Os 90 minutos acabam, o jogo continua
Há quem continue a passar pelo Estádio Nacional por causa de um jogo disputado a 25 de maio de 1965. Esse foi o ponto de partida para a inauguração, na passada sexta-feira, 26 de junho, de uma exposição dedicada à conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo Celtic.
Para mim, o Jamor sempre foi muito mais do que um estádio, mas agora ficou ainda mais claro: é uma verdadeira máquina de preservar memórias; transforma 90 minutos em décadas de significado.
Fez-me pensar numa ideia: talvez estejamos a medir o valor do futebol de forma demasiado curta. Há momentos e lugares que deixam de ser apenas um espetáculo para se tornarem memória. O apito final termina aos 90 minutos, mas alguns jogos continuam a ser vividos durante décadas.
Sessenta anos depois, aquela final continua a trazer pessoas a Lisboa, a inspirar exposições, documentários, turismo e merchandising, reforçando a ligação entre um clube e os seus adeptos. Continua, sobretudo, a gerar valor.
Quando falamos de bilhética ou de direitos audiovisuais, pensamos quase sempre no valor do direto. No privilégio de estar presente e testemunhar o espontâneo. De viver algo irrepetível. Mas talvez exista uma segunda dimensão igualmente importante: o valor da memória.
O futebol tem investido muito em monetizar o presente, mas nunca podemos esquecer igualmente do passado. Porque um grande jogo não vale apenas enquanto é disputado. Vale enquanto permanecer na memória das pessoas.
É essa memória que leva um adepto a regressar ao estádio, a comprar uma camisola histórica, a ver um documentário, a visitar um museu ou a mostrar aos filhos um jogo que nunca puderam viver. O futebol não produz apenas entretenimento. Produz património emocional. E esse património pode, e deve, continuar a gerar valor.
Foi precisamente com esta visão de longo prazo que desenhámos o Regulamento de Comercialização dos direitos audiovisuais do futebol profissional português. Em articulação com a Autoridade da Concorrência, o documento permite uma segmentação muito mais sofisticada dos conteúdos e dos direitos, incluindo formatos como near-live clips, highlights, arquivos históricos e outros produtos capazes de prolongar a vida comercial de um jogo muito para além da transmissão em direto.
Porque nem todo o valor está nos 90 minutos. Uma parte significativa nasce precisamente quando o jogo termina. Há tempos escrevi que precisamos de dar novos mundos ao futebol português. Hoje acrescentaria outra ideia: também precisamos de lhe dar novos tempos. Porque os grandes jogos nunca acabam verdadeiramente. Transformam-se em memória.
E, quando bem trabalhada, a memória também é um ativo. Um ativo que cria valor económico, reforça identidades e mantém viva a magia do futebol muito depois do apito final.