Os últimos capítulos de Cristiano Ronaldo
Há uma regra no futebol que nunca falha: o tempo ganha sempre.
Ganha aos mais rápidos, aos mais fortes, aos mais talentosos. Ganha aos que parecem eternos e aos que acreditam que ainda têm mais uma época dentro deles. Mais cedo ou mais tarde, chega a todos. Não há exceções.
Ou, pelo menos, era isso que pensávamos.
Porque Cristiano Ronaldo continua a desafiar essa regra de uma forma que poucos julgariam possível.
Não porque tenha derrotado o tempo. Ninguém o derrota. Nem ele. Mas porque continua a competir, a marcar e a ser decisivo numa idade em que a esmagadora maioria dos grandes jogadores já pertence apenas à memória.
Talvez seja por isso que Cristiano Ronaldo continue a ser um fenómeno tão difícil de analisar.
Porque aquilo a que assistimos atualmente não é normal. Não é sequer comparável com aquilo que vimos acontecer com qualquer outro grande jogador da história recente.
Quando um futebolista chega aos 41 anos, a conversa costuma ser outra. Fala-se da despedida, do legado, das homenagens e dos documentários. Recordam-se os grandes momentos e aceita-se que o protagonista já pertence mais à memória do que ao presente. Ninguém passa semanas a discutir se ainda deve ser titular. Ninguém transforma cada convocatória numa polémica nacional. Ninguém analisa cada toque na bola como se estivesse a julgar toda uma carreira.
Com Cristiano Ronaldo acontece precisamente o contrário.
Continuamos a discutir se deve ser titular. Continuamos a analisar os seus minutos. Continuamos a avaliar o seu impacto nos jogos. Continuamos a olhar para ele como alguém capaz de decidir partidas importantes por Portugal.
E a verdade é que, vezes sem conta, continua a fazê-lo.
Naturalmente, já não é o jogador que foi. Não poderia ser.
O extremo que destruía defesas na Premier League já não existe. O avançado que parecia capaz de marcar em qualquer jogo e contra qualquer adversário já não tem a mesma explosão física. O futebol não permite milagres. O relógio avança para todos.
Mas há uma diferença entre reconhecer essa evidência e concluir que deixou de ser útil.
Nos últimos anos, criou-se uma curiosa obsessão em torno de Cristiano Ronaldo. Muitos parecem mais interessados em provar que o seu tempo terminou do que em analisar aquilo que ainda continua a oferecer dentro de campo.
Quando marca, o adversário não tem qualidade suficiente. Quando não marca, surge a prova definitiva de que deveria ter saído há mais tempo. Quando Portugal vence, o mérito pertence ao coletivo. Quando as coisas correm menos bem, a responsabilidade encontra rapidamente um rosto familiar.
E talvez isso aconteça porque Ronaldo deixou de ser apenas um jogador de futebol. Tornou-se um símbolo. E os símbolos raramente geram opiniões moderadas. Há quem o considere intocável. Há quem esteja há anos à espera da confirmação definitiva de que já não tem lugar na Seleção. Entre uns e outros, por vezes, perde-se aquilo que deveria ser o mais importante: a análise objetiva do que acontece dentro das quatro linhas.
O curioso é que os factos continuam a atrapalhar algumas conclusões precipitadas.
Ainda recentemente, na Liga das Nações, voltou a estar presente num dos momentos mais felizes da história recente da Seleção. Não como figura decorativa, não por gratidão ao passado, mas porque continuava a ser uma peça útil numa equipa que voltou a vencer.
Continuou a demonstrá-lo esta época, ao serviço do seu clube e, agora, no Mundial: continua a possuir uma das características mais difíceis de encontrar no futebol moderno, a capacidade de aparecer onde é preciso, quando é preciso.
Não tem a velocidade de outros tempos. Não tem a capacidade física que o tornou praticamente imparável durante duas décadas. Mas continua a ter algo que não desaparece facilmente: instinto, inteligência competitiva e uma relação quase única com o golo.
Durante anos, habituámo-nos a vê-lo marcar. Tantas vezes, em tantos contextos diferentes, que acabámos por considerar isso uma banalidade.
Mas não é.
O normal não é um jogador chegar aos 41 anos e continuar a competir ao mais alto nível internacional. O normal não é continuar a ser opção numa das melhores seleções do mundo. O normal não é continuar a ser decisivo em jogos relevantes. O normal não é continuar a obrigar treinadores, adversários, comentadores e adeptos a discutir semanalmente o seu papel.
O normal seria já estar retirado.
Talvez seja precisamente essa anormalidade que explique a exigência permanente que o rodeia.
Durante vinte anos, habituou-nos a padrões tão absurdamente elevados que qualquer versão menos perfeita parece insuficiente. Acabámos por criar uma comparação impossível: medimos o Cristiano Ronaldo de hoje contra o melhor Cristiano Ronaldo da história.
É uma batalha que ninguém conseguiria vencer.
Nem ele.
E, no entanto, mesmo perdendo essa comparação impossível, continua a apresentar números, exibições e momentos que seriam celebrados em qualquer outro jogador.
O futebol também tem esta particularidade. Muitas vezes, não valorizamos devidamente aquilo que vemos todos os dias. Só percebemos a dimensão de determinados fenómenos quando eles desaparecem.
Aconteceu com grandes equipas. Aconteceu com grandes treinadores. Aconteceu com grandes jogadores.
Provavelmente, acontecerá também com Cristiano Ronaldo.
Por isso, talvez devêssemos olhar para estes últimos capítulos da sua carreira com outra perspetiva.
Não como uma busca permanente pelo momento exato em que deve sair de cena. Não como um julgamento semanal sobre a sua utilidade. Não como uma tentativa constante de encontrar sinais de declínio.
Mas como aquilo que realmente são: os últimos capítulos de uma carreira irrepetível.
Porque o futebol tem o hábito de nos convencer de que haverá sempre outro igual a seguir. Que depois de Eusébio virá outro Eusébio. Que depois de Maradona virá outro Maradona. Que depois de Messi aparecerá outro Messi.
A história mostra que raramente é assim.
E, quando Cristiano Ronaldo deixar definitivamente os relvados, deixaremos de discutir minutos, convocatórias ou posições em campo. Ficará apenas a memória de uma carreira que atravessou gerações, bateu praticamente todos os recordes imagináveis e colocou Portugal no centro do futebol mundial durante mais de duas décadas.
Nesse dia, muitos perceberão que passaram demasiado tempo a discutir quando terminaria a história.
E demasiado pouco tempo a apreciar o privilégio de a terem visto acontecer.