logo veremos. Entretanto, o outro candidato, o Benfica, que não carrega o título do ano passado e está a meio, pelo menos, de nova reestruturação, permanece uma incógnita. Ainda que, aqui e ali, já se comece a perceber a mão de Marco Silva, não podemos deixar de o ver, para já, atrás dos rivais.

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