Onze metros mundiais
No dia 27 de setembro de 1994, o Real Madrid eliminou o Sporting, da Taça UEFA, após ter ganho no Bernabéu por 1-0 e perdido em Alvalade por 2-1 (ainda valiam os golos fora). No final do jogo de Lisboa, Jorge Valdano, treinador dos ‘merengues’, afirmou que «mais uma vez se viu como muitas vezes é ténue, no futebol, a linha que separa o sucesso do insucesso.»
Esta verdade tem aplicação prática nos jogos decididos em desempates a partir da marca dos onze metros, e ganha amplificação planetária se tal sucede num Campeonato do Mundo.
Quando a FIFA decidiu introduzir esta forma de se saber quem era o vencedor, no Mundial da Argentina, em 1978, nenhum jogo foi a penáltis. No Qatar, em 2022, foram cinco, e na América do Norte (com mais jogos, é certo), é provável que o recorde seja superado.
Para já, o que a história no diz é que houve três campeões do Mundo a partir dos onze metros (Brasil, 1994; Itália, 2006; Argentina, 2022), e que Alemanha (duas vezes), Brasil, Croácia, França e Argentina atingiram finais depois de terem passado jogos de mata-mata nos penáltis.
Graças ao progresso tático das equipas e à melhor condição global dos jogadores, é possível, cada vez mais, aos ‘underdogs’, empurrar a decisão para os onze metros, e de lá sair a rir.
Portugal vibrou em 2004 e 2006, no Euro e no Mundial, frente à Inglaterra, chorou no Euro/2012, nas ‘meias’ com a Espanha, viajou para o título europeu de 2016, derrotando a Polónia dos onze metros, bateu a Eslovénia e disse adeus ao Euro/24, frente à França, e celebrou a Liga das Nações de 2025, à custa de ‘nuestros hermanos’.
No primeiro mata-mata de 2026, vamos ter pela frente a Croácia, que em matéria de desempates por penáltis em Mundiais é radical: quatro desafios, quatro vitórias (contra Dinamarca e Rússia, em 2018, e frente a Japão e Brasil, em 2022). Portugal, por seu turno, só se viu em preparos mundialistas semelhantes há 20 anos, em Gelsenkirschen, contra a Inglaterra, onde Ricardo, com luvas, vestiu a capa do Super-Homem e defendeu três remates de Frank Lampard, Steven Gerrard e Jamie Carragher.
Frente aos croatas, se a decisão for para os onze metros, com uns a apelarem a Nossa Senhora de Fátima e os outros a Santa Maria de Marija Bistrica, que a inspiração esteja com Diogo Costa, um especialista na matéria.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…