O telefonema com Rui Borges e a saída do Milan: tudo o que disse Paulo Fonseca
Estas foram as primeiras palavras de Paulo Fonseca enquanto treinador do Sporting: «Em primeiro lugar, agradecer ao presidente e à estrutura pela confiança depositada em mim, na minha equipa técnica e no meu trabalho. Sempre tive sempre em mente continuar nos melhores campeonatos a defrontar os melhores treinadores, os melhores jogadores, por forma a chegar hoje aqui melhor preparado. E a verdade, confesso-vos, acho que estou no momento certo de ser treinador do Sporting. É o momento em que me sinto melhor preparado para enfrentar este desafio. Depois, não posso deixar de dizer que este clube sempre foi especial para mim. Sou adepto desde criança. Cresci a vibrar com o Jordão, o Manuel Fernandes, depois com o Carlos Xavier, o Bol quartzo, o Mário Jorge, Balakov, Luisinho, Douglas. E isso pesou imenso no momento em que o presidente me endereçou o convite. Há sonhos que se tornam realidade e o meu sonho tornou-se realidade. Estou no clube do meu coração.»
O treinador também deixou elogios ao plantel leonino: «Uma coisa que me atraiu bastante e motivou bastante é a qualidade deste jovem plantel. Estou extremamente motivado para trabalhar com estes jovens de grande qualidade, em que acredito imenso e que tenho a certeza que vamos construir coisas especiais para o Sporting todos juntos.»
Seguiram-se depois as respostas aos jornalistas presentes no Business Hub do Estádio José Alvalade.
— Confirmou que é um sonho de criança estar no Sporting Clube de Portugal. Pergunto-lhe se este é também um grande desafio por apanhar a equipa a meio da temporada? E depois da máscara do Zorro e do estilo Peaky Blinders, que super-herói é que vai encarnar no Sporting?
— Como eu disse, estou consciente do momento. A minha preocupação neste momento é conhecer a fundo os jogadores, porque uma coisa é aquilo que vemos, outra coisa é quando trabalhamos diariamente com eles, e grande preocupação em fazer progredir a equipa, em melhorar a equipa, obviamente com as minhas ideias — e não estou a dizer que são melhores ou piores do que as do anterior treinador, o mister Rui Borges, são diferentes. E, neste momento, estou totalmente empenhado em fazer perceber aos jogadores aquilo que quero, aquilo que pretendo que eles executem, porque acredito que isso nos vai levar a ser uma equipa mais forte e que possa entrar em todos os jogos com um único objetivo, que é vencer.
— Porque é que achou que este é o momento certo para chegar ao Sporting?
— Primeiro, é difícil dizer não quando temos a possibilidade de concretizar um sonho. E eu senti, como já disse aqui, que este era o momento ideal, é o momento em que me sinto mais preparado para estar à altura das exigências de um clube como o Sporting. Naturalmente, as pessoas em Portugal recordam-se muito daquilo que foi o meu trajeto em Portugal. Eu saí para o estrangeiro com a clara ambição de progredir, de evoluir. Como já disse, tive a preocupação de estar nos melhores campeonatos. Embora — e confesso — tive durante este tempo muitos convites para as Arábias, para o Brasil, e o meu objetivo foi sempre continuar no top 5 para me preparar para este momento. E a verdade é que, naturalmente, eu sei que nem toda a gente acompanha os campeonatos lá fora. Provavelmente, hoje as pessoas não conhecem o Paulo Fonseca 2, conhecem o Paulo Fonseca que esteve há dez anos em Portugal. E eu garanto-vos que o Paulo Fonseca de hoje é diferente, e penso eu para melhor do que quando saí de Portugal, em função das minhas vivências, em função da forma como me preparei para este momento.
— Face à profunda alteração que o plantel sofreu, acha que consegue extrair muito mais desta equipa?
— Se eu não acreditasse, não estava aqui. Essa é que é a verdade e uma das coisas que me motivaram foi realmente a qualidade deste jovem plantel. Acho que temos um futuro brilhante pela frente. Acho que vai exigir muito de nós, muita dedicação, mas eu acredito plenamente no plantel que foi construído. Hoje já tive a oportunidade de realizar o primeiro treino. Se eu já estava entusiasmado, hoje ainda fiquei muito mais com a resposta dos jogadores. E, portanto, é uma coisa em que acredito plenamente: nós vamos ser mais fortes. Todos nós percebemos que muitos deles são jovens, há muitos que estão pela primeira vez em Portugal e esta mudança, por vezes, não é fácil, porque vêm de outros contextos noutros países. Mas o tempo vai demonstrar que as escolhas foram acertadas e que este é um plantel que vai dar garantias para o futuro no nosso clube.
— Este será um ano zero, ou tem a exigência de já lutar por títulos esta temporada? E haverá ou não mudanças no lote de capitães?
— Eu sou um treinador que acredita que os líderes devem ser referências nos plantéis. Acho que preciso de tempo para perceber, para conhecer os jogadores e decidir, em função desse conhecimento, se há essa necessidade ou não. A exigência no Sporting é sempre máxima. Como o presidente disse, são nove pontos. Eu acredito que no futebol não há impossíveis. Agora, devo dizer sinceramente que estou muito mais focado no processo, na evolução da equipa, nas respostas às nossas ideias, às nossas propostas. E dizer também que o tempo não é muito, o tempo para treinar, para preparar. Vamos tentar da melhor forma preparar a equipa para ser o máximo ambiciosa já no próximo sábado.
— Olhando em retrospetiva para o Paulo que até passou por outro grande e sabe a exigência que é treinar um grande cá em Portugal, o que é que mais mudou no Paulo como pessoa e como treinador face ao que saiu de Portugal?
— Eu passei por campeonatos que me obrigaram a mudar um pouco a minha visão do que é o jogo, do que é o treino. E por isso, devido às diferentes experiências nos diferentes campeonatos, nos diferentes contextos, senti que a esse nível mudei imenso. Mudei imenso. A nível pessoal, hoje já tenho mais dois filhos do que tinha na altura, já tenho quatro. Isso também nos obriga a ter mais responsabilidade. E acho que o tempo também nos muda, a idade também nos muda, nós amadurecemos e estamos mais abertos a aprender, a ouvir, a observar mais. Nós, quando começamos as nossas carreiras, achamos que sabemos tudo. E a verdade é que um treinador é um processo inacabado. Nós temos de ter a preocupação de estar em constante atualização e evolução.
— Tendo em conta o seu estilo de jogo e as características do plantel do Sporting, já tem alguma ideia de mudança concreta em algum momento do jogo do Sporting ou mesmo no sistema tático? Pensa trazer como base o sistema de três centrais ou a linha de quatro?
— Há tanto a dizer sobre isso. Fala-se muito em sistemas, eu acredito mais em estruturas. E as equipas hoje, as estruturas, apresentam uma flexibilidade que é exigida. Eu, para mim, neste momento, não estou muito preocupado com a estrutura, até porque a estrutura muda em função do momento do jogo, em função do espaço de jogo. Estou mais preocupado com outras coisas, com o ensinamento dos nossos princípios de jogo. E é nisto que me vou focar. Agora, não acho que neste momento possa ser uma opção, segundo as minhas ideias, dar continuidade àquilo que foi o último jogo, que é jogar com três centrais. Eu não sou, naturalmente, um grande adepto da linha de cinco, mas em determinados momentos do jogo posso tê-la, com diferentes jogadores.
— Foi dito que houve um telefonema da sua parte a Rui Borges. Queria saber se houve ou se não houve, o que falaram e como viu esta passagem de testemunho?
— Claro que houve um telefonema. Foi na altura em que começaram a sair essas notícias de que o Rui tinha recusado o meu telefonema. Ontem tive o prazer de falar com o Rui, uma conversa muito aberta, muito honesta, de dois treinadores que entendem, sem qualquer tipo de hipocrisia, o que são estes momentos. E a verdade é que estive bastante tempo à conversa com o Rui, uma conversa super agradável, de grande respeito, de grande admiração, como eu já confessei noutras alturas. Não falei só com o Rui, falei até com o Tiago, que é adjunto dele e que eu já conheço há muito tempo. E às vezes criam-se problemas onde as coisas são perfeitamente normais. Eu até lhe posso contar uma história: estava no Milan, a disputar um jogo com a Roma, e o treinador que me veio suceder já estava contratado. Tive de, no dia a seguir, tirar as minhas coisas à pressa do meu quarto e do meu cacifo porque o novo treinador queria entrar. E a verdade é que não recebi nenhum telefonema a seguir a isso, mas acreditem que nem tinha de o fazer. As coisas são assim, eu não levei a mal porque as coisas são assim e nós devemos, sem qualquer tipo de hipocrisia, perceber que estes processos são assim e são naturais.
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