Mundial
Mundial
Os lesados de Roberto Martínez
Roberto Martínez nunca devia ter sido o selecionador nacional.
Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, estava no auge do seu poder e influência e não houve quem questionasse publicamente tão bizarra escolha. Sem cair em exageros, há uns 30 treinadores portugueses melhores do que ele.
Em janeiro de 2023, Fernando Gomes, na apresentação de Roberto Martínez, revelou a razão para Fernando Santos não continuar: «Depois de um Mundial em que sentimos que poderíamos ter ido mais longe (...) Portugal pode e deve estar sempre nas decisões de grandes competições, e isso significa, pelo menos, aceder às meias-finais.»
A indústria do futebol foi a única que não se deixou contaminar pelas ideias de igualdade, diversidade ou agenda verde. A meritocracia é o critério único.
A melhor equipa que tinha treinado tinha sido o Everton. Vencera uma Taça de Inglaterra e um campeonato da terceira divisão inglesa.
O rei vai nu. No conto de Hans Christian Andersen, publicado há quase 200 anos, dois vigaristas convencem o rei que iam fazer o melhor fato do mundo e que seria invisível aos ignorantes. O desfile começou e todos elogiavam, até uma jovem criança gritar que o rei ia nu e todos perceberem o logro. Em Portugal, a criança tinha sido evacuada.
Pedro Proença manteve o objetivo. Desde o jogo com a RD Congo, expôs-se a apoiar Roberto Martínez, quando a não responsabilidade na contratação aconselhava prudência e distância.
No futebol, a culpa nunca morre solteira — é sempre do treinador.
O treinador é, de longe, o elemento mais importante numa equipa de futebol. A decisão mais importante do presidente é a sua escolha.
Na qualificação para o Mundial já houve uma tremedeira no fim. Não se ganhou à Hungria em Alvalade (2-2), pelo que o jogo com a Irlanda, em Dublin, foi a segunda oportunidade para nos qualificarmos — perdemos 0-2. No último jogo, no Dragão, com a Arménia, ganhamos 9-1, em pressão máxima. Porque é que em Portugal se faz sempre tudo no último dia? Porque no dia seguinte já não é possível.
Com a divulgação dos 26 jogadores escolhidos, a escandalosa não convocatória de Palhinha, mas também com a incompreensível ausência de Ricardo Horta e a presença de quatro laterais-direitos na lista, surgiram as primeiras críticas públicas.
A ideia de Martínez foi ter dois grupos de jogadores, um para jogar e outro para fazer número (de cara alegre).
A matilha digital, depois do primeiro jogo, dedicou-se ao linchamento dos jogadores. Até a ida à praia foi um tema central, facto surpreendente para quem almoça esporadicamente na Costa de Caparica e vê, quase sempre, jogadores a darem um mergulho em vésperas de jogos decisivos — que ganham.
Fosse o selecionador Jorge Jesus, José Mourinho ou Sérgio Conceição, as teorias da conspiração não existiriam. Mesmo com Martínez, não têm razão de ser. É ele quem toma estas estranhas decisões — por exemplo, preferir Rafael Leão contra uma defesa fechada em vez de Trincão, que marca golos e fura numa área defendida por dez adversários.
Soubesse a RD Congo contra-atacar e tínhamos perdido.
Se é fácil jogar a fase de qualificação, quando os jogadores chegam a voar das melhores equipas do mundo, será Martínez capaz de preparar uma competição em que o treino é da exclusiva responsabilidade da sua equipa técnica?
Este jogo morno que nos exaspera é uma opção ou manifestação de incapacidade? Um dia, vai haver uma alteração às regras penalizando a interminável posse de bola em zonas mortas do campo, como fizeram desportos como o basquetebol e o andebol.
Não há um português que considere que Cristiano não tem lugar na Seleção. Dividimo-nos apenas em relação á sua utilização e só Martínez acha que deve jogar os 90 minutos.
João Neves e Tomás Araújo
João Neves foi o melhor com a RD Congo e Tomás Araújo assumiu responsabilidades alheias.
João Neves não é o típico português, porque está sempre com ar de bem disposto.
Saiu muito jovem de casa dos pais no Algarve e foi viver para a academia do Benfica no Seixal. Sofreu com a morte da mãe. Sempre a correr e sempre com um sorriso.
Em 1988, assisti a um jogo do campeonato no antigo Estádio das Antas. Shéu, o capitão do Benfica, fazia nesse dia o seu último jogo na carreira. Foi substituído e todos os adeptos do FC Porto se levantaram e aplaudiram. Com João Neves, seria igual, não há quem não goste muito dele.
Com 22 anos, já ganhou duas Champions e três campeonatos nacionais. Na Liga das Nações, depois de ganhar a primeira Champions com o PSG, sem qualquer queixume, jogou a lateral-direito.
Tomás Araújo fez com Renato Veiga uma improvável dupla de centrais no primeiro jogo do Mundial. Juntos, tinham 18 internacionalizações no total e uma média de 23 anos.
No Mundial de 2022 e no Europeu de 2024, os três principais centrais foram Pepe, Rúben Dias e Danilo Pereira. Em 2022, tinham uma média de 31 anos e 77 internacionalizações; no Euro-2024, 33 anos e 89 internacionalizações.
Portugal defende os cantos de uma forma inconcebível, com poucos jogadores na área. O jovem Tomás Araújo, assumindo corajosamente responsabilidades que não foram dele, protegeu a equipa técnica e Diogo Costa (o cabeceamento é na pequena área).
Padre António Vieira
«Nós somos o que fazemos», dizia o Padre António Vieira. Portugal vai ganhar ao Uzbequistão mas dificilmente ganhará o Mundial.
Só perdermos, se privarmos as crianças da alegria de viver um Mundial — com ou sem cromos.
Se não correr bem desportivamente, a culpa será do selecionador. Felizmente, foi sempre assim e sempre será.
Para tristezas, já basta o mundo em que vivemos.