O sucesso da época do Sporting depende de um jogo. O do Torreense também
Pode o sucesso de uma época depender de um jogo? Pode. Talvez seja injusto, mas pode.
Tome-se o caso do Sporting, que hoje defronta o Torreense na final da Taça de Portugal. Rui Borges, na conferência de imprensa de lançamento, defendeu que os leões fizeram «uma grande época», mesmo antes de saber o desfecho do jogo do Jamor.
Tem razão. O Sporting chegou pela segunda vez na sua história aos quartos de final da UEFA Champions League, e num formato bem mais complicado do que na primeira presença (em 1982/83, quando bastou eliminar Dínamo Zagreb e CSKA Sófia, com apenas uma vitória em quatro jogos, para o conseguir), tendo até terminado a difícil fase de liga nos oito primeiros; acabou a Liga no 2.º lugar (o que vale o apuramento para a Champions), com 82 pontos, os mesmos que lhe permitiram, no ano anterior, sagrar-se campeão; e está de novo na final da Taça. Contas feitas, sim, foi uma bela temporada, talvez não «grande», como diz Rui Borges, mas muito decente.
Só que há outro ângulo com que se pode olhar para a época. No campeonato, o leão tinha a hipótese de chegar ao tri e não o conseguiu; perdeu a Supertaça para o Benfica; foi eliminado na Allianz Cup pelo Vitória de Guimarães; e em sete jogos contra os grandes (quatro contra o FC Porto, três contra o Benfica), só venceu um, o que lhe abriu caminho, na primeira mão das meias-finais da Taça, para o Jamor.
Se, depois disto tudo, perdesse a final da Taça contra o Torreense, um clube da Liga 2, poderíamos realmente falar de uma «grande época»?
Afinal, o que fica no futebol? Acima de tudo, os troféus.
O Benfica 2012/2013 foi uma das melhores equipas deste século em Portugal. Em 56 jogos oficiais, incluindo 15 europeus, só perdeu seis. Hoje, 13 anos depois, alguns adeptos ainda recordam a qualidade daquela equipa, com Luisão, Garay, Matic, Enzo Pérez, Gaitán, Cardozo, Rodrigo… Mas poucos ou nenhuns benfiquistas lembram essa equipa com carinho. Mesmo com seis derrotas apenas, o Benfica não venceu qualquer título. Perdeu o campeonato na penúltima jornada, ao ser derrotado pelo golo de Kelvin no Dragão; perdeu a Liga Europa dias depois, frente ao Chelsea; e ainda viria a perder na final da Taça de Portugal, contra o Vitória de Guimarães. E sem títulos, o tempo se encarregará de apagar a memória de uma grande equipa – nem o Brasil de 1982 será eterno, ao contrário da Itália campeã mundial.
Por isso, para poder olhar para 2025/2026 com respeito, o Sporting precisa mesmo de vencer hoje o Torreense.
Que está numa situação parecida… não tanto em relação à final de hoje, mas em relação à de quinta-feira, com o Casa Pia, na segunda mão do play-off pela última vaga na Liga.
A temporada do Torreense também foi excecional. O apuramento para a final da Taça de Portugal foi histórico e, mesmo que a tarde não corra bem no Jamor, a equipa de Torres Vedras já tem o jogo das expectativas quase ganho – ninguém estranhará que perca contra o vice-campeão nacional, e estar na decisão, atendendo à dimensão do clube, à raridade do feito, ainda para mais estando a jogar a Liga 2, ficará para sempre.
Mas depois deste 2025/2026, terminar sem Taça e sem subida seria tremenda frustração. Também para o 3.º classificado da Liga 2, o sucesso da época depende de um jogo – ou de dois, vá, porque se o Torreense vencer a Taça, todos perdoarão se não subir.