Para André Mosqueira do Amaral, «o Jamor sempre foi muito mais do que um estádio»
Para André Mosqueira do Amaral, «o Jamor sempre foi muito mais do que um estádio»

Os 90 minutos acabam, o jogo continua

Liga para Todos é o espaço de opinião de André Mosqueira do Amaral, Diretor Executivo da Liga Portugal

Há quem continue a passar pelo Estádio Nacional por causa de um jogo disputado a 25 de maio de 1965. Esse foi o ponto de partida para a inauguração, na passada sexta-feira, 26 de junho, de uma exposição dedicada à conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo Celtic.

Para mim, o Jamor sempre foi muito mais do que um estádio, mas agora ficou ainda mais claro: é uma verdadeira máquina de preservar memórias; transforma 90 minutos em décadas de significado.

Fez-me pensar numa ideia: talvez estejamos a medir o valor do futebol de forma demasiado curta. Há momentos e lugares que deixam de ser apenas um espetáculo para se tornarem memória. O apito final termina aos 90 minutos, mas alguns jogos continuam a ser vividos durante décadas.

Sessenta anos depois, aquela final continua a trazer pessoas a Lisboa, a inspirar exposições, documentários, turismo e merchandising, reforçando a ligação entre um clube e os seus adeptos. Continua, sobretudo, a gerar valor.

Quando falamos de bilhética ou de direitos audiovisuais, pensamos quase sempre no valor do direto. No privilégio de estar presente e testemunhar o espontâneo. De viver algo irrepetível. Mas talvez exista uma segunda dimensão igualmente importante: o valor da memória.

O futebol tem investido muito em monetizar o presente, mas nunca podemos esquecer igualmente do passado. Porque um grande jogo não vale apenas enquanto é disputado. Vale enquanto permanecer na memória das pessoas.

É essa memória que leva um adepto a regressar ao estádio, a comprar uma camisola histórica, a ver um documentário, a visitar um museu ou a mostrar aos filhos um jogo que nunca puderam viver. O futebol não produz apenas entretenimento. Produz património emocional. E esse património pode, e deve, continuar a gerar valor.

Foi precisamente com esta visão de longo prazo que desenhámos o Regulamento de Comercialização dos direitos audiovisuais do futebol profissional português. Em articulação com a Autoridade da Concorrência, o documento permite uma segmentação muito mais sofisticada dos conteúdos e dos direitos, incluindo formatos como near-live clips, highlights, arquivos históricos e outros produtos capazes de prolongar a vida comercial de um jogo muito para além da transmissão em direto.

Porque nem todo o valor está nos 90 minutos. Uma parte significativa nasce precisamente quando o jogo termina. Há tempos escrevi que precisamos de dar novos mundos ao futebol português. Hoje acrescentaria outra ideia: também precisamos de lhe dar novos tempos. Porque os grandes jogos nunca acabam verdadeiramente. Transformam-se em memória.

E, quando bem trabalhada, a memória também é um ativo. Um ativo que cria valor económico, reforça identidades e mantém viva a magia do futebol muito depois do apito final.

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