Enquanto o debate se esgota em Cristiano Ronaldo, o maior beneficiado é Roberto Martínez - Foto: Imago
Enquanto o debate se esgota em Cristiano Ronaldo, o maior beneficiado é Roberto Martínez - Foto: Imago

Esperar o melhor e prepararmo-nos para o pior

'Choques de Realidade' é o espaço de opinião em A BOLA de Rui Pedro Soares, consultor

O debate em torno da Seleção Nacional e de Cristiano Ronaldo diz hoje muito mais sobre a sociedade do que sobre o futebol.

Abandonámos os ensinamentos de Aristóteles, que via na moderação e no ponto de equilíbrio a essência da virtude, para adotarmos uma lógica de confronto permanente, em que apenas os extremos conseguem captar a atenção.

É o abandono de uma doutrina com mais de vinte e quatro séculos. Em vez do meio-termo aristotélico, vivemos num permanente duelo entre posições extremadas e inconciliáveis.

O Mundial de 2026 é apenas mais uma demonstração de que esta realidade já não pertence apenas à política; contaminou também o futebol.

Não é o Mundial. É o mundo em 2026. Desde o primeiro jogo de Portugal que assistimos a este confronto.

De um lado, um grupo de fanáticos que pretende reformar Cristiano Ronaldo desde 2018, ano em que conquistou a última Liga dos Campeões ao serviço do Real Madrid e marcou os inesquecíveis três golos frente à Espanha no Mundial da Rússia.

Do outro, um grupo igualmente fanático que entende que Ronaldo deve jogar na Seleção enquanto quiser, porque tudo o que fez por Portugal lhe confere esse direito.

No meio desta guerra, o maior beneficiado é Roberto Martínez. O selecionador escapa à responsabilização pela deceção que Portugal tem sido neste Mundial, repetindo muitos dos erros que já tinha cometido na seleção belga.

Enquanto o debate se esgota em Cristiano Ronaldo, não se analisa a organização e o rendimento coletivo da equipa.

Aristóteles ensinava que a virtude se encontra entre dois excessos. Também no caso de Cristiano Ronaldo existe um ponto de equilíbrio. Uma lenda imortal, mas que não devia jogar todos os minutos em todos os jogos.

Essa é, provavelmente, a posição da maioria silenciosa dos portugueses, que prefere não participar num debate dominado pelos extremos e policiado pelas matilhas digitais.

Mais importante do que Portugal conquistar este Mundial seria recuperarmos a capacidade de discutir a Seleção com respeito pelas opiniões contrárias.

Uma sociedade que já não consegue conversar sobre futebol dificilmente conseguirá dialogar sobre os assuntos verdadeiramente importantes.

Devemos recordar-nos que, como ensinava Aristóteles há mais de dois mil anos, a virtude continua a estar no meio: nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como dizem os portugueses.

Mas esta lógica não explica apenas a forma como discutimos futebol. Explica também a forma como o próprio futebol é hoje observado.

Confundimos protagonismo com importância. A atenção deixou de estar centrada no essencial e passou a ser monopolizada por quem tem mais visibilidade.

O futebol acompanhou a globalização. Hoje seguem-se jogadores, mais do que seleções. As grandes figuras são Cristiano Ronaldo, Messi, Mbappé, Haaland ou Neymar.

Mas os protagonistas nem sempre são os mais importantes.

A França é excelente exemplo desta diferença entre notoriedade e importância. O protagonista é Mbappé. Mas a maior vantagem competitiva francesa chama-se Didier Deschamps. Como jogador conquistou um Mundial e um Europeu; como selecionador venceu o Mundial de 2018, foi finalista em 2022 e completa doze anos na seleção. A estabilidade e a sua capacidade de gerir egos e talento explicam muito do sucesso francês.

Charles Darwin demonstrou que, na evolução das espécies, não sobrevive o mais forte nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta. O futebol não é diferente. As equipas vencedoras adaptam o modelo de jogo às caraterísticas dos seus jogadores e à cultura competitiva que representam.

Bielsa ignorou a cultura competitiva do Uruguai e procurou impor um modelo de jogo antagónico da sua identidade histórica. Teimoso é o treinador que obriga os jogadores a adaptarem-se às suas ideias.

Martínez esconde-se atrás de Ronaldo

Portugal foi a maior desilusão da fase de grupos. No entanto, a maior parte das críticas recai sobre Cristiano Ronaldo, quando a responsabilidade pertence, indubitavelmente, ao selecionador.

A polémica decisão de Ronaldo ter jogado todos os minutos dos três jogos da fase de grupos foi o escudo protetor de Martínez.

Nos Lusíadas, Camões imortalizou a expressão. «O Rei fraco faz fraca a forte gente», referindo-se a D. Fernando I, incapaz de decidir e de conduzir o reino em momentos difíceis.

O empate frente à Colômbia foi um exemplo dessa incapacidade. As substituições finais, quando Portugal precisava de vencer, denunciaram a intenção de Martínez — segurar um resultado inútil.

Portugal continua em prova, mas as suas possibilidades de a ganhar são baixas (e não deviam ser). Como se desperdiça tanto talento e se dispensou a presença na convocatória de jogadores experientes e competitivos, como João Palhinha, Danilo Pereira ou Ricardo Horta?

Resta agora a esperança permitida pelas competições a eliminar, em que tudo pode acontecer.

O jogo com a Croácia vai definir o patamar mínimo pelo qual este Mundial será recordado. Uma derrota neste jogo significará muito mais que uma desilusão.

A armadilha em que não podemos cair é permitir desviar as atenções de quem dirige a equipa e toma todas as decisões fundamentais.

A responsabilidade maior pertence sempre a quem escolhe, convoca, define o modelo de jogo, prepara e conduz a equipa.

Independentemente da forma como terminar este Mundial, Cristiano Ronaldo continuará a ser o maior futebolista da história de Portugal e quem mais projetou Portugal no mundo.

O Mundial acabará. Cristiano Ronaldo, um dia, também abandonará a Seleção. O que permanecerá será a forma como escolhemos discutir o futebol e a capacidade — ou incapacidade — de distinguir entre protagonistas e responsáveis.

A crítica faz parte do futebol. A ingratidão não.

E Aristóteles continua a lembrar-nos, vinte e quatro séculos depois, que a virtude não está nos extremos.

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